O interior de Marte esconde uma diferença de temperatura gigantesca entre norte e sul: dados sísmicos sugerem rocha parcialmente derretida em profundidade
Estudo publicado na Nature revela que o manto sob o hemisfério sul de Marte pode estar até 400 °C mais quente e conservar rochas parcialmente fundidas
O interior de Marte apresenta uma diferença térmica surpreendente: o manto sob o hemisfério sul pode estar entre 200 °C e 400 °C mais quente que o norte. A descoberta, publicada na revista Nature em agosto de 2026, combina principalmente medições gravitacionais com evidências sísmicas e sugere que parte das rochas profundas pode estar parcialmente fundida, ajudando a explicar a evolução desigual do planeta vermelho.
Por que o interior de Marte apresenta temperaturas tão diferentes?
Marte possui uma divisão geológica marcante entre seus hemisférios. O norte apresenta extensas planícies de baixa altitude, enquanto o sul é dominado por terrenos elevados, craterizados e cobertos por uma crosta geralmente mais espessa. Essa diferença, conhecida como dicotomia crustal, representa um dos grandes enigmas da evolução marciana.
A nova pesquisa indica que essa divisão não se limita à superfície. O manto, camada rochosa situada entre a crosta e o núcleo, também apresenta diferenças importantes. A anomalia térmica estimada entre 200 °C e 400 °C sugere que o hemisfério sul conservou mais calor, possivelmente devido à circulação interna de materiais ou ao isolamento proporcionado pela crosta espessa.
Como os cientistas descobriram a diferença de temperatura no interior de Marte?
A equipe analisou pequenas mudanças no campo gravitacional de Marte registradas pelas sondas Mars Global Surveyor, Mars Odyssey e Mars Reconnaissance Orbiter. Essas alterações acontecem porque o planeta responde às forças gravitacionais e às variações sazonais associadas à sua órbita. O comportamento observado permite investigar propriedades físicas das camadas profundas.
Os pesquisadores identificaram diferenças de até 300% entre certos componentes das variações gravitacionais medidas e as previsões para um planeta perfeitamente simétrico. Modelos matemáticos indicaram que essas alterações podem ser explicadas por diferenças superiores a 20% na rigidez do manto. Registros sísmicos da missão InSight fornecem evidências complementares dessa assimetria.
Entre os principais resultados estão:
- Diferença térmica estimada entre 200 °C e 400 °C;
- Manto mais quente sob as terras altas do hemisfério sul;
- Variações de rigidez superiores a 20%;
- Diferenças gravitacionais de até 300% em componentes analisados;
- Possibilidade de fusão parcial de rochas profundas;
- Evidências complementares obtidas pela missão InSight.

Como o calor pode manter parte das rochas de Marte derretida?
O manto de um planeta não precisa estar completamente líquido para apresentar movimento. Mesmo formado predominantemente por rochas sólidas, pode sofrer deformações extremamente lentas ao longo de milhões de anos. Quando a temperatura aumenta suficientemente, determinados minerais começam a fundir, produzindo pequenas quantidades de material líquido entre os cristais.
No hemisfério sul de Marte, o calor adicional pode favorecer essa fusão parcial abaixo da litosfera, camada externa rígida do planeta. O material produzido poderia subir lentamente e permanecer retido na crosta, sem necessariamente alcançar a superfície. Entretanto, a pesquisa não demonstrou diretamente a existência de um oceano de magma sob o sul marciano. A fusão parcial é uma consequência possível das temperaturas estimadas.
Quais evidências científicas confirmam a anomalia térmica de Marte?
O estudo foi liderado por Alexander Berne, pesquisador da Universidade do Arizona e ex-aluno do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech). Publicada em 27 de agosto de 2026 na revista Nature, a pesquisa sobre a anomalia térmica de Marte utilizou uma técnica chamada tomografia de marés. O método interpreta pequenas deformações gravitacionais para investigar diferenças nas propriedades físicas do interior planetário.
Os resultados também são compatíveis com observações sísmicas anteriores da missão InSight. Tremores originados na região sul de Terra Cimmeria apresentam maior atenuação das ondas sísmicas do que eventos associados a Cerberus Fossae, no norte. Essa diferença pode estar relacionada a temperaturas elevadas e à presença de pequenas frações de material fundido. Entretanto, a estimativa de 200 °C a 400 °C resulta principalmente dos modelos gravitacionais, não de termômetros instalados no interior marciano.
Quais diferenças existem entre os hemisférios norte e sul de Marte?
A distinção mais visível está na superfície. O hemisfério norte possui extensas planícies relativamente baixas, enquanto o sul concentra terrenos antigos, elevados e intensamente craterizados. A crosta meridional também é geralmente mais espessa, característica que pode dificultar a perda de calor acumulado nas camadas inferiores ao longo de bilhões de anos.
A nova investigação acrescenta uma diferença térmica profunda a esse contraste geológico. Os modelos indicam que o manto meridional pode apresentar menor rigidez e temperaturas significativamente superiores às do norte. Essas condições favoreceriam processos de deformação e, possivelmente, fusão parcial das rochas, embora a quantidade de material líquido ainda não tenha sido determinada.
| Característica | Hemisfério norte | Hemisfério sul |
|---|---|---|
| Relevo | Planícies baixas | Terras altas craterizadas |
| Crosta | Geralmente mais fina | Geralmente mais espessa |
| Manto | Comparativamente mais frio | 200 a 400 °C mais quente |
| Rigidez | Relativamente maior | Possivelmente menor |
| Fusão parcial | Não indicada por essa comparação | Possível em profundidade |
O que a descoberta pode revelar sobre a evolução geológica de Marte?
A origem da diferença térmica ainda é desconhecida. Entre as hipóteses estão movimentos antigos de convecção no manto, o isolamento provocado pela crosta espessa do hemisfério sul e consequências de grandes impactos ocorridos no passado. Cada mecanismo poderia influenciar a distribuição do calor e a evolução da superfície marciana de maneira diferente.
A descoberta também pode ajudar a compreender antigas atividades vulcânicas, anomalias magnéticas e a formação de bacias que possivelmente armazenaram água. O calor preservado no interior de Marte não comprova a existência de vulcanismo ativo generalizado, mas indica que o planeta mantém uma estrutura térmica mais complexa do que se imaginava. Novas medições geofísicas serão fundamentais para determinar a profundidade, a extensão e a origem dessa diferença entre os hemisférios.
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