O experimento iniciado em 1927 que espera quase uma década para registrar uma única gota
A montagem australiana mostra que uma substância capaz de se quebrar como vidro pode escoar lentamente durante décadas.
Dentro de uma vitrine na Austrália, um funil aparentemente imóvel desafia gerações de estudantes e cientistas. O que parece não mudar guarda uma demonstração tão lenta que nenhum responsável pelo projeto conseguiu acompanhar todos os seus momentos decisivos.
Como começou o experimento da gota de piche em 1927?
O físico Thomas Parnell montou a experiência na Universidade de Queensland para mostrar aos alunos que alguns materiais podem parecer sólidos, embora se comportem como fluidos em uma escala de tempo muito longa. Ele aqueceu uma amostra de piche, colocou a substância em um funil de vidro com a haste selada e deixou o material descansar durante três anos.
Em 1930, Parnell cortou a extremidade do funil e permitiu que o conteúdo começasse a escorrer. À temperatura ambiente, o piche fica duro ao toque e pode até se partir como vidro quando recebe uma pancada. No entanto, a experiência mostrou que ele continua fluindo lentamente sob a ação da gravidade.
Quais etapas mantêm a experiência funcionando há tantas décadas?
A montagem possui poucos componentes, mas exige uma espera extraordinária. O piche permanece dentro de um funil apoiado sobre um recipiente, enquanto a parte inferior se alonga aos poucos até tocar ou cair sobre as gotas acumuladas. Uma cobertura transparente protege o conjunto sem impedir que as mudanças de temperatura do ambiente influenciem o fluxo.
- Funil de vidro com a amostra de piche
- Haste inferior aberta desde 1930
- Recipiente para receber as gotas
- Estrutura transparente de proteção
- Câmera para acompanhar o movimento
O vídeo “Pitch Drop Time Lapse 3 years to date”, publicado pelo canal UQ Science, reúne imagens gravadas entre 2012 e 2015. A sequência mostra o experimento da gota de piche em movimento acelerado e permite perceber a deformação que seria praticamente invisível durante uma observação comum. A gravação também registra a formação da gota seguinte depois do contato ocorrido em 2014.
O que o experimento da gota de piche revelou sobre o material?
As observações permitiram estimar que o piche utilizado possui uma viscosidade aproximadamente 100 bilhões de vezes maior que a da água. Viscosidade é a resistência que um fluido apresenta ao escoamento. A água se desloca com facilidade, enquanto o piche precisa de anos para percorrer apenas alguns centímetros dentro do funil.
O projeto também demonstra que as categorias “sólido” e “líquido” nem sempre podem ser definidas apenas pela aparência. Um material pode resistir a movimentos rápidos e, ao mesmo tempo, deformar-se lentamente quando uma força permanece aplicada por anos. Por isso, o piche parece rígido durante uma observação curta, mas revela seu fluxo quando acompanhado por décadas.
Quantas gotas já caíram desde que o funil foi aberto?
Sete gotas se formaram entre 1930 e 1988, com uma média aproximada de uma queda a cada oito anos. A oitava caiu em 28 de novembro de 2000. Já a nona não despencou de maneira repentina: em abril de 2014, ela tocou suavemente a gota acumulada no recipiente e foi considerada concluída pelos responsáveis.
O intervalo não permanece idêntico porque a temperatura interfere diretamente na viscosidade. Em dias mais quentes, o material tende a fluir com maior facilidade; em períodos frios, o movimento diminui. Mudanças no controle de temperatura do prédio também ajudam a explicar por que algumas gotas demoraram mais do que outras.

Por que ninguém conseguiu ver claramente todas as gotas caindo?
A espera dura anos, mas a separação final pode acontecer em uma fração de segundo. Thomas Parnell morreu sem testemunhar uma queda. Décadas depois, o professor John Mainstone acompanhou a montagem por mais de meio século, porém perdeu os momentos decisivos por coincidências como ausência do laboratório e problemas de gravação.
Uma câmera foi instalada para acompanhar o experimento da gota de piche, mas a nona formação contrariou novamente as expectativas. Em vez de se separar e cair livremente, ela encostou lentamente na massa que estava abaixo. A gravação em lapso de tempo permitiu documentar o movimento, embora não tenha registrado aquela queda rápida imaginada pelos observadores.
Quando o experimento da gota de piche finalmente terminará?
Não existe uma data prevista para o encerramento. A Universidade de Queensland continua preservando a montagem, e ainda há material suficiente no funil para que novas gotas se formem. Uma estimativa divulgada pela instituição indicou que o conteúdo poderia manter a experiência por mais de um século, dependendo da velocidade futura do escoamento.
Reconhecido pelo Guinness World Records como o experimento de laboratório de maior duração, o projeto se aproxima de completar cem anos em 2027. Sua importância não está em produzir resultados rápidos, mas em tornar visível um processo que ultrapassa a duração de uma carreira científica e mostra como a matéria pode se comportar de maneira diferente quando o tempo de observação muda.
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