O dodo pode ter enxergado o mundo de forma muito diferente e tomografias sugerem olfato mais desenvolvido e bico sensível ao toque
Reconstruções digitais dos raros crânios de dodo revelam pistas sobre olfato, tato pelo bico e possível atividade em condições de pouca luz
Séculos depois de desaparecer das Ilhas Maurício, o dodo ainda preserva pistas sobre como percebia o ambiente. Tomografias computadorizadas de três crânios, incluindo os dois únicos exemplares completos conhecidos, permitiram reconstruir digitalmente cavidades cerebrais e nervos cranianos. Os sentidos do dodo parecem ter sido diferentes dos observados na maioria dos pombos atuais, com possíveis vantagens no olfato e no processamento tátil pelo grande bico superior.
O que as tomografias revelaram sobre os sentidos do dodo?
O estudo comparou Raphus cucullatus com 36 espécies atuais de pombos e rolas, além do extinto solitário-de-rodrigues, Pezophaps solitaria. Os cientistas produziram moldes digitais do interior dos crânios, chamados endocasts, que preservam informações indiretas sobre a forma e o tamanho relativo de diferentes regiões cerebrais.
Os dois crânios completos estão preservados no Natural History Museum Denmark e no Oxford University Museum of Natural History. Um terceiro exemplar, parcialmente preservado, também entrou na análise, permitindo que os pesquisadores separassem características individuais daquelas provavelmente típicas da espécie.
Como o crânio permitiu reconstruir capacidades que desapareceram com o animal?
O cérebro propriamente dito não sobreviveu, mas deixou sua forma registrada dentro da caixa craniana. Os pesquisadores também mediram canais utilizados por nervos que transmitiam informações do bico, dos olhos e de outras estruturas sensoriais, comparando suas proporções com as de aves vivas.
A análise revelou um conjunto incomum de características. Os bulbos olfatórios eram proporcionalmente grandes, enquanto determinadas estruturas relacionadas à visão diferiam das observadas na maioria dos Columbiformes. O ramo oftálmico do nervo trigêmeo também era ampliado.
- Bulbos olfatórios relativamente grandes;
- Bico superior excepcionalmente desenvolvido;
- Ramo oftálmico do trigêmeo ampliado;
- Tecto óptico proporcionalmente reduzido;
- Olhos grandes em termos absolutos.
Este vídeo do Oxford University Museum of Natural History mostra como tomografias foram usadas para investigar o famoso espécime de dodo preservado em Oxford.
Por que os sentidos do dodo podem ter incluído um olfato mais importante?
Nos dois exemplares em que os bulbos olfatórios puderam ser reconstruídos, o tamanho variou bastante. Em média, porém, eles eram significativamente maiores em relação ao cérebro do que nos pombos comparados. Em um dos espécimes, esses bulbos correspondiam a cerca de 3,44% do volume do endocast.
Isso é compatível com um papel importante do cheiro na procura de alimentos, mas os próprios autores evitam transformar anatomia em comportamento comprovado. A quantidade de dados comparativos entre aves ainda é limitada, e diferenças individuais entre os dois crânios completos exigem cautela.
O bico realmente funcionava como um órgão de tato refinado?
O ramo oftálmico do nervo trigêmeo era grande no dodo e provavelmente transmitia informações sensoriais provenientes do enorme bico superior. Uma possibilidade é que o aumento estivesse associado a maior processamento tátil, embora também possa refletir simplesmente a superfície ampliada que precisava ser inervada.
O estudo publicado no Zoological Journal of the Linnean Society ressalta justamente essa incerteza. Diferentemente de aves especializadas em detectar alimento pelo contato do bico, o dodo não apresentou expansão equivalente em todas as partes do sistema trigeminal.

O que os sentidos do dodo indicam sobre sua atividade durante o dia?
O dodo tinha olhos grandes em termos absolutos, com comprimento axial reconstruído próximo de 23 milímetros, mas apresentava uma região visual cerebral proporcionalmente reduzida. Em outras aves, combinações semelhantes aparecem associadas à sensibilidade em condições de menor luminosidade.
Por isso, os pesquisadores consideram plausível que sua atividade não fosse exclusivamente diurna. O animal poderia procurar alimento também ao amanhecer, ao entardecer ou em períodos mais escuros, embora essa hipótese não possa ser comprovada apenas pelos crânios disponíveis.
| Estrutura | Interpretação possível |
|---|---|
| Bulbos olfatórios | Maior importância do olfato |
| Nervo trigêmeo | Informação tátil do bico superior |
| Tecto óptico | Processamento visual incomum |
| Olhos | Possível atividade em baixa luminosidade |
Essa anatomia muda a imagem popular do dodo?
O estudo também não encontrou evidência de um cérebro excepcionalmente pequeno. A região anterior associada a funções cognitivas estava dentro do esperado para um pombo de seu porte, contrariando a antiga caricatura do dodo como uma ave particularmente pouco inteligente.
O resultado mais importante é justamente substituir estereótipos por hipóteses testáveis. Em vez de uma ave simplesmente desajeitada, o dodo surge como um animal insular com uma combinação própria de visão, olfato e sensibilidade do bico, moldada pelas condições ecológicas de Maurício antes de sua extinção no século XVII.
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