O dia em que o Everest se transformou em uma armadilha mortal e os sobreviventes precisaram enfrentar escolhas impossíveis
Uma nevasca atingiu várias expedições perto do topo e transformou a descida em uma luta desesperada contra o frio e a falta de oxigênio
Em maio de 1996, dezenas de alpinistas avançavam em direção ao ponto mais alto do planeta quando o tempo mudou de forma brutal. Em poucas horas, o Everest deixou de ser o objetivo de uma vida e se transformou em uma armadilha de gelo, vento e falta de oxigênio, enquanto os sobreviventes tentavam encontrar o caminho de volta.
Por que tantos alpinistas subiram no mesmo dia?
Na madrugada de 10 de maio de 1996, diferentes expedições deixaram o Acampamento IV, no Colo Sul, para tentar alcançar o cume do Everest. Entre elas estavam os grupos comerciais Adventure Consultants, liderado por Rob Hall, e Mountain Madness, comandado por Scott Fischer.
O plano era chegar ao topo e iniciar a descida cedo, antes da piora do tempo e do anoitecer. Porém, atrasos na instalação de cordas, filas em trechos estreitos e o ritmo lento de alguns participantes consumiram horas preciosas, fazendo com que várias pessoas alcançassem o cume muito depois do horário considerado seguro.
Como começou a tragédia do Everest em 1996?
Durante a descida, nuvens escuras avançaram sobre a montanha e uma forte nevasca reduziu a visibilidade quase a zero. O vento apagou rastros, dificultou a comunicação e impediu que alpinistas exaustos reconhecessem o caminho até as barracas, mesmo quando estavam relativamente próximos do acampamento.
- Filas e atrasos durante a subida
- Cordas que precisaram ser instaladas no mesmo dia
- Chegadas tardias ao cume
- Pouco oxigênio disponível para a descida
- Exaustão acumulada durante muitas horas
- Nevasca intensa perto do anoitecer
- Visibilidade quase inexistente no Colo Sul
- Oito mortes entre 10 e 11 de maio
Leia também: A lula que brilha no escuro e usa luz como truque para confundir presas e predadores no oceano profundo
Para complementar o tema, o canal PBS apresenta o documentário “The 1996 Disaster · STORM OVER EVEREST · PBS Documentary”. O material reúne depoimentos de pessoas que estavam na montanha, reconstrói a chegada da tempestade e mostra como as decisões tomadas durante a subida influenciaram a luta pela sobrevivência:
O que acontece com o corpo na Zona da Morte?
Acima de aproximadamente 8 mil metros começa a chamada Zona da Morte, onde a quantidade de oxigênio disponível é insuficiente para que o organismo permaneça por longos períodos sem sofrer deterioração. O raciocínio fica mais lento, os movimentos perdem precisão e tarefas simples podem exigir um esforço enorme.
Naquela noite, muitos alpinistas já estavam sem dormir, com pouca água, alimentação limitada e cilindros de oxigênio próximos do fim. A sobrevivente Charlotte Fox relatou à American Alpine Club que o grupo enfrentou temperaturas próximas de -40 °C e ventos estimados em cerca de 112 km/h enquanto tentava permanecer unido no escuro.
O que os números da tragédia do Everest em 1996 revelam?
O cume do Everest tinha então 8.848 metros de altitude, enquanto o Acampamento IV ficava a aproximadamente 7.986 metros. Essa diferença de cerca de 862 metros parece pequena no papel, mas o percurso exige muitas horas em um ambiente onde cada passo consome as poucas reservas físicas restantes.
Entre as vítimas estavam os líderes Rob Hall e Scott Fischer, além de Andrew Harris, Doug Hansen, Yasuko Namba e três integrantes de uma equipe indo-tibetana na face norte. As mortes não aconteceram em um único ponto, mas durante diferentes tentativas de descida, espera e resgate em condições extremas.
Como alguns sobreviventes conseguiram voltar?
No Colo Sul, um grupo ficou desorientado pela tempestade e precisou permanecer reunido para conservar calor até que a visibilidade melhorasse. Quando alguns conseguiram localizar as barracas, o guia Anatoli Boukreev saiu várias vezes sozinho durante a noite e conduziu alpinistas debilitados de volta ao acampamento.
Outro relato marcante foi o de Beck Weathers, que havia sido considerado incapaz de caminhar e permaneceu exposto por muitas horas. Contra as expectativas, ele recuperou a consciência, levantou-se e conseguiu chegar às barracas, tornando-se um dos sobreviventes mais conhecidos da tragédia, embora tenha sofrido lesões graves provocadas pelo frio.

Por que a tragédia do Everest em 1996 ainda provoca debates?
Os sobreviventes apresentaram relatos diferentes sobre horários, decisões e responsabilidades. Alguns criticaram a demora para abandonar a tentativa de chegar ao cume, o congestionamento na rota e a pressão sobre clientes que haviam investido grandes valores para participar da expedição comercial.
Outros lembraram que, em altitudes extremas, a percepção de tempo, distância e risco pode ficar profundamente alterada. A combinação entre tempestade, exaustão, decisões tardias e pouco oxigênio criou uma sequência de problemas que nenhum participante conseguiu controlar sozinho.
O que os relatos dos sobreviventes deixaram como alerta?
A tragédia mostrou que experiência, equipamentos e guias especializados não eliminam os riscos do Everest. Quando o clima muda na Zona da Morte, o tempo disponível para reagir pode ser muito curto, enquanto o corpo perde justamente as capacidades necessárias para tomar decisões rápidas e precisas.
Os depoimentos também revelam o peso das escolhas feitas durante um desastre em grande altitude. Resgatar alguém pode colocar outras vidas em perigo, mas abandonar uma pessoa ainda capaz de sobreviver pode se tornar uma lembrança permanente para quem retorna da montanha.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)