O carro de 10,6 toneladas com dois motores de caça e 110 mil cavalos que atingiu 1.227,985 km/h no deserto e quebrou a barreira do som no solo
Pilotado por Andy Green em 1997, o veículo usou turbinas de caças F-4 Phantom e continua com o recorde mundial de velocidade terrestre
Em outubro de 1997, uma máquina britânica de 16,5 metros surgiu no horizonte do deserto de Nevada cercada por uma nuvem de poeira. Ela não se parecia com um automóvel tradicional e, quando acelerou, fez algo que nenhum veículo terrestre havia conseguido comprovar oficialmente: ultrapassou a velocidade do som com as rodas tocando o chão.
Como nasceu o recorde do ThrustSSC no deserto de Nevada?
O projeto foi liderado por Richard Noble, que já havia estabelecido o recorde mundial de velocidade terrestre em 1983 com o Thrust2, a 1.019,47 km/h. Como aquele veículo estava próximo de seu limite técnico, Noble reuniu engenheiros para criar uma máquina capaz de enfrentar o próximo grande desafio: superar aproximadamente 1.200 km/h sem perder contato com o solo.
A tentativa decisiva ocorreu em 15 de outubro de 1997, no Black Rock Desert, em Nevada, nos Estados Unidos. Pilotado por Andy Green, o ThrustSSC registrou média oficial de 763,035 milhas por hora, equivalentes a 1.227,985 km/h, no trecho de uma milha cronometrada. A Federação Internacional do Automóvel reconheceu a marca como o primeiro recorde terrestre supersônico, alcançado a Mach 1,016.
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Como dois motores de caça construíram o recorde do ThrustSSC?
Em vez de transmitir potência para as rodas, o ThrustSSC era impulsionado diretamente pelo jato expelido por dois motores turbofan Rolls-Royce Spey 202 com pós-combustão. Essas unidades haviam sido desenvolvidas para os caças britânicos F-4 Phantom II e foram instaladas nas laterais do cockpit, fazendo o veículo avançar com um princípio semelhante ao de uma aeronave sobre a pista.
- Motores: Dois Rolls-Royce Spey 202
- Origem: Caças britânicos F-4 Phantom II
- Empuxo combinado: Aproximadamente 223 quilonewtons
- Potência equivalente estimada: Cerca de 110 mil cavalos
- Consumo em velocidade máxima: Aproximadamente 18 litros por segundo
O vídeo “Thrust SSC — still the only car to travel faster than the speed of sound”, publicado pelo canal Bloodhound LSR, reúne imagens originais da corrida e permite ouvir o impacto das ondas de choque enquanto o veículo atravessa o deserto. O material também mostra a preparação da equipe e a passagem extremamente rápida do ThrustSSC diante das câmeras, complementando visualmente a dimensão do feito registrado em 1997.
Por que quebrar a barreira do som sobre o chão era tão perigoso?
A dificuldade não estava apenas em alcançar velocidade suficiente. Ao se aproximar de Mach 1, o ar comprimido ao redor da carroceria formava ondas de choque que atingiam o solo e retornavam em direção ao veículo. Essa pressão poderia gerar força de sustentação na parte dianteira, reduzindo o contato das rodas com o deserto e ameaçando transformar o carro de mais de dez toneladas em uma máquina instável.
Para compreender essas forças, a equipe testou modelos em túnel de vento transônico e utilizou cálculos computacionais de dinâmica dos fluidos. O veículo recebeu suspensão ativa, sensores de carga e uma carroceria projetada para equilibrar sustentação e pressão contra o solo. Excesso de força para baixo também seria problemático, pois faria as rodas afundarem na superfície seca e aumentaria o arrasto.
Quais números mostram que o ThrustSSC estava mais próximo de um avião?
O veículo media 16,5 metros de comprimento, tinha 3,7 metros de largura e pesava aproximadamente 10,6 toneladas. O piloto ficava entre os dois enormes motores, dentro de uma estrutura central estreita. Suas rodas eram peças sólidas de alumínio forjado, sem pneus, pois borracha convencional não resistiria às rotações e às forças produzidas naquela velocidade.
A referência aos 110 mil cavalos é uma conversão aproximada do empuxo produzido pelos motores, porque turbinas a jato não entregam potência às rodas como um automóvel comum. O dado ajuda a visualizar a escala da máquina: durante a corrida, os dois Spey produziam cerca de 50 mil libras-força de empuxo e consumiam aproximadamente 18 litros de combustível de aviação por segundo.
Como Andy Green controlou o recorde do ThrustSSC acima de 1.200 km/h?
Andy Green era piloto de caça da Real Força Aérea britânica e foi escolhido para permanecer no cockpit entre dois motores militares durante a aceleração supersônica. Diferentemente dos carros comuns, o ThrustSSC utilizava direção nas rodas traseiras, solução que permitia reduzir a largura da parte dianteira e diminuir as aberturas capazes de produzir arrasto aerodinâmico.
Mais de 120 sensores acompanhavam o funcionamento dos motores, a suspensão, a pressão sob a carroceria, a velocidade das rodas e as acelerações. Se surgisse um desequilíbrio grave entre as turbinas, o sistema poderia desligá-las automaticamente. Para desacelerar, Green acionava paraquedas em alta velocidade e utilizava freios a disco apenas quando o veículo já estava abaixo de aproximadamente 320 km/h.

Por que a velocidade oficial não foi medida em apenas uma passagem?
Recordes terrestres em linha reta são calculados pela média de duas corridas feitas em sentidos opostos. Essa regra reduz a influência do vento e de eventuais diferenças na superfície. Em 1997, o ThrustSSC rompeu a barreira do som nas duas direções, permitindo que a marca média de 1.227,985 km/h fosse homologada sobre a milha lançada.
Décadas depois, a máquina continua sendo a detentora oficial do recorde absoluto de velocidade terrestre reconhecido pela FIA. O ThrustSSC está preservado no Coventry Transport Museum, na Inglaterra, ao lado do Thrust2. Sua carroceria preta permanece como lembrança do dia em que um piloto, dois motores de caça e quatro rodas de alumínio produziram ondas de choque no deserto e transformaram um carro em uma máquina supersônica.
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