O canoísta que passou 99 dias cruzando o Atlântico em um caiaque de fibra de vidro e dormiu preso às ondas
O aventureiro polonês cruzou o Atlântico movido apenas pela força dos braços e transformou um caiaque especial em sua casa durante meses
Em 2010, um polonês de 64 anos apontou um caiaque especialmente construído para o oceano em direção ao Brasil e começou a remar. A primeira travessia de Aleksander Doba pelo Atlântico duraria 99 dias, exigindo que ele dormisse em um compartimento minúsculo, produzisse água potável e enfrentasse tempestades sem vela ou motor.
Por que a travessia de Aleksander Doba demorou 99 dias?
Doba deixou Dakar, no Senegal, em 26 de outubro de 2010 e chegou a Acaraú, no Ceará, em 2 de fevereiro de 2011. O Guinness reconhece a jornada como a primeira travessia do Atlântico de leste para oeste em caiaque entre continentes realizada dessa forma. Os famosos “64 dias” provavelmente surgiram de uma confusão com sua idade: Doba tinha 64 anos quando partiu.
O caiaque OLO não se parecia com um modelo recreativo. Media aproximadamente sete metros e havia sido desenvolvido especialmente para travessias oceânicas. Doba dependia apenas da força muscular para propulsão, embora correntes e ventos naturalmente influenciassem profundamente sua trajetória enquanto ele atravessava milhares de quilômetros de oceano.
Como ele conseguia comer, beber e descansar sozinho no oceano?
Água era uma preocupação constante. O equipamento incluía um sistema de dessalinização, mas na primeira travessia ele enfrentou problemas no aparelho e também precisou captar água da chuva. Sua alimentação incluía comida desidratada e outros mantimentos levados desde a partida, além de peixes obtidos durante a viagem.
A rotina reunia tarefas que em terra seriam banais, mas no meio do Atlântico se transformavam em questões de sobrevivência.
- Remava durante longos períodos ao longo do dia e da noite.
- Administrava cuidadosamente comida e água potável.
- Fazia reparos no próprio equipamento quando necessário.
- Usava uma âncora de mar para controlar a deriva em certas condições.
- Dormia em períodos curtos dentro do pequeno compartimento do caiaque.
O vídeo da Great Big Story apresenta Aleksander Doba e mostra de perto o caiaque usado em suas expedições, o espaço extremamente limitado a bordo e a preparação necessária para enfrentar o Atlântico sozinho.
Como a travessia de Aleksander Doba permitia dormir em pleno oceano?
Dormir não significava ancorar o caiaque no fundo do mar. Em águas oceânicas profundas isso seria inviável. Doba utilizava uma âncora de mar, equipamento lançado na água para criar resistência e reduzir a deriva ou manter a embarcação orientada de maneira mais segura diante das ondas.
Nas travessias posteriores, registros mostram que ele dormia dentro de uma pequena cabine do OLO. A National Geographic relatou que, na expedição de 2013-2014, ele dormia no máximo cerca de seis horas diárias divididas em vários períodos, apertado entre equipamentos e alimentos.
Por que o caiaque não virava definitivamente durante grandes ondas?
O OLO foi construído muito além das características de um caiaque convencional. Sua estrutura reforçada de fibra de vidro incluía compartimento fechado, equipamentos de navegação e características pensadas para enfrentar longos períodos em mar aberto. Na terceira travessia, uma versão carregada chegou a pesar aproximadamente 1.600 libras.
Ainda assim, não existia garantia contra acidentes. Em 2017, enquanto Doba dormia durante uma forte tempestade, o leme ficou preso aos cabos da âncora de mar e sofreu danos graves. O episódio mostra que a embarcação oferecia proteção, mas continuava vulnerável às forças do oceano.
O que aconteceu quando o equipamento de produzir água apresentou problemas?
Na primeira travessia, o dessalinizador sofreu uma avaria, obrigando Doba a administrar outras fontes disponíveis. Ele coletava chuva e mantinha alimentos planejados para uma jornada longa. Segundo relato contemporâneo da Wired, também consumiu peixes pescados durante o percurso.
O caso mostra por que uma travessia autossuficiente precisa de redundância. Um equipamento essencial pode falhar quando não existe porto próximo ou equipe acompanhando a embarcação. Doba ainda utilizava comunicação por satélite e painéis solares para manter determinados equipamentos eletrônicos funcionando.

Por que a travessia de Aleksander Doba entrou para a história?
A primeira jornada já seria extraordinária, mas Doba voltou ao Atlântico outras duas vezes. Em sua carreira, completou três travessias oceânicas solo e acumulou 387 dias no mar. Em 2017, aos 70 anos na partida, tornou-se também o homem mais velho reconhecido pelo Guinness a completar uma travessia oceânica em caiaque.
O Guinness World Records registra sua primeira travessia entre Senegal e Brasil em 99 dias. A façanha não depende de uma história inventada de 64 dias ou de alguém simplesmente “dormindo ancorado”: o feito real envolve meses preso a uma embarcação minúscula, administrando cada litro de água e cada período de descanso no meio do oceano.
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