O avião hipersônico secreto que atingiu a velocidade inacreditável de 7.200 km/h e derreteu parte da própria estrutura no voo
O avião-foguete atingiu Mach 6,7 em 1967 e voltou ao solo com sérios danos térmicos apesar de uma proteção especial criada para suportar velocidades extremas
Muito antes de aviões hipersônicos voltarem aos projetos militares modernos, o North American X-15 já atravessava a atmosfera em velocidades que pareciam impossíveis para uma aeronave tripulada. Em 3 de outubro de 1967, o piloto William “Pete” Knight chegou a Mach 6,7, aproximadamente 7.274 km/h, mas o recorde teve um preço: mesmo protegido por uma camada térmica especial, o avião voltou ao solo apresentando sérios danos provocados pelo calor extremo.
Como o North American X-15 conseguia ultrapassar 7.000 km/h sem ser um foguete convencional?
O X-15 era um avião-foguete experimental desenvolvido pela North American Aviation dentro de um programa conjunto envolvendo NASA, Força Aérea dos Estados Unidos e outras organizações. Ele não decolava sozinho de uma pista. Um bombardeiro B-52 transportava a aeronave até grande altitude e então a liberava, permitindo que o piloto acionasse seu poderoso motor-foguete XLR-99.
O motor podia produzir aproximadamente 57.000 libras de empuxo e queimava amônia anidra e oxigênio líquido. Em vez de permanecer horas no céu, cada missão era curta e intensa: o X-15 acelerava rapidamente, realizava os experimentos previstos e depois retornava sem potência, planando até pousar sobre o leito seco de um lago em Edwards, na Califórnia.
O que aconteceu quando o piloto levou a máquina até Mach 6,7?
Em 3 de outubro de 1967, Pete Knight foi lançado com o X-15A-2 especialmente modificado. A aeronave carregava tanques externos de combustível e uma proteção ablativa aplicada sobre sua estrutura. Knight conseguiu levá-la a 4.520 milhas por hora, aproximadamente 7.274 km/h, alcançando Mach 6,7 e estabelecendo o maior valor de velocidade de todo o programa X-15.
A configuração daquele voo incluía elementos especialmente preparados para o recorde:
- Dois tanques externos para ampliar o tempo de funcionamento do motor.
- Revestimento ablativo para enfrentar o aquecimento aerodinâmico.
- Cobertura externa branca sobre a proteção térmica.
- Um modelo de ramjet instalado na região inferior da aeronave.
- Estrutura externa construída principalmente com liga resistente ao calor.
O vídeo “North American X-15 hypersonic rocket aircraft” reúne imagens históricas do programa e mostra o avião-foguete que chegou a Mach 6,7, além dos procedimentos de lançamento a partir do B-52 e dos voos próximos à fronteira do espaço. O conteúdo ajuda a visualizar por que o X-15 parecia muito mais uma nave experimental do que um avião convencional.
Por que o North American X-15 não derreteu completamente em velocidades tão extremas?
A principal estrutura externa utilizava Inconel X, uma liga à base de níquel e cromo escolhida justamente por conservar resistência mecânica em temperaturas elevadas. A cabine de alumínio ficava termicamente isolada dessa pele externa, ajudando a impedir que o ambiente ao redor do piloto acompanhasse diretamente as temperaturas atingidas na superfície.
Mas, para o voo recorde, isso ainda não era suficiente. O X-15A-2 recebeu uma camada ablativa especial, descrita pela NASA como um material semelhante a uma borracha rosada, posteriormente coberto por um selante branco. Essa proteção foi desenvolvida para absorver parte da carga térmica e se degradar de maneira controlada, em vez de permitir que todo o calor atingisse diretamente a estrutura metálica. A NASA documenta o sistema e a história do X-15 como parte central das pesquisas sobre aquecimento hipersônico.
O calor realmente derreteu parte do avião durante aquele voo recorde?
A versão popular de que “a asa derreteu no pouso” não descreve corretamente o que aconteceu. O dano ocorreu durante o voo hipersônico por causa do intenso aquecimento aerodinâmico. Fotografias oficiais da NASA feitas depois da missão mostram claramente os danos térmicos deixados no X-15A-2 após atingir Mach 6,7.
Uma das áreas mais afetadas ficava ao redor do modelo de ramjet instalado sob a seção ventral. A Força Aérea registra que o intenso calor danificou severamente a carenagem e fez o ramjet fictício se desprender. A aeronave conseguiu retornar e pousar, mas os danos foram suficientemente sérios para contribuir para o abandono dos planos de testar posteriormente um ramjet funcional naquele X-15.
| Característica | Número | O que representa |
|---|---|---|
| Velocidade máxima | Mach 6,7 | Cerca de 7.274 km/h |
| Altitude do voo recorde | 31.120 m | Mais de 31 km sobre a superfície |
| Motor | XLR-99 | Motor-foguete de empuxo regulável |
| Voos do programa | 199 | Missões realizadas durante quase dez anos |
Por que voar tão rápido fazia a superfície esquentar mesmo no ar gelado da alta atmosfera?
Popularmente, o fenômeno costuma ser chamado apenas de “atrito com o ar”, mas a física é mais complexa. Em voo hipersônico, o ar diante da aeronave é violentamente comprimido e sofre enormes alterações de pressão e temperatura. Essa energia térmica é transferida para as superfícies do veículo, especialmente nas áreas submetidas ao fluxo mais intenso. Foi justamente o estudo dessas taxas de aquecimento que se tornou uma das principais missões científicas do programa.
Quanto mais os pesquisadores tentavam aproximar o X-15 de Mach 7, maior se tornava esse problema. Por isso, a proteção ablativa aplicada em 1967 não era uma simples pintura. A NASA produziu relatórios específicos sobre o projeto e os testes em voo do sistema de proteção térmica do X-15A-2, mostrando que controlar temperatura havia se tornado um desafio de engenharia tão importante quanto gerar velocidade.

Por que o North American X-15 continua tão importante quase 60 anos depois do recorde?
O programa realizou 199 voos ao longo de quase dez anos e investigou aerodinâmica hipersônica, aquecimento, cargas estruturais, controle da aeronave em altitudes onde o ar se torna extremamente rarefeito e até o desempenho fisiológico dos pilotos. Alguns voos foram tão altos que seus pilotos receberam asas de astronauta segundo os critérios adotados pelos Estados Unidos.
A NASA afirma que os conhecimentos adquiridos ajudaram programas posteriores, incluindo Mercury, Gemini, Apollo e o ônibus espacial. O North American X-15 não era simplesmente um avião construído para bater recordes: era um laboratório voador criado para descobrir o que aconteceria quando um ser humano, uma estrutura metálica e a atmosfera fossem levados até condições que a engenharia aeronáutica praticamente nunca havia enfrentado. E o voo de Pete Knight mostrou exatamente onde estava um desses limites: o piloto conseguiu voltar, mas a própria máquina carregava no corpo as marcas da temperatura necessária para alcançar Mach 6,7.
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