O araponga-de-papo-nu canta tão alto que voltou a disputar o posto de ave mais barulhenta do planeta
Medições padronizadas de 123 espécies colocaram a ave brasileira entre os casos mais extremos de intensidade vocal já registrados
Um levantamento publicado em 2026 mediu a intensidade das vocalizações de 123 espécies e colocou novamente uma ave brasileira entre os casos extremos da bioacústica. O araponga-de-papo-nu (Procnias nudicollis) alcançou cerca de 122,4 decibéis em uma medida padronizada a um metro, enquanto um registro instantâneo chegou a aproximadamente 130,9 decibéis. O resultado faz da espécie uma forte candidata ao título de ave mais barulhenta já medida, embora diferenças entre métodos impeçam declarar uma campeã absoluta.
Quão alto consegue cantar o araponga-de-papo-nu?
João C. T. Menezes e Jeffrey Podos realizaram medições de campo entre 2018 e 2025 no Brasil e nos Estados Unidos. Para comparar espécies diferentes, utilizaram medidores calibrados de pressão sonora e telêmetros a laser, que permitiram determinar simultaneamente a intensidade da vocalização e a distância do animal.
Entre as 123 espécies avaliadas, os valores máximos padronizados variaram de aproximadamente 64 a 122 decibéis. O araponga-de-papo-nu atingiu 122,4 dB em uma janela de 20 milissegundos normalizada para um metro, enquanto a seriema (Cariama cristata) também ultrapassou 120 dB e entrou no grupo de candidatos extremos.
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Por que é tão difícil decidir qual é a ave mais barulhenta do mundo?
Decibéis não podem ser comparados corretamente sem considerar distância, duração do intervalo usado no cálculo, resposta do equipamento e tipo de vocalização. Um pico instantâneo e uma média calculada durante vários milissegundos descrevem características diferentes do mesmo som.
Isso importa porque a araponga-branca (Procnias albus) já havia sido medida anteriormente em 125,4 dB e reconhecida por seu canto extraordinário. O novo levantamento coloca P. nudicollis na mesma disputa, mas os pesquisadores evitam transformar números obtidos por metodologias diferentes em um ranking definitivo.
- Araponga-de-papo-nu: 122,4 dB na medida padronizada;
- Pico individual registrado: cerca de 130,9 dB;
- Seriema: também ultrapassou 120 dB;
- Foram avaliadas 123 espécies;
- 113 delas não tinham medições comparáveis anteriores.
Este vídeo registra diretamente o canto do araponga-de-papo-nu.
O que permite ao araponga-de-papo-nu produzir tanta intensidade?
A análise comparativa encontrou duas características associadas estatisticamente a vocalizações mais intensas: maior tamanho corporal e maior largura de abertura do bico. Uma abertura ampla pode favorecer a transmissão acústica entre o aparelho vocal e o ambiente, reduzindo limitações à emissão de sons extremamente fortes.
Isso não significa que o bico, sozinho, explique o recorde. O som das aves é produzido principalmente pela siringe, localizada na região onde a traqueia se divide em direção aos pulmões. Trato vocal, musculatura, fluxo de ar e postura também participam do processo, e os mecanismos específicos que permitem intensidades tão extremas ainda precisam ser investigados.
O novo estudo conseguiu explicar por que algumas aves cantam tão alto?
No estudo publicado na revista Evolution, os autores testaram hipóteses envolvendo tamanho corporal, abertura do bico, capacidade de voo, densidade do habitat e sistema de acasalamento. Tamanho e abertura do bico apresentaram relações claras com amplitude máxima.
Em contraste, viver em habitats mais fechados, ter menor mobilidade aérea ou apresentar determinado sistema de acasalamento não produziu efeitos inequívocos. Portanto, o estudo avançou na identificação de limitações anatômicas, mas ainda não resolveu completamente por que a seleção natural ou sexual levou certas espécies a vocalizações tão extremas.

Como o araponga-de-papo-nu se compara às outras aves medidas?
O contraste dentro da própria amostra foi enorme. Enquanto a araponga atingiu mais de 122 dB na métrica padronizada, uma espécie de beija-flor permaneceu próxima de 64 dB. Como a escala de decibéis é logarítmica, essa diferença representa uma variação gigantesca na pressão sonora, não apenas um som aproximadamente duas vezes mais intenso.
O resultado também mostra por que medir muitas espécies com o mesmo protocolo é importante. Antes desse levantamento, somente dez das 123 aves estudadas possuíam dados comparáveis de amplitude. A pesquisa acrescentou medições para outras 113 espécies.
Para que serve um canto tão extremo na vida do araponga-de-papo-nu?
Vocalizações fortes podem viajar por grandes distâncias e transmitir informações sobre quem está emitindo o sinal. Nos arapongas, os machos usam chamados intensos em contextos de comunicação e exibição, tornando plausível uma participação da seleção sexual na evolução desse comportamento.
Mas o levantamento não demonstrou que o sistema de acasalamento, isoladamente, explique a amplitude extrema. Por enquanto, o araponga-de-papo-nu mostra com clareza como anatomia e desempenho acústico podem chegar a limites excepcionais, enquanto a razão evolutiva completa desse volume continua aberta à investigação.
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