Novo estudo derruba uma das crenças mais repetidas sobre o consumo de álcool
Pesquisa com mais de 7.200 publicações não achou efeito protetor em nenhuma dose; duas por dia elevam a 1 em 25 o risco de morte ligada à bebida
A ideia de que uma taça de vinho por dia faz bem ao coração perdeu mais um apoio. Um estudo publicado em 2026 no Journal of Studies on Alcohol and Drugs não encontrou efeito protetor significativo do álcool sobre a saúde em nenhum nível de consumo, nem nas doses consideradas baixas.
De acordo com o resumo da pesquisa divulgado pelo ScienceDaily em outubro de 2026, quem bebe em média 14 doses por semana, cerca de duas por dia, tem risco de 1 em 25 de morrer ao longo da vida por uma causa ligada ao álcool.
De onde veio a fama da taça de vinho
Durante décadas, pesquisas observacionais mostraram que quem bebia pouco parecia viver mais do que quem não bebia nada. Desse padrão nasceu a chamada curva em J, em que o bebedor moderado aparece com risco menor que o abstêmio, e o bebedor pesado, com risco maior.

A explicação popular apontava os antioxidantes do vinho tinto como aliados das artérias, e a crença virou justificativa para o brinde diário.
O que a nova pesquisa sobre consumo de álcool encontrou
O trabalho tem 25 autores, de Sinead George, Timothy Naimi e Katherine Keyes até Kevin Shield, professor associado da Universidade de Toronto e apontado como autor principal. Segundo o artigo (George e colaboradores, Journal of Studies on Alcohol and Drugs, 2026, volume 87, número 4), a equipe revisou mais de 7.200 publicações sobre doenças e lesões ligadas ao álcool e cruzou as estimativas com grandes bases nacionais de dados de saúde.
Os autores relatam que até sete doses por semana se associaram a aumentos pequenos de risco para a maioria das condições analisadas, entre elas câncer de esôfago, boca e mama. Acima de uma dose por dia, para homens e mulheres, os riscos ficam mais evidentes.
O estudo admite que doses baixas podem estar associadas a menor risco de doença isquêmica do coração e de AVC. Esse possível ganho, porém, é superado por riscos como o câncer já na faixa de sete doses semanais. “Não observamos efeito protetor significativo do álcool sobre a saúde em nenhum nível de consumo”, afirmou Shield no comunicado da pesquisa.
Por que as pesquisas antigas viam benefício
Uma parte da resposta está em quem entrava no grupo dos abstêmios. Muitos estudos antigos incluíam ali ex-bebedores, às vezes gente que largou a bebida por já estar doente. Comparados a esse grupo mais frágil, os bebedores moderados pareciam mais saudáveis.
Uma meta-análise de Tim Stockwell, da Universidade de Victoria, com Zhao, Clay, Levesque, Sanger, Sherk e Naimi, publicada em 2024 no Journal of Studies on Alcohol and Drugs, testou essa hipótese em 107 estudos de longo prazo com 4,8 milhões de participantes, segundo o registro do trabalho na biblioteca do Health Research Board, da Irlanda. Nos estudos de maior qualidade, que separavam ex-bebedores e bebedores ocasionais dos abstêmios e acompanhavam pessoas desde antes dos 55 anos, quem bebia pouco tinha risco de morte semelhante ao de quem não bebia (risco relativo de 0,98).
Nos estudos sem esses cuidados, a mesma meta-análise encontrou risco relativo de 0,84 para os bebedores leves. Para os autores, vieses de seleção ao longo da vida podem produzir um benefício aparente que não se sustenta.
A posição da OMS
A Organização Mundial da Saúde afirma que não há nível de consumo de álcool seguro para a saúde. Em comunicado do escritório europeu da OMS, de janeiro de 2023, a entidade cita a classificação do álcool como cancerígeno do Grupo 1 pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer e diz que ele causa pelo menos sete tipos de câncer, entre eles o de intestino e o de mama.
No mesmo texto, Jürgen Rehm, do Centro de Dependência e Saúde Mental de Toronto e coautor do novo estudo, observa que os supostos efeitos protetores dependem dos grupos de comparação e dos métodos estatísticos escolhidos.
Como usar essa informação no dia a dia
Para quem bebe, o recado dos pesquisadores é que menos é melhor do que mais. Quem não bebe não tem motivo para começar pensando no coração; cuidar das artérias passa por conversar com o médico sobre atividade física, alimentação e pressão arterial.
Shield ressalta que o risco médio de uma população não equivale ao risco individual de cada pessoa. Quem tem histórico de câncer, doença do fígado ou usa remédios contínuos deve discutir o próprio consumo com um profissional de saúde. No SUS, as unidades básicas e os CAPS AD atendem quem quer reduzir ou parar de beber.
Até poucas doses podem pesar no bolso, como no caso do motorista que tomou duas cervejas e teve o conserto negado pela seguradora. No cérebro, o dano vai além dos neurônios, segundo pesquisa sobre células de defesa e a estrutura cerebral.
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