Nas montanhas do norte da Rússia, nove excursionistas experientes morreram em 1959 depois de abandonar a barraca durante a noite, e as condições incomuns encontradas no local alimentaram décadas de teorias antes de novas investigações apontarem explicações naturais
Modelos de neve e novas expedições ajudam a explicar por que nove excursionistas abandonaram seu abrigo em uma noite mortal nos Urais
Em fevereiro de 1959, nove integrantes de uma expedição de esqui morreram nas montanhas Urais, na então União Soviética. O Passo Dyatlov tornou-se um dos mistérios mais conhecidos do século XX porque a barraca foi abandonada às pressas em condições extremas, alguns excursionistas estavam sem roupas adequadas e quatro apresentavam traumatismos graves. Décadas depois, investigações russas e estudos físicos passaram a apontar para uma combinação de neve instável, vento e hipotermia, embora nem todos os detalhes possam ser reconstruídos com certeza.
O que aconteceu na expedição do Passo Dyatlov em 1959?
O grupo liderado por Igor Dyatlov viajava pelos Urais Setentrionais quando montou acampamento em 1º de fevereiro na encosta de Kholat Syakhl. Naquela noite, as temperaturas estavam muito abaixo de zero e havia ventos fortes. Nove pessoas morreram; Yuri Yudin, que havia abandonado a expedição anteriormente por problemas de saúde, foi o único integrante original a sobreviver.
Quando as buscas finalmente localizaram a barraca em 26 de fevereiro, equipamentos, calçados e roupas ainda estavam em seu interior. Pegadas indicavam que os excursionistas haviam descido em direção à floresta, a mais de um quilômetro dali, alguns usando apenas meias ou calçados inadequados para aquelas condições.
Por que a barraca foi encontrada cortada por dentro?
Uma perícia realizada em 1959 examinou os danos no tecido e concluiu que três grandes cortes haviam sido feitos com um objeto afiado a partir do interior. Isso indica que pelo menos alguns integrantes escolheram abrir uma saída pela lateral em vez de utilizar normalmente a entrada da barraca.
A razão exata dessa decisão morreu com o grupo. Entretanto, abandonar rapidamente o abrigo é compatível com a percepção de um perigo imediato na encosta. O cenário documentado inclui:
- Roupas e calçados deixados dentro da barraca.
- Cortes feitos a partir do lado interno.
- Descida coletiva em direção à floresta.
- Temperaturas extremamente baixas durante a noite.
- Ventos fortes capazes de transportar e acumular neve.
Este vídeo da Nature apresenta a explicação científica baseada na dinâmica da neve e nos modelos desenvolvidos para o caso.
Quais ferimentos tornaram o Passo Dyatlov tão difícil de explicar?
A hipotermia teve papel central nas mortes, mas quatro integrantes apresentavam traumatismos graves, incluindo lesões no tórax e no crânio. Esses ferimentos alimentaram teorias envolvendo violência, explosões e experiências militares, sobretudo porque algumas lesões internas pareciam severas em comparação com os danos externos observados.
Também ganharam fama relatos sobre olhos e língua ausentes em alguns corpos encontrados meses depois. Essas condições, porém, não demonstram necessariamente violência deliberada: decomposição e exposição ambiental podem alterar corpos deixados durante semanas sob neve, água e condições naturais. O conjunto dos ferimentos continua relevante, mas isoladamente não comprova teorias de ataque humano ou fenômenos extraordinários.
Como uma pequena avalanche poderia ter ocorrido naquela encosta?
Durante muitos anos, a hipótese de avalanche foi contestada porque a inclinação parecia insuficiente e os socorristas não encontraram um grande depósito de neve. Em 2021, porém, pesquisadores da EPFL e ETH Zurich modelaram uma avalanche de placa muito menor, iniciada em uma área localmente mais inclinada acima da barraca.
Segundo o modelo, o grupo cortou parte da camada de neve para instalar a barraca. Depois, ventos catabáticos transportaram mais neve para a região superior, aumentando lentamente a carga sobre uma camada fraca. Os cálculos mostraram que uma ruptura poderia ocorrer entre aproximadamente 7,5 e 13,5 horas depois, produzindo força suficiente para causar alguns dos traumatismos observados.

O que as investigações recentes concluíram sobre o Passo Dyatlov?
Investigações russas reabertas décadas depois consideraram uma avalanche a explicação mais provável, e a Procuradoria-Geral russa chegou a conclusão semelhante em 2020. O estudo científico publicado no ano seguinte não afirmou ter provado exatamente o que ocorreu, mas demonstrou que uma avalanche de placa era fisicamente compatível com várias evidências antes consideradas contraditórias.
Expedições posteriores registraram avalanches na própria região e confirmaram que setores próximos ao acampamento possuem inclinações suficientes para esse tipo de evento. O estudo publicado em Communications Earth & Environment continua sendo uma das análises físicas mais detalhadas da hipótese.
| Evidência | Interpretação possível |
|---|---|
| Barraca cortada por dentro | Saída diante de perigo percebido como imediato |
| Roupas deixadas no abrigo | Evacuação realizada às pressas |
| Traumatismos graves | Compatíveis em modelo com impacto de placa de neve |
| Frio extremo | Hipotermia após abandono prolongado do abrigo |
O caso está definitivamente resolvido?
Não existe testemunha sobrevivente capaz de reconstruir a sequência exata daquela noite. Mesmo uma explicação fisicamente plausível não permite saber precisamente quem foi ferido primeiro, por que todos deixaram a barraca ou quais decisões foram tomadas depois que o grupo chegou à floresta.
O cenário natural, porém, exige hoje menos suposições extraordinárias do que muitas teorias populares. Neve transportada pelo vento, uma pequena avalanche de placa, ferimentos, desorientação e exposição prolongada ao frio oferecem uma sequência coerente com grande parte das evidências disponíveis, sem necessidade de recorrer a armas secretas, ataques inexplicáveis ou fenômenos sobrenaturais.
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