Na escuridão da madrugada, uma ave bate os próprios pulsos como palmas para chamar atenção durante o acasalamento
Filmagens infravermelhas mostram como os machos batem os ossos das asas e produzem estalos em diferentes momentos do cortejo.
No norte da Argentina, machos do bacurau-de-cauda-tesoura (Hydropsalis torquata) produzem estalos ao chocar os “pulsos” das asas em exibições reprodutivas. Câmeras infravermelhas de alta velocidade registraram o movimento e permitiram identificar a origem do ruído. Apesar de lembrar palmas, o som não é produzido pela voz nem pelo choque entre penas.
Como o bacurau produz esse estalo com as asas?
O macho pode abrir as asas, saltar alguns centímetros acima do solo e, ao iniciar a descida, levantá-las rapidamente até aproximar os pulsos sobre o corpo. O contato ocorre entre os rádios, ossos equivalentes aos do antebraço humano, que vibram após o choque e produzem um “tk” breve.
As imagens do estudo publicado em maio de 2026 no Journal of Avian Biology mostram que as penas das asas não precisam se tocar. O mecanismo é uma percussão óssea, não a compressão do ar típica das palmas humanas.

Como os cientistas registraram o comportamento na madrugada?
Juan Ignacio Areta e Christopher Clark observaram os machos numa estrada de terra próxima a Salta, principalmente antes do amanhecer, em noites posteriores à lua cheia. A investigação combinou:
- Gravações realizadas entre outubro e dezembro de 2022.
- Iluminação infravermelha para observar sem luz visível.
- Câmeras capazes de captar 500 ou 1.000 quadros por segundo.
- Microfones sincronizados para localizar o instante de cada estalo.
Em quais situações os machos fazem esses sons?
Os registros identificaram o mesmo tipo de estalo em diferentes movimentos associados ao cortejo e à reprodução. A velocidade e o ritmo mudam conforme a exibição.
Por que o som não é um canto da ave?
Porque o estalo coincide exatamente com a colisão dos ossos, sem depender da siringe, o órgão vocal das aves. Esse tipo de som corporal, usado na comunicação, é chamado de sonação. O estudo distingue o estalo mecânico dos chamados vocais que também aparecem em outras sequências.

Os pesquisadores registraram ainda uma batida grave durante movimentos das asas e um chocalho complexo em perseguições. A Universidade da Califórnia em Riverside explica que nem todos esses ruídos tiveram seu mecanismo físico esclarecido.
O que ainda precisa ser entendido sobre o ritual?
As filmagens demonstram a origem dos estalos principais, mas não revelam todas as mensagens transmitidas. A pesquisa abre questões para novos estudos:
- Se as fêmeas distinguem diferenças entre os estalos.
- Qual é a função de cada sequência sonora.
- Como surge a batida grave observada nas asas.
- Se outras espécies usam o mesmo mecanismo ósseo.
O choque entre os pulsos revela outra linguagem das aves
Os estalos haviam sido relatados por observadores, mas faltava demonstrar sua origem. Os vídeos permitiram rejeitar explicações baseadas no contato das penas e identificar uma sinalização produzida diretamente pelo choque dos ossos, registrada em situações de cortejo, voo e cópula.
A análise preliminar de exemplares de museu também não encontrou adaptações ósseas evidentes para esse comportamento. Isso não significa que todos os sons da espécie já estejam explicados: o repertório inclui ruídos mecânicos cujas funções e origens ainda estão sendo investigadas.
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