Milhões de moedas viraram um mapa econômico de Roma, mostrando que a conquista militar foi acompanhada por uma integração financeira muito mais profunda
Pesquisa da USP utiliza quase quatro milhões de moedas antigas para revelar como estradas, mercados e instituições sustentaram a expansão econômica romana
Quase quatro milhões de moedas antigas ajudaram pesquisadores brasileiros a reconstruir uma parte pouco visível da expansão romana: a circulação do dinheiro entre cidades, estradas e territórios conquistados. O estudo da Universidade de São Paulo (USP), publicado em junho de 2026, utilizou arqueologia digital e modelos econômicos para investigar como a República Romana consolidou seu domínio. Os resultados indicam que as legiões ajudaram a espalhar moedas, mas foram os mercados, as instituições e as atividades civis que sustentaram a integração econômica de Roma.
Como milhões de moedas revelaram a integração econômica de Roma?
Os pesquisadores Eduardo Amaral Haddad e Inácio Araújo, ligados à USP, reuniram registros arqueológicos de aproximadamente quatro milhões de moedas. O material foi organizado em 24.646 conjuntos monetários, permitindo comparar locais de fabricação, períodos de circulação e regiões onde as peças foram descobertas.
A pesquisa concentrou-se no intervalo entre 155 a.C. e 2 a.C., período marcado pela expansão territorial e pelas transformações finais da República. Em vez de seguir cada moeda individualmente, os cientistas utilizaram padrões estatísticos para reconstruir conexões econômicas entre diferentes regiões do Mediterrâneo.
Como os pesquisadores transformaram moedas romanas em mapas?
A investigação combinou grandes bancos de dados arqueológicos com sistemas de informação geográfica. O principal conjunto veio do Coin Hoards of the Roman Republic Online, dedicado a depósitos monetários, e foi relacionado a informações sobre estradas, portos e antigas cidades.
Com ferramentas de economia espacial, os pesquisadores identificaram concentrações de moedas que não poderiam ser explicadas apenas por uma distribuição aleatória. Também analisaram como a distância entre o local de cunhagem e o de descoberta variou durante a expansão romana.
Os números principais da investigação incluem:
- Aproximadamente quatro milhões de moedas catalogadas;
- 24.646 conjuntos monetários analisados;
- 5.167 pares de locais de cunhagem e descoberta;
- Período principal entre 155 a.C. e 2 a.C.;
- Modelos espaciais de circulação e integração econômica.

Por que as estradas ajudaram a espalhar o dinheiro romano?
As estradas construídas pelos romanos não serviam exclusivamente ao deslocamento de soldados. Elas também facilitavam o transporte de mercadorias, a comunicação administrativa e a circulação de pagamentos. Os mapas produzidos pela pesquisa revelaram concentrações monetárias próximas aos principais corredores de transporte.
Nos períodos iniciais, as moedas apareciam principalmente perto de seus locais de fabricação. Com a expansão territorial, passaram a ser encontradas a distâncias maiores. Essa mudança sugere que barreiras geográficas perderam importância relativa conforme mercados e instituições passaram a conectar regiões anteriormente separadas.
Como o exército romano contribuiu para a integração econômica?
As legiões tiveram papel importante na introdução de moedas nos territórios conquistados. Soldados recebiam pagamentos, fornecedores comercializavam alimentos e equipamentos, e a administração militar movimentava recursos necessários à ocupação. Entretanto, a presença das tropas não explicava sozinha a permanência dessas redes monetárias.
O estudo publicado na revista Humanities and Social Sciences Communications identificou que a circulação monetária se consolidava conforme surgiam mercados, instituições administrativas e atividades civis. Assim, a conquista militar iniciava processos que dependiam de uma integração econômica mais duradoura.
O que os mapas revelaram sobre as diferentes regiões de Roma?
A análise identificou uma organização econômica formada por áreas com funções distintas. A cidade de Roma concentrava atividades administrativas, enquanto a Península Itálica apresentava mercados mais integrados. Regiões intermediárias combinavam despesas civis e militares, enquanto territórios recentemente incorporados permaneciam mais relacionados às necessidades de conquista.
Para interpretar esses padrões, os pesquisadores desenvolveram um modelo inspirado nas matrizes de contabilidade social utilizadas na economia contemporânea. A ferramenta representou relações entre governo, famílias, comerciantes, proprietários, escravizados e exército, permitindo comparar diferentes tipos de circulação monetária.
| Região econômica | Característica identificada |
|---|---|
| Cidade de Roma | Predomínio de atividades administrativas |
| Península Itálica | Mercados fortemente integrados |
| Áreas intermediárias | Combinação de atividades civis e militares |
| Fronteiras de expansão | Maior influência dos gastos militares |
O que as moedas antigas ainda não conseguem revelar sobre Roma?
Apesar do volume extraordinário de dados, os registros arqueológicos apresentam limitações. Moedas encontradas em depósitos não representam necessariamente todas as transações realizadas na Antiguidade. Algumas peças circularam durante décadas, enquanto outras foram perdidas, escondidas ou reutilizadas em períodos posteriores.
Por isso, os mapas não reproduzem trajetórias exatas de pagamentos individuais. Eles representam padrões reconstruídos por modelos estatísticos, sujeitos às condições de preservação e descoberta dos materiais. Ainda assim, permitem investigar como infraestrutura, instituições e mercados contribuíram para transformar conquistas territoriais em conexões econômicas relativamente duradouras.
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