Estudo testa 8 tipos de sachê e revela quantas micropartículas seu chá libera na água quente
Pesquisa identificou partículas de até 0,001 milímetro em sachês de nylon e polipropileno; as de papel se desfazem, as de plástico permanecem na água por dias
Aquela xícara de chá feita com sachê pode conter muito mais do que folhas e água. Um novo estudo publicado na revista científica Polymers analisou 8 tipos diferentes de sachê de chá e mediu, com precisão, a quantidade de micro e nanopartículas que o material libera quando entra em contato com água quente. A boa notícia, adianta-se: nos testes com células humanas, não houve sinal de toxicidade.
Ainda assim, os números impressionam. Em uma pesquisa anterior citada pelos autores, um único sachê deixado por 5 minutos a 95 °C liberou cerca de 11,6 bilhões de micropartículas e 3,1 bilhões de nanopartículas na bebida.
Do que são feitos os sachês
Os pesquisadores identificaram, por espectroscopia e testes térmicos, dois grandes grupos de material:
- Sintéticos (plástico): nylon (poliamida) ou polipropileno. Costumam ser os sachês em formato de pirâmide.
- Naturais: celulose, o “papel” dos sachês planos tradicionais.
Essa diferença de formato, segundo o estudo, é uma pista visual prática do tipo de material que está na sua xícara.
O que a água quente libera
As partículas soltas pelos sachês têm tamanho entre 200 nanômetros e 1 micrômetro — ou seja, até cerca de 0,001 milímetro, com média em torno de 600 nanômetros. São, por definição, microplásticos (no caso dos sintéticos), categoria que inclui partículas em escala nanométrica.
O ponto central da pesquisa é o comportamento ao longo do tempo, testado a 20 °C, 50 °C e 100 °C:
| Tipo de partícula | Comportamento na água | O que acontece com o tempo |
|---|---|---|
| Sintética (nylon/polipropileno) | Estável, resiste a enzimas naturais | Permanece por pelo menos 10 dias |
| Celulose (papel) | Degradada por enzimas | Some em 7 a 9 dias |
A conclusão é direta: quanto mais quente a água e mais longa a infusão, mais partículas são liberadas. E, enquanto as partículas de celulose se desfazem, as de plástico continuam estáveis na bebida.
O alívio: sem toxicidade detectada
Aqui está o achado que muda o tom do assunto. Os cientistas expuseram células do intestino humano (linhagem Caco-2) às partículas, mesmo nas concentrações máximas medidas — 14 bilhões de partículas por litro para os plásticos e 170 bilhões por litro para a celulose. O resultado: nenhuma citotoxicidade.
A explicação proposta é física: as partículas têm carga elétrica negativa na superfície, assim como a membrana das células, o que dificulta a interação entre elas e reduz o potencial efeito tóxico. Por isso, os autores afirmam que o trabalho apoia uma conclusão preliminar de segurança do uso de sachês.
A ressalva é honesta e importante: as concentrações liberadas são altas, e os próprios pesquisadores recomendam novos estudos sobre o efeito da ingestão diária ao longo do tempo — algo que este trabalho não mediu.
Por que isso interessa ao Brasil
O chá de sachê é hábito cotidiano em milhões de lares brasileiros, do chá da noite ao mate. E o tema se encaixa em uma preocupação global crescente com plástico no ambiente e nos alimentos — o mesmo problema que motiva iniciativas como um equipamento testado em Mumbai contra o plástico nos oceanos.
Para quem quer reduzir a exposição sem abrir mão do chá, o que o estudo sugere na prática:
- Preferir chá a granel com infusor ou sachês de papel/celulose (planos) em vez dos de plástico (pirâmide).
- Evitar deixar o sachê em infusão por tempo excessivo.
- Lembrar que a liberação cresce com a temperatura — embora, para chás, a água quente seja parte do preparo.
O recado final do estudo não é de pânico, e sim de informação: seu chá libera partículas, sim, mas as evidências disponíveis até agora não apontam dano às células humanas. A palavra dos autores é cautela e mais pesquisa, não alarme.
Este texto tem caráter informativo e não substitui orientação médica ou nutricional.
Estudo de referência: Yaroslavov, A. A.; Efimova, A. A.; Grokhovskaya, T. E.; Badikova, A. G.; Spiridonov, V. V.; Pozdyshev, D. V.; Lyulin, S. V.; Kenny, J. M. Evolution of Microplastics Released from Tea Bags into Water. Polymers, v. 17, art. 2700, 2025. MDPI. Licença Creative Commons Attribution (CC BY 4.0). DOI: 10.3390/polym17192700.
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