Mais de 900 cavernas cabem numa faixa estreita da Itália e algumas descem 265 metros dentro de rochas de gesso
Rede subterrânea dos Apeninos Setentrionais reúne mais de 100 quilômetros de cavernas formadas pela dissolução de gesso e anidrita
Sob uma faixa relativamente estreita dos Apeninos Setentrionais, na região italiana da Emília-Romanha, a água dissolveu rochas evaporíticas e criou uma concentração subterrânea extraordinária. O carste evaporítico reúne mais de 900 cavernas e acima de 100 quilômetros de passagens conhecidas. Algumas atingem 265 metros de desnível, enquanto outras formam sistemas com mais de 11 quilômetros de extensão, tornando a área uma referência mundial para o estudo de cavernas em gesso.
Por que o carste evaporítico possui tantas cavernas?
Grande parte das cavidades atravessa gesso e anidrita, minerais muito mais solúveis em água do que numerosas rochas comuns. Quando água superficial penetra por fraturas, dolinas e outras aberturas, ela dissolve progressivamente o gesso e amplia condutos subterrâneos, que podem evoluir para galerias, poços e sistemas de drenagem.
As rochas evaporíticas da região pertencem a dois conjuntos geológicos principais. Algumas foram depositadas há cerca de 200 milhões de anos, enquanto outras se relacionam à crise de salinidade do Messiniano, aproximadamente seis milhões de anos atrás, quando grandes volumes de água do Mediterrâneo evaporaram e extensos depósitos de sais se formaram.
Leia também: Uma montanha invisível desvia correntes no fundo do oceano e leva alimento às encostas
Como algumas cavernas chegam a 265 metros de profundidade?
O maior desnível registrado no cadastro regional ocorre no Complexo Cárstico de Monte Caldina, em Villa Minozzo, com 265 metros. A profundidade não significa um poço vertical contínuo: corresponde à diferença de altitude acumulada entre os pontos mais altos e baixos conhecidos do sistema subterrâneo.
Outras cavidades também atingem valores expressivos. O complexo de Monte del Casino chega a 214 metros, enquanto o Abisso Luciano Bentini alcança 202 metros. Essas diferenças mostram como erosão, fraturas, inclinação das camadas e circulação subterrânea da água controlam cada sistema.
- Monte Caldina com 265 metros;
- Monte del Casino com 214 metros;
- Abisso Luciano Bentini com 202 metros;
- Re Tiberio com 194 metros;
- Stella-Rio Basino com 188 metros.
Este vídeo apresenta as cavernas evaporíticas dos Apeninos Setentrionais.
Como o carste evaporítico continua mudando?
O gesso se dissolve relativamente rápido em escala geológica. Rios que cortam os Apeninos aprofundam seus vales ao mesmo tempo que águas subterrâneas reorganizam rotas internas, criando novos níveis de cavernas e abandonando passagens antigas conforme a paisagem externa evolui.
Essa relação produz sistemas em vários níveis. Cavidades mais elevadas podem preservar sedimentos de fases anteriores, enquanto canais inferiores continuam ativos. Estudos de espeleotemas e depósitos subterrâneos permitem reconstruir parte dessa evolução e relacioná-la às mudanças climáticas e à incisão dos rios.
Quando essas grandes redes subterrâneas começaram a se formar?
Durante muito tempo, pesquisadores consideraram que muitas cavernas em gesso da região seriam extremamente jovens devido à rápida dissolução desse mineral. Entretanto, evidências acumuladas mostram uma história mais complexa, com fases de formação e remodelação controladas tanto pela evolução do relevo quanto pelas mudanças climáticas.
Um estudo publicado em Earth Surface Processes and Landforms analisou sedimentos e cronologia das cavidades para investigar a evolução quaternária desse relevo. Os sistemas atuais fazem parte de um processo que se desenvolveu durante centenas de milhares de anos, não de um único episódio de dissolução.

Quantas passagens o carste evaporítico esconde?
Somadas, as cavernas conhecidas ultrapassam 100 quilômetros. Entre elas, destaca-se o sistema Spipola-Acquafredda-Prete Santo, com aproximadamente 11,5 quilômetros, reconhecido pela UNESCO como o mais longo sistema epigênico conhecido desenvolvido em gesso.
O carste evaporítico também inclui grandes túneis hidrogeológicos, nascentes salinas, dolinas e numerosas formas minerais subterrâneas. Novas explorações, levantamentos topográficos e conexões entre cavidades podem alterar as dimensões conhecidas conforme diferentes setores são investigados.
Por que essas cavernas entraram na lista da UNESCO?
O Carste Evaporítico e Cavernas dos Apeninos Setentrionais foi inscrito como Patrimônio Mundial em 2023. O bem serial reúne diferentes áreas protegidas da Emília-Romanha e concentra exemplos excepcionalmente diversos de processos de dissolução em gesso e anidrita.
A região também possui importância histórica para a ciência: estudos sistemáticos sobre esse tipo de relevo remontam ao século XVI. Hoje, suas cavernas servem para investigar hidrogeologia, mineralogia, formação do relevo e relações entre clima, água subterrânea e rochas altamente solúveis.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)