Mais de 12 mil fósseis microscópicos de 1,7 bilhão de anos apareceram apenas onde havia oxigênio disponível
Um levantamento em rochas do norte australiano mostra que os eucariotos mais antigos ocupavam sobretudo fundos marinhos com oxigênio.
Em rochas sedimentares do norte da Austrália, cientistas analisaram mais de 12 mil microfósseis com idades entre 1,75 e 1,4 bilhão de anos. Entre eles, os identificados como eucariotos — grupo que inclui os ancestrais de animais, plantas e fungos — apareceram quase exclusivamente em sedimentos formados com oxigênio no fundo do mar. A distribuição sugere que o gás já condicionava seus habitats.
Onde estavam escondidos os fósseis de 1,7 bilhão de anos?
Os fósseis estavam em testemunhos de perfuração, cilindros de rocha retirados por empresas de mineração e guardados em Darwin, no Território do Norte australiano. Os sedimentos vieram das bacias de McArthur e Birrindudu, antes cobertas por mares rasos. Retiradas décadas antes, essas amostras preservavam camadas protegidas da erosão superficial.
Para examiná-los, a equipe desagregou amostras de argilito, dissolveu parte da rocha e observou os resíduos orgânicos ao microscópio. O estudo publicado na revista Nature em maio de 2026 combinou esses registros com informações geológicas e químicas.

O que distingue esses organismos de bactérias antigas?
Eucariotos têm células com núcleo e estruturas internas especializadas. Nos microfósseis, a identificação depende principalmente da forma e dos detalhes preservados, não da observação direta de um núcleo. O material reúne características como:
- Projeções e placas na superfície de algumas células fossilizadas.
- Formas variadas que indicam organização celular mais elaborada.
- Organismos microscópicos, em grande parte de vida unicelular.
- Microrganismos procariontes preservados nas mesmas sequências sedimentares.
O que mudou entre áreas com e sem oxigênio?
Os pesquisadores cruzaram a identificação dos fósseis com os ambientes onde os sedimentos se acumularam. A presença de eucariotos acompanhou predominantemente fundos marinhos oxigenados, inclusive em setores afastados da costa. A reconstrução incluiu lagoas, planícies de maré e áreas costeiras ou oceânicas.
Como descobriram se a água tinha oxigênio há tanto tempo?
Rochas guardam pistas químicas das condições em que se formaram. A equipe examinou minerais e elementos sensíveis ao oxigênio, como ferro, molibdênio, vanádio e urânio, para reconstruir as condições da água próxima ao fundo.

São indicadores indiretos, não medições realizadas naquele oceano. Eles também não demonstram que toda a coluna de água tinha a mesma composição. A Universidade McGill destaca que a disponibilidade de oxigênio era desigual, mesmo em uma época de oceanos amplamente pobres nesse gás.
Por que essa distribuição importa para a história da vida complexa?
Os resultados sugerem que muitos eucariotos antigos precisavam de oxigênio e habitavam o fundo marinho, em vez de viver principalmente suspensos na água. Essa interpretação ajuda a investigar:
- Por que ocupavam apenas certas regiões dos oceanos antigos.
- Como a respiração aeróbica poderia sustentar células mais complexas.
- Se essas linhagens já possuíam mitocôndrias produtoras de energia.
- Quando ocorreram expansões posteriores para habitats de plâncton.
O oxigênio delimitou os primeiros espaços da vida celular complexa
O registro fóssil indica que não basta conhecer a idade dos primeiros eucariotos: também é necessário descobrir onde eles conseguiam viver. A Universidade da Califórnia em Santa Bárbara relaciona essa distribuição à possível permanência desses organismos no fundo do mar por centenas de milhões de anos.
A associação não prova que todos os ancestrais eucarióticos exigiam oxigênio, mas reforça a hipótese de que ambientes oxigenados favoreceram linhagens celulares complexas. O avanço ajuda a compreender por que sua diversificação e sua expansão pelos oceanos ocorreram gradualmente.
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