Macacos subindo troncos verticais estão obrigando cientistas a rever antigas pegadas humanas: flexibilidade dos pés pode enganar interpretações evolutivas
Estudo com macacos selvagens na Costa do Marfim revela flexibilidade inesperada dos pés e amplia hipóteses sobre como nossos ancestrais escalavam árvores
Macacos selvagens da África Ocidental revelaram uma capacidade surpreendente: dobrar a parte central dos pés em aproximadamente 46 graus enquanto escalam troncos verticais. Publicado em agosto de 2026, o estudo com mangabeis-fuliginosos (Cercocebus atys) questiona interpretações sobre a evolução humana e mostra que a anatomia dos ossos nem sempre permite prever como nossos ancestrais se movimentavam.
Por que os pés dos macacos estão mudando interpretações sobre a evolução humana?
Durante décadas, pesquisadores utilizaram ossos fossilizados dos pés para reconstruir os movimentos dos primeiros ancestrais humanos. Uma das principais discussões envolve a capacidade de subir em árvores: determinados formatos ósseos foram interpretados como evidências de escalada vertical, enquanto outros sugeriam movimentos mais limitados.
A nova pesquisa demonstra que essa relação pode ser mais complexa. Embora os mangabeis-fuliginosos apresentem pés anatomicamente diferentes dos chimpanzés, conseguem alcançar uma flexibilidade semelhante durante a escalada. Isso significa que estruturas ósseas distintas podem permitir movimentos funcionalmente parecidos, dificultando reconstruções baseadas exclusivamente na aparência dos fósseis.
Como os macacos conseguiram dobrar os pés em 46 graus?
Os cientistas observaram mangabeis-fuliginosos vivendo livremente no Parque Nacional de Taï, na Costa do Marfim. Utilizando gravações de vídeo, acompanharam os movimentos dos animais enquanto escalavam troncos estreitos. A análise permitiu medir os ângulos das articulações e comparar os resultados com informações disponíveis sobre chimpanzés e humanos.
O resultado mais surpreendente apareceu na região central dos pés. Enquanto chimpanzés apresentam grande flexibilidade no tornozelo, os mangabeis conseguem produzir movimento semelhante por meio das articulações do médio-pé. Essa adaptação permite manter o corpo próximo ao tronco, favorecendo a estabilidade durante a subida.
Entre os principais resultados da pesquisa estão:
- Observações de mangabeis-fuliginosos em ambiente natural;
- Flexão do médio-pé próxima de 46 graus;
- Comparação dos movimentos com os de chimpanzés;
- Análise da escalada em troncos verticais estreitos;
- Identificação de mecanismos biomecânicos diferentes;
- Novas interpretações sobre a locomoção dos ancestrais humanos.

Por que a flexibilidade dos pés facilita a escalada vertical?
Subir por um tronco exige controlar o equilíbrio e manter o centro de massa relativamente próximo à superfície. Quando um animal consegue flexionar bastante os pés ou tornozelos, pode posicionar melhor os membros inferiores e reduzir movimentos que dificultariam sua sustentação.
Nos mangabeis, essa função é desempenhada principalmente pela região central dos pés. Nos chimpanzés, o movimento depende mais da articulação do tornozelo. Os cientistas interpretam essa semelhança funcional como um exemplo de convergência biomecânica, situação em que estruturas diferentes permitem enfrentar desafios semelhantes.
Quais evidências científicas sustentam a descoberta sobre os pés dos macacos?
A investigação foi conduzida por Luke D. Fannin, Carmen Pape e W. Scott McGraw, pesquisadores ligados à Universidade Estadual de Ohio e a outras instituições norte-americanas. Publicado em agosto de 2026 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), o estudo científico sobre a escalada vertical dos primatas apresentou medições detalhadas dos movimentos dos pés em condições naturais.
Os resultados indicaram que a flexão do médio-pé dos mangabeis alcança valores semelhantes aos observados nos tornozelos dos chimpanzés durante a escalada. A pesquisa também comparou esses movimentos com registros de humanos habituados a subir em árvores. Entretanto, os dados não demonstram diretamente como um ancestral humano extinto se movimentava. Eles ampliam as possibilidades consideradas nas reconstruções evolutivas.
Quais diferenças existem entre os pés dos macacos, chimpanzés e humanos?
Chimpanzés possuem tornozelos capazes de realizar movimentos amplos durante a escalada vertical. Mangabeis apresentam uma solução diferente, utilizando articulações do médio-pé para alcançar flexibilidade elevada. Já os humanos modernos possuem pés adaptados principalmente à caminhada bípede, com estruturas que favorecem sustentação e propulsão.
Essas diferenças ajudam a explicar por que fósseis precisam ser analisados com cautela. A forma de um osso pode sugerir determinadas capacidades, mas não revela necessariamente toda a variedade de movimentos possíveis. Pegadas fossilizadas também registram a interação entre pés, movimento e terreno, exigindo interpretações que considerem esses fatores.
| Primata | Característica dos pés |
|---|---|
| Mangabei-fuliginoso | Flexão do médio-pé próxima de 46° |
| Chimpanzé | Grande flexibilidade no tornozelo |
| Humano moderno | Pés especializados na caminhada bípede |
| Hominínios extintos | Capacidades reconstruídas a partir de fósseis |
O que a descoberta pode revelar sobre os primeiros ancestrais humanos?
Uma das principais implicações envolve o último ancestral comum entre humanos e chimpanzés, que provavelmente viveu há aproximadamente seis a sete milhões de anos. Os cientistas ainda discutem se esse primata possuía pés semelhantes aos dos grandes símios africanos ou características mais próximas das encontradas em determinados macacos.
A nova descoberta indica que mesmo um ancestral com pés relativamente semelhantes aos de macacos poderia ter sido capaz de escalar troncos verticais. Isso não invalida as interpretações anteriores sobre fósseis ou pegadas, mas demonstra que existem diferentes soluções anatômicas para movimentos semelhantes. A pesquisa reforça a importância de combinar evidências fósseis com observações de primatas vivos para compreender a evolução da locomoção humana.
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