Lima Barreto: “tens uma terra tão bela, tão rica, e queres visitar a dos outros”. O patriotismo trágico de Policarpo Quaresma
"Tens uma terra tão bela, tão rica, e queres visitar a dos outros." O patriotismo trágico de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto
“Ingrato! Tens uma terra tão bela, tão rica, e queres visitar a dos outros! Eu, se algum dia puder, hei de percorrer a minha de princípio ao fim!” A fala é do major Policarpo Quaresma, personagem central do romance de Lima Barreto.
Quem foi Lima Barreto?
Nascido no Rio de Janeiro em 1881, Afonso Henriques de Lima Barreto foi um dos principais escritores brasileiros do início do século 20, autor que enfrentou racismo e preconceito de classe dentro do próprio meio literário da época, por ser um homem negro e pobre num ambiente dominado pela elite branca.
Escreveu boa parte da obra através de folhetins publicados em jornais, incluindo Triste Fim de Policarpo Quaresma, seu romance mais conhecido, serializado originalmente entre 1911 e depois reunido em livro em 1915.
Para Afonso Henriques de Lima Barreto, pioneiro.
— chicoshiko (@derbyblue) September 5, 2023
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Quem é Policarpo Quaresma?
Policarpo Quaresma é um funcionário público carioca, exageradamente patriota, que decide dedicar a vida a defender e engrandecer o Brasil de formas cada vez mais desconectadas da realidade concreta do país, incluindo a proposta de adotar o tupi-guarani como língua nacional.
O trecho citado aparece quando Quaresma repreende alguém que expressa vontade de conhecer outros países, defendendo que primeiro seria preciso conhecer profundamente a própria terra antes de sonhar com terras alheias.
1915
ano em que o romance, publicado antes em folhetins a partir de 1911, saiu reunido em livro.
Por que o patriotismo dele vira tragédia?
À medida que a narrativa avança, o amor ingênuo e livresco de Quaresma pelo Brasil colide repetidamente com a realidade corrupta e burocrática do país real, incluindo o envolvimento dele numa revolta armada que termina de forma desastrosa para o personagem.
O romance usa esse contraste entre idealismo e realidade para expor, com ironia, a distância entre o discurso oficial de amor à pátria e o funcionamento efetivo das instituições brasileiras durante a Primeira República.
Como Lima Barreto usava ficção para criticar a República?
Lima Barreto escrevia com uma mistura de humor e amargura sobre a hipocrisia das elites políticas e intelectuais da Primeira República, período que sucedeu a monarquia no Brasil e prometia modernização, mas manteve boa parte das desigualdades anteriores.
- Nasceu em 1881, no Rio de Janeiro, filho de um homem escravizado libertado.
- Publicou Triste Fim de Policarpo Quaresma originalmente em folhetins, a partir de 1911.
- Morreu em 1922, aos 41 anos, sem o reconhecimento literário que receberia postumamente.
A obra completa está disponível gratuitamente, em domínio público, no Wikisource. Essa mesma tensão entre idealismo pessoal e as instituições reais de um país também aparece, décadas depois, em Guimarães Rosa e sua ambição de transformar o sertão mineiro em espelho de questões universais, ainda que por um caminho estilístico bem diferente do de Lima Barreto.

Por que o livro segue lido mais de um século depois?
Triste Fim de Policarpo Quaresma continua sendo estudado nas escolas brasileiras não apenas como retrato de uma época específica, mas porque a tensão que descreve, entre discurso patriótico inflamado e prática institucional decepcionante, ainda soa familiar a leitores atuais.
A ironia de Lima Barreto nunca ataca o amor ao país em si: ataca a distância entre esse amor declarado e o funcionamento real das instituições que deveriam sustentá-lo, distinção que segue relevante para além do contexto específico da Primeira República.

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