José Saramago, Nobel de Literatura: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” Uma reflexão sobre prestar atenção ao que realmente importa
A epígrafe de Ensaio sobre a Cegueira, romance de 1995, ganha novo sentido num tempo de telas e de uma distração que cientistas já mediram
O sinal fecha, o carro para e a mão vai direto ao celular. Em poucos segundos passam dezenas de imagens, e quando o verde acende ninguém saberia dizer o que viu. É nessa distância entre passar os olhos e prestar atenção que mora a frase “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”, que José Saramago, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, colocou na abertura de Ensaio sobre a Cegueira.
De onde vem a frase de José Saramago sobre olhar e reparar?
A frase é a epígrafe de Ensaio sobre a Cegueira, romance publicado em 1995, conforme a ficha da obra mantida pela Fundação José Saramago. No livro, o escritor atribui o conselho a um “Livro dos Conselhos”. Estudiosos da obra apontam que esse volume é imaginário, uma invenção do próprio autor para assinar ideias que são dele.
O romance começa justamente num semáforo. Um homem fica cego de repente enquanto espera o sinal abrir, e uma “cegueira branca” se espalha pela cidade. As autoridades isolam os doentes num manicômio abandonado, e só a mulher de um médico continua enxergando, segundo a descrição da fundação.
Com o tempo, a epígrafe saiu das páginas da literatura portuguesa e ganhou vida própria. Ela dá título, por exemplo, a um artigo publicado na Revista Convergência Crítica, da Universidade Federal Fluminense, que parte da frase para discutir o excesso de telas e seus efeitos na educação.

O que muda entre olhar, ver e reparar no romance de 1995?
A diferença entre os três verbos é de profundidade. Olhar é o gesto físico de dirigir os olhos; ver é perceber o que está ali; reparar é deter a atenção e tirar consequência do que se percebeu. Em português, o verbo ainda guarda o sentido de consertar, e a ambiguidade combina com uma história sobre uma sociedade que precisa ser refeita.
Na trama, os personagens não têm nome e são definidos pelo que fazem. A cegueira coletiva expõe egoísmo, abuso e solidariedade, e quem ainda enxerga carrega o peso de reparar pelos outros. Sobre o livro, o autor deixou uma síntese registrada pela fundação: “É uma tentativa de nos perguntarmos o quê e quem somos.”
Esse jogo entre enxergar e compreender aparece em outras falas do escritor português. A matéria abaixo trata de uma delas, sobre os cegos que, vendo, não veem.
José Saramago, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, sobre a nossa percepção da realidade…➔
Ciência da atenção mostra uma mente que vive distraída
A distração que Saramago transformou em alegoria também foi medida em laboratório. Em 2010, os psicólogos Matthew Killingsworth e Daniel Gilbert publicaram na revista Science um estudo com 2.250 voluntários acompanhados por aplicativo de celular. Segundo a Harvard Gazette, publicação oficial da Universidade Harvard, os participantes passavam 46,9% do tempo acordados pensando em outra coisa, e a mente dispersa esteve associada a menos felicidade.
É nesse ponto que entra a atenção plena, ou mindfulness. O Centro Nacional de Saúde Complementar e Integrativa dos Estados Unidos (NCCIH) define a prática como manter a atenção no momento presente, sem julgamentos. A agência avalia que as evidências para ansiedade e depressão são promissoras, mas ainda preliminares, e que os resultados podem ser lidos com otimismo excessivo.

Reparar no cotidiano exige prática e alguns cuidados
Reparar não pede retiro nem técnica sofisticada, e sim pausas pequenas e frequentes. Ouvir alguém até o fim, fazer o caminho de casa sem fone e notar quem está ao lado na fila são exercícios do mesmo músculo. É a atenção que a prosa de frases longas e pontuação rara do autor cobra de quem a lê.
O escritor nasceu em 1922, em Azinhaga, no Ribatejo, e recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1998, de acordo com a biografia publicada pela Fundação José Saramago. Voltar ao Ensaio sobre a Cegueira hoje, entre notificações e telas, é um bom teste para a própria capacidade de olhar com calma, um traço central da literatura portuguesa que ele ajudou a projetar no mundo.
Se quiser experimentar a atenção plena, comece aos poucos e preste atenção em como se sente. O NCCIH lembra que a prática é considerada de baixo risco, mas cerca de 8% dos participantes de estudos relataram experiências negativas, como ansiedade. Ela não substitui tratamento: se a distração, o cansaço ou a angústia persistirem, procure um profissional de saúde.
Para quem gosta de frases de autores de língua portuguesa, outra matéria do site explica a origem de uma das mais conhecidas de Fernando Pessoa.
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