Fernando Pessoa: “Viajar? Para viajar basta existir”. Quem é Bernardo Soares, o heterônimo que escreveu essa frase
A frase do fragmento 451 do Livro do Desassossego é de Bernardo Soares. Entenda o que é um heterônimo e por que a atribuição importa
“Viajar? Para viajar basta existir.” A frase é do fragmento 451 do Livro do Desassossego, atribuída a Bernardo Soares, uma das personalidades literárias criadas por Fernando Pessoa.
Quem foi Fernando Pessoa?
Pessoa nasceu em Lisboa em 1888, viveu parte da infância em Durban, na África do Sul, e voltou a Portugal ainda jovem, onde passou o resto da vida trabalhando como correspondente comercial enquanto escrevia.
Publicou pouco em vida assinando o próprio nome: a maior parte de sua obra só veio a público depois de sua morte, em 1935, encontrada num baú com milhares de páginas datilografadas e manuscritas.
- Nasceu em 13 de junho de 1888, em Lisboa.
- Trabalhou como correspondente comercial em escritórios lisboetas.
- Morreu em 30 de novembro de 1935, também em Lisboa.
- Deixou um baú com mais de 25 mil documentos, ainda hoje em catalogação.
“To be understood is to prostitute oneself.”
— Natural Philosophy (@Naturalphilosy) August 3, 2026
— Fernando Pessoa pic.twitter.com/F1yeGL6mv4
Quem é Bernardo Soares, e por que a frase não é assinada só Pessoa?
Bernardo Soares é o que a crítica literária chama de “semi-heterônimo” de Fernando Pessoa: uma personalidade de escrita com traços muito próximos ao do próprio Pessoa, ao contrário de outros heterônimos com biografias e estilos bem mais distintos do autor original.
Por isso, atribuir a frase apenas a “Fernando Pessoa” simplifica demais a autoria real: tecnicamente, quem escreve o Livro do Desassossego, dentro da ficção literária construída por Pessoa, é Bernardo Soares, um guarda-livros de Lisboa.
Multiplicar identidades dentro de uma só obra não é exclusividade de Pessoa: Jorge Luis Borges construiu boa parte de sua ficção em torno da mesma pergunta, sobre quem realmente é o autor de um texto e onde termina a pessoa que sonha e começa a que é sonhada.
O que é um heterônimo, em poucas linhas?
Heterônimo é o termo que o próprio Pessoa cunhou para descrever personalidades literárias completas que ele criava, cada uma com biografia, estilo de escrita e até visão de mundo diferentes, coexistindo e às vezes discordando entre si.
O que o fragmento 451 diz sobre viajar?
No trecho completo, Soares descreve seu dia a dia percorrendo as mesmas ruas e vendo os mesmos rostos como se estivesse viajando: “vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo”. Ele conclui que só uma “extrema fraqueza de imaginação” justifica a necessidade de se deslocar fisicamente para sentir algo novo.
A ideia central não é rejeitar viagens reais, mas apontar que a capacidade de perceber o mundo com atenção renovada, mesmo em lugares repetidos, já produz boa parte do que se busca ao viajar para longe.

O que é o Livro do Desassossego?
É uma coletânea de fragmentos em prosa, sem uma ordem narrativa fixa, publicada apenas décadas depois da morte de Pessoa, já que ele nunca organizou o material em livro fechado durante a vida.
O texto integral, incluindo o fragmento 451, está disponível no Arquivo Pessoa, acervo digital dedicado à obra completa do autor, e em edições brasileiras como as da Companhia das Letras.

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