Jorge Luis Borges: “Compreendeu que ele também era uma aparência, que outro o estava sonhando”. A frase verdadeira, e a que circula sem fonte
Jorge Luis Borges e a frase real de As Ruínas Circulares, em vez da citação sem fonte que circula como sua
“Compreendeu que ele também era uma aparência, que outro o estava sonhando.” A frase é de Jorge Luis Borges, no conto As Ruínas Circulares, do livro Ficções (1944).
Por que Borges é um dos autores mais falsificados da internet?
Antes de chegar à frase real, vale o alerta: Borges é alvo frequente de citações que circulam sem fonte alguma, como “a dúvida é um dos nomes da inteligência”, frase amplamente repetida em imagens e sites de citação sem que nenhuma edição de suas obras ou entrevista publicada confirme a autoria.
Quando a fonte de uma citação atribuída a Borges não fecha, a alternativa correta não é publicar mesmo assim: é trocar por uma passagem confirmada em livro, mantendo o autor. Foi o que fizemos aqui.
In 1977, Jorge Luis Borges, one of the most influential 20th c. Spanish-language writers, told William F. Buckley (whose first language was Spanish) his reasons for feeling, age 78, that English was 'far finer' than his native tongue. Right or wrong, I love his savor for language pic.twitter.com/foOzTu6mYR
— Benjamin Carlson (@bfcarlson) April 10, 2023
De onde vem a frase real que abre este texto?
A frase encerra “As Ruínas Circulares”, um dos contos mais conhecidos de Ficções, livro de 1944 publicado no Brasil pela Companhia das Letras, com tradução de Davi Arrigucci Jr.
No conto, um mago sonha um filho até dar-lhe existência completa, apenas para descobrir, ao final, que ele mesmo também é sonho de outra mente: “Com alívio, com humilhação, com terror, compreendeu que ele também era uma aparência, que outro o estava sonhando.”
O que o conto sugere sobre identidade e realidade?
“As Ruínas Circulares” brinca com a ideia de que criar outra pessoa, mesmo por sonho, é sempre um ato incompleto: quem cria nunca tem certeza total de que não é, também, criação de outra coisa maior.
A estrutura circular do conto, que dá nome ao título, sugere que essa cadeia de criador e criatura pode não ter fim definido, questionando a própria noção de origem única e realidade fixa.

Quem foi Jorge Luis Borges?
Borges nasceu em Buenos Aires em 1899 e trabalhou como bibliotecário antes de se tornar um dos escritores mais influentes da literatura em língua espanhola, conhecido por contos curtos que misturam filosofia, labirintos e questionamentos sobre realidade e identidade.
Nunca venceu o Nobel de Literatura, apesar de décadas sendo cotado, o que segue sendo um dos “erros” mais comentados na história do prêmio entre críticos literários.
Como checar se uma frase de Borges é real antes de repetir?
O caminho seguro é buscar a frase dentro de um conto ou ensaio específico, com título da obra, em vez de aceitar a atribuição só porque ela “soa como algo que Borges diria”, padrão de escrita que citações falsas costumam imitar de propósito.
- Frases de dentro de contos publicados, como Ficções ou O Aleph, têm fonte checável, com título e (na maioria das edições) página.
- Frases soltas, sem indicação de qual obra vêm, atribuídas apenas com o nome do autor, merecem desconfiança antes de serem repetidas.
Essa mesma checagem, aplicada a outro autor com histórico de frases falsas circulando por aí, já apareceu por aqui na frase real de Mário Quintana sobre preguiça e progresso.

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