Jardineira viraliza na Argentina ao cravar prego na árvore frutífera para dar fruto rápido, mas Universidade da Califórnia vê porta aberta para fungos
Embrapa testou um corte em anel no tronco de mangueiras em Petrolina, viu florada mais cedo e nenhuma diferença significativa na colheita
Um vídeo da jardineira Mariluz del Campo, dona do perfil La granja de mis sueños no TikTok, ganhou a imprensa da Argentina ao ensinar um truque antigo de quintal. Segundo ela, basta cravar um prego no tronco de uma árvore frutífera para que a planta comece a dar frutos muito rápido.
A explicação dela é que o prego estressa a árvore e cria uma sensação de perigo. A planta deixaria de priorizar o crescimento e passaria a garantir a sobrevivência, soltando flores e frutos. A ciência confirma só a primeira parte dessa história, e o furo no tronco cobra um preço que o vídeo não mostra.
O que a jardineira diz no vídeo
O caso foi publicado pelo portal argentino Canal 26 em 29 de outubro de 2026, com imagens tiradas do vídeo. Na gravação, Mariluz afirma que a árvore com o prego se concentra em assegurar a própria sobrevivência e, por isso, começa a florir.

O vídeo não informa a espécie usada, o tamanho do prego, a altura em que ele foi cravado nem quanto tempo a árvore levou para produzir. Também não há comparação com uma árvore igual sem o prego, o que impede saber se a fruta veio do truque ou da idade e do manejo da planta.
Prego na árvore tem alguma base agronômica
A ideia de que estresse puxa flor não nasceu do nada. A própria reportagem do Canal 26 lembra que a mudança do crescimento vegetativo para a floração é um conceito conhecido na horticultura e cita trabalhos da Universidade da Flórida (UF/IFAS) sobre déficit hídrico controlado em citros.
Esses estudos, porém, tratam de manejo de água, não de pregos. De acordo com o mesmo texto, a resposta varia com a variedade e o clima, e uma seca prolongada pode provocar queda de frutos, danos às raízes e perda de flores.
No Brasil, a técnica que mais se aproxima do truque é a incisão anelar, um corte em anel feito no tronco para frear o crescimento dos ramos. A Embrapa Semiárido testou o método em mangueiras Tommy Atkins em um pomar comercial de Petrolina (PE), num trabalho publicado em 1995.
No experimento da Embrapa, o anelamento fazia parte de um pacote que incluía corte de 50% na irrigação dois meses antes e duas aplicações de nitrato de potássio. As plantas aneladas brotaram menos e floriram mais cedo, mas a produção, entre cerca de 8,3 e 12,3 toneladas por hectare, não teve diferença significativa entre os tratamentos, segundo os pesquisadores.
O risco de abrir uma porta para fungos
O problema do prego é o ferimento. O programa de manejo integrado de pragas da Universidade da Califórnia afirma que a maior parte das podridões de madeira infecta as árvores por feridas, abertas por galhos quebrados, poda malfeita, máquinas ou insetos.
Os esporos desses fungos chegam pelo ar ou carregados por insetos e se instalam na madeira exposta. A mesma fonte informa que pastas e tintas cicatrizantes não aceleram o fechamento da ferida nem impedem o apodrecimento, e em alguns casos podem até favorecê-lo.
O Canal 26 resume o ponto ao dizer que furar o tronco acrescenta um dano desnecessário sem benefício produtivo comprovado. Isso não significa que a árvore vá adoecer com certeza, mas o risco existe e o ganho prometido não tem prova.
Por que a árvore frutífera não produz
Quando a árvore demora a dar fruto, a causa costuma estar no manejo. Segundo o levantamento do Canal 26 com material da Penn State e da Universidade da Flórida, os motivos mais comuns são excesso de nitrogênio, poda intensa demais, falta de polinização, pouca luz, rega inadequada e raízes em mau estado.
A idade também pesa. A reportagem cita a Universidade de Minnesota, segundo a qual macieiras sobre porta-enxertos anões podem começar a produzir de dois a três anos após o plantio, enquanto árvores de tamanho padrão podem levar até oito anos.
Antes de recorrer ao martelo, o caminho mais seguro é identificar a espécie com precisão, checar se ela precisa de outra variedade por perto para polinizar e ajustar adubação, rega e poda à fase da planta. Para quem cultiva em espaço pequeno, há opções como o limoeiro plantado em vaso a partir da semente.
Nos pomares comerciais, a atenção vai para ameaças bem mais graves que a demora na colheita, como a praga combatida com a soltura de 1 bilhão de moscas estéreis por temporada na Patagônia.
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