Italo Calvino: “o inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui”. O fecho de As Cidades Invisíveis
"O inferno dos vivos é aquele que já está aqui." O fecho de As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, e as duas maneiras de não sofrer
“O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos.” A frase encerra As Cidades Invisíveis, do escritor italiano Italo Calvino.
Quem foi Italo Calvino?
Nascido em Cuba em 1923, filho de pais italianos, Calvino cresceu na Itália e se tornou um dos escritores mais influentes da literatura italiana do século 20, conhecido por misturar fantasia, filosofia e experimentação formal em suas narrativas.
Participou da resistência italiana contra o fascismo na juventude antes de se dedicar integralmente à literatura, construindo uma obra que passa por realismo, fábula e ficção especulativa ao longo de décadas de produção.
Nesses tempos de ChatGPT, importante lembrar as dicas de Italo Calvino para o novo século:
— Adaubam Pires (@adaubam) July 15, 2026
1. Aprenda poemas de cor;
2. Faça contas a mão;
3. Combata a abstração da linguagem;
4. Saiba que tudo que você tem pode lhe ser tirado de uma hora para outra. pic.twitter.com/TXralPTNcv
O que é As Cidades Invisíveis?
Publicado em 1972, o livro é estruturado como uma série de diálogos entre o explorador Marco Polo e o imperador mongol Kublai Khan, nos quais Polo descreve dezenas de cidades fantásticas e simbólicas que teria visitado em suas viagens.
Cada cidade funciona como uma pequena parábola sobre memória, desejo, linguagem ou estrutura social, e o livro como um todo é considerado um dos textos centrais de Calvino, situado entre ficção, ensaio filosófico e poesia em prosa.
aceitar o inferno e virar parte dele, até deixar de percebê-lo.
reconhecer, dentro do inferno, o que não é inferno, e preservar isso.
Quais são as duas formas de não sofrer?
No trecho final do livro, Calvino descreve duas maneiras possíveis de lidar com o que chama de inferno dos vivos, entendido não como algo futuro ou metafísico, mas como a própria realidade cotidiana que as pessoas constroem ao viver juntas.
A primeira maneira, segundo o texto, é fácil para a maioria: aceitar o inferno até o ponto de deixar de percebê-lo como tal. A segunda é mais arriscada e exige atenção constante: aprender a reconhecer, no meio do inferno, o que não é inferno, e dar a isso espaço para durar.
Por que essa passagem é tão citada até hoje?
A força do trecho está em recusar tanto o otimismo ingênuo quanto o pessimismo resignado: Calvino não promete que o inferno vá desaparecer, mas também não trata a situação como definitiva ou sem saída possível.
Essa recusa de soluções fáceis, mantendo ainda assim um espaço real de ação, é o que faz a passagem circular décadas depois de escrita, citada em contextos que vão de crítica literária a discussões sobre política e vida urbana contemporânea.

O que mais vale saber sobre o livro?
- Publicado originalmente em italiano, como Le città invisibili, em 1972.
- Estruturado em diálogos fictícios entre Marco Polo e Kublai Khan.
- Cada cidade descrita funciona como uma pequena parábola independente.
- Tem edição brasileira pela Companhia das Letras.
A obra completa está disponível na página oficial da Companhia das Letras. A mesma tensão entre aceitar passivamente um sistema e agir dentro dele também atravessa a reflexão de Viktor Frankl sobre encontrar sentido mesmo em circunstâncias que não podem ser mudadas, ainda que a partir de uma experiência histórica radicalmente diferente.

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