Fósseis de 500 milhões de anos no Atlas ajudam a explicar como estrelas-do-mar ganharam braços e resolvem uma dúvida antiga sobre sua origem
Nova espécie do Cambriano preserva uma etapa bilateral anterior ao surgimento do padrão corporal de cinco partes dos equinodermos
Fósseis excepcionalmente preservados encontrados no Anti-Atlas, no Marrocos, revelaram um animal que viveu há cerca de 500 milhões de anos e ainda não apresentava a simetria de cinco partes típica dos equinodermos atuais. Batizada de Atlascystis acantha, a espécie oferece uma nova peça para reconstruir a evolução das estrelas-do-mar, mostrando etapas intermediárias entre ancestrais bilaterais e o corpo radial visto hoje em estrelas, ouriços e outros integrantes do grupo.
Como Atlascystis acantha ajuda a entender a evolução das estrelas-do-mar?
Atlascystis acantha pertence ao grupo-tronco dos equinodermos, próximo da base da árvore evolutiva que posteriormente daria origem aos representantes modernos. Diferentemente das estrelas-do-mar atuais, o animal adulto apresentava simetria bilateral, com lados direito e esquerdo organizados ao redor de um eixo corporal.
Essa característica é importante porque os parentes vivos mais próximos dos equinodermos, os hemicordados, também são bilaterais. O novo fóssil fornece, portanto, uma forma intermediária capaz de mostrar como uma arquitetura corporal comum entre animais bilaterais começou a ser reorganizada até produzir o padrão radial extremamente incomum dos equinodermos.
O que havia nesses fósseis que permitiu reconstruir os primeiros braços?
Os exemplares preservam estruturas chamadas ambulacros, regiões associadas ao sistema vascular aquífero característico dos equinodermos. Nas estrelas-do-mar modernas, esses sistemas percorrem os braços e estão associados aos numerosos pés tubulares utilizados na locomoção e alimentação.
Os fósseis também representam indivíduos de tamanhos diferentes. Essa variedade permitiu aos pesquisadores avaliar como Atlascystis crescia, algo raro entre equinodermos tão antigos, e identificar como os ambulacros mudavam enquanto o corpo aumentava.
- Corpo adulto com simetria bilateral;
- Dois ambulacros claramente reconhecíveis;
- Exemplares preservados em diferentes estágios de crescimento;
- Estruturas homologáveis às encontradas em equinodermos posteriores;
- Idade próxima de 500 milhões de anos.
Este vídeo do Smithsonian mostra como fósseis de estrelas-do-mar são usados para reconstruir mudanças evolutivas nesse grupo.
Que sequência explica a evolução das estrelas-do-mar até chegar a cinco braços?
Ao combinar Atlascystis com outros fósseis cambrianos e análises filogenéticas, os pesquisadores reconstruíram uma trajetória que não ocorreu simplesmente pela adição progressiva de braços. Os primeiros equinodermos provavelmente possuíam dois ambulacros associados a um plano corporal bilateral.
Depois teria ocorrido uma redução para apenas um ambulacro. Em linhagens posteriores, duplicações desse sistema produziram três regiões radiais e, finalmente, cinco. Assim, a simetria pentarradial moderna parece resultar de uma sequência de perdas, reorganizações e duplicações, em vez de um caminho direto de dois para cinco braços.
Onde os fósseis de Atlascystis acantha foram encontrados?
Os exemplares vieram de duas localidades do Anti-Atlas marroquino, Assemame e Tarhouch 3, em rochas da Formação Jbel Wawrmast. Eles estavam preservados como moldes revestidos por óxidos de ferro em sedimentos depositados durante o Cambriano.
Na época, Atlascystis vivia sobre um fundo marinho relativamente calmo e lodoso. A preservação fina permitiu observar detalhes do esqueleto e dos ambulacros. O estudo publicado na Current Biology descreve a espécie como o equinodermo bilateral mais antigo conhecido e a posiciona perto da base evolutiva do grupo.

O que mudou entre Atlascystis e uma estrela-do-mar moderna?
Uma estrela-do-mar adulta organiza grande parte de sua anatomia em cinco setores. Atlascystis, por outro lado, ainda mantinha claramente um eixo anterior-posterior semelhante ao padrão encontrado em animais bilaterais, sugerindo uma transformação menos radical durante seu desenvolvimento.
Os pesquisadores propõem que a reorganização extrema observada atualmente surgiu aos poucos. Isso combina com o fato de equinodermos modernos começarem a vida como larvas bilaterais e somente durante a metamorfose assumirem a organização radial adulta.
| Etapa reconstruída | Organização ambulacral |
|---|---|
| Forma ancestral | Dois ambulacros |
| Etapa posterior | Redução para um |
| Diversificação inicial | Três ambulacros |
| Equinodermos atuais | Cinco setores predominantes |
Por que a evolução das estrelas-do-mar ainda guarda uma pergunta sem resposta?
O estudo esclarece melhor como a simetria de cinco partes apareceu, mas não explica definitivamente por que cinco se tornou o número predominante. Esse padrão é extremamente raro entre animais e continua sendo uma das peculiaridades mais marcantes dos equinodermos.
Atlascystis acantha mostra que esse formato não surgiu pronto. Durante milhões de anos, ancestrais bilaterais passaram por formas assimétricas e organizações com diferentes números de ambulacros até chegar ao plano corporal atual, transformando fósseis marroquinos minúsculos em evidências de uma das mudanças anatômicas mais radicais da evolução animal.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)