Família compra ar-condicionado para o verão, eletricista abre o quadro de luz e descobre que a casa inteira ainda roda com a fiação de pano da construção original
Isolamento ressecado, quadro sem proteções atuais e circuitos sem folga pedem vistoria de profissional habilitado antes de ligar aparelhos de alta potência
Dá para ligar um ar-condicionado novo numa casa que ainda usa a fiação de pano da construção original? A resposta curta é não, pelo menos não antes de uma avaliação técnica. A cena é comum quando o calor chega. A família compra o ar-condicionado e chama o eletricista. Ao abrir o quadro de distribuição, ele encontra fios cobertos de tecido, sinal de uma fiação elétrica feita há décadas para poucos aparelhos. A partir daí, a casa precisa ser revisada antes da instalação.
Fiação de pano revela instalação pensada para outra época
Os fios revestidos de tecido são típicos de instalações antigas, em que o condutor recebia uma camada de borracha protegida por uma trama de pano. Com o passar dos anos, esse isolamento tende a ressecar, rachar e se desfazer ao toque. O cobre fica mais exposto dentro de paredes e eletrodutos, e muitas dessas redes foram montadas sem fio terra.
A Comissão de Segurança de Produtos de Consumo dos Estados Unidos (CPSC) alerta que a fiação pode se degradar com a idade. Por isso, o órgão recomenda inspeção elétrica em casas com 40 anos ou mais. A orientação vale também para imóveis com mais de dez anos que passaram por reforma ou receberam aparelhos novos.
Por que o ar-condicionado pesa tanto numa instalação antiga?
O ar-condicionado é um aparelho de alta potência que costuma funcionar por horas seguidas, justamente nos dias mais quentes. Esse uso contínuo exige condutores de bitola compatível e proteção dimensionada conforme o manual e a etiqueta do equipamento. Fios antigos, finos e com isolamento desgastado aquecem mais quando precisam conduzir essa corrente.
No mesmo alerta, a CPSC cita o ar-condicionado entre os aparelhos sazonais que exigem mais da instalação. A agência aponta sinais de problema: luzes que perdem intensidade, disjuntores que desarmam com frequência e fusíveis que queimam. Quando esses sintomas aparecem numa casa com fiação de pano, um equipamento pesado a mais só aumenta o esforço sobre a rede.

O que o eletricista confere ao abrir o quadro de distribuição?
Ao abrir o quadro, o profissional avalia o estado dos condutores, o tipo de proteção instalado e a divisão dos circuitos. Quadros antigos podem ter fusíveis de rosca ou disjuntores incompatíveis com a bitola dos fios. Emendas improvisadas, capa derretida e marcas de queimado também entram na vistoria.
Outro item da lista é a presença de aterramento e de dispositivo DR, que desliga o circuito ao detectar fuga de corrente e reduz o risco de choque. Quem refez a fiação sem profissional habilitado pode enfrentar problemas que vão além da parede, como mostra o caso a seguir.
Troca da fiação segue a NBR 5410 e exige profissional habilitado
A referência técnica para modernizar a instalação é a ABNT NBR 5410, norma de instalações elétricas de baixa tensão, cuja edição atual é de 2004. Ela define condições para garantir a segurança de pessoas e animais, o funcionamento da instalação e a conservação dos bens. Em novembro de 2023, a ABNT abriu consulta nacional para revisar o texto.
Na prática, adequar a casa à NBR 5410 significa substituir condutores deteriorados, separar circuitos por uso, incluir o fio terra e atualizar as proteções. Em imóveis antigos, a obra pode envolver troca de eletrodutos ou abertura de paredes. O tamanho do serviço só fica claro depois da vistoria.

Os números mostram por que essa revisão importa. Segundo a Associação Brasileira de Conscientização para os Perigos da Eletricidade (Abracopel), o país teve 632 incêndios de origem elétrica no levantamento de 2025, contra 467 em 2024. Residências concentraram 302 casos e 20 das 21 mortes, e falhas nas instalações internas lideraram as causas.
Como agir antes de ligar o ar-condicionado em casa antiga?
O primeiro cuidado é não improvisar enquanto a avaliação não sai. Nada de ligar o aparelho em extensão ou adaptador, trocar o disjuntor por outro de maior capacidade ou emendar fio novo em fio antigo. Mexer no quadro por conta própria também está fora de questão.
Peça ao eletricista um diagnóstico por escrito, com o que precisa ser trocado agora e o que pode esperar. Em obras maiores, exija a Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) ou o registro equivalente do profissional. Esse documento comprova o serviço e pesa na hora de acionar o seguro.
Se a sua casa tem muitas décadas e você nunca viu o que há atrás da tampa do quadro, o passo prático começa hoje. Anote a idade do imóvel, observe se há luzes oscilando ou disjuntores desarmando e agende a vistoria antes de instalar o aparelho. Faça isso com calma, porque um verão fresco começa por uma instalação segura.
Os riscos elétricos também aparecem fora de casa, em situações que pouca gente imagina. Este outro caso mostra o perigo de uma estrutura metálica perto da rede do vizinho.
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