Embalagens de comida entraram num pente-fino químico e 1.222 substâncias apareceram com evidências regulatórias de perigos graves à saúde
Sistema FCCprio organiza evidências de perigo e exposição para ajudar a priorizar substituições em materiais que entram em contato com alimentos
Um novo sistema de triagem reuniu informações sobre 15.159 substâncias em contato com alimentos e identificou 1.222 com classificações harmonizadas de perigo relevantes à saúde humana. A ferramenta, chamada FCCprio, combina avaliações regulatórias reconhecidas com evidências de migração para alimentos e presença em pessoas. O objetivo não é afirmar que toda embalagem contendo uma dessas substâncias provoque doença, mas ajudar autoridades e fabricantes a decidir quais compostos merecem substituição, restrição ou investigação prioritária.
Como as substâncias em contato com alimentos foram avaliadas?
O trabalho foi publicado em setembro de 2026 na revista Environmental Science & Technology. Pesquisadores reuniram classificações harmonizadas de perigo utilizadas por órgãos e sistemas regulatórios, incluindo dados alinhados ao Sistema Globalmente Harmonizado de Classificação e Rotulagem de Produtos Químicos, conhecido como GHS.
Entraram na lista compostos classificados como cancerígenos, mutagênicos, tóxicos à reprodução, tóxicos para órgãos específicos após exposição repetida, disruptores endócrinos, persistentes, bioacumulativos ou móveis. Uma substância podia ser priorizada por apresentar pelo menos uma dessas propriedades, sem que isso significasse automaticamente risco elevado em qualquer nível de exposição.
Por que 1.222 substâncias em contato com alimentos foram priorizadas?
Das 15.159 substâncias conhecidas no banco de dados, 1.222, equivalentes a cerca de 8%, atenderam aos critérios de perigo definidos pela equipe. As categorias mais frequentes foram toxicidade para órgãos específicos após exposição repetida, presente em 735 compostos, toxicidade reprodutiva, em 552, e carcinogenicidade, em 323.
Depois dessa primeira seleção, os pesquisadores classificaram as substâncias em quatro níveis conforme as evidências de exposição humana. O grupo de maior prioridade reúne 94 compostos que já foram detectados migrando de materiais de contato com alimentos e também encontrados em programas de biomonitoramento humano.
- 94 substâncias no nível 1;
- 264 substâncias no nível 2;
- 224 substâncias no nível 3;
- 640 substâncias no nível 4;
- 1.222 substâncias priorizadas no total.
Este vídeo aborda a possível migração de compostos presentes em embalagens para os alimentos.
Quais produtos podem colocar esses compostos em contato com comida?
O conceito de material de contato com alimentos vai muito além de recipientes plásticos. Ele inclui embalagens, revestimentos internos de latas, papel e papelão, tintas, adesivos, equipamentos usados no processamento, utensílios e outros materiais que encostam no alimento durante fabricação, armazenamento, transporte ou consumo.
Algumas moléculas podem migrar desses materiais para os alimentos em determinadas condições. A quantidade transferida depende de fatores como composição química, temperatura, tempo de contato, teor de gordura do alimento e características do material. Portanto, a simples presença de uma substância na FCCprio não mede, sozinha, a exposição real de uma pessoa.
Por que substituir um produto químico por outro parecido pode ser problemático?
Um dos problemas destacados pelo estudo é a chamada substituição lamentável. Ela acontece quando uma substância conhecida por apresentar perigos é retirada e substituída por outra estruturalmente semelhante, mas ainda pouco estudada. Um exemplo discutido pelos autores é a troca do bisfenol A por moléculas relacionadas, como o bisfenol S.
No artigo publicado pela American Chemical Society, os pesquisadores também agruparam compostos por semelhança estrutural. Foram identificados 38 grupos prioritários, incluindo ftalatos, PFAS, aminas aromáticas primárias, organofosforados e isocianatos, entre outras famílias químicas.

O que mais preocupa além das 1.222 substâncias identificadas?
Um dos resultados mais importantes está justamente no que ainda não se sabe. A equipe verificou que 13.211 das 15.159 substâncias conhecidas, cerca de 87%, não possuem dados harmonizados suficientes para todas as categorias avaliadas. Isso significa que não aparecer na lista não equivale a ter segurança comprovada.
Quando os pesquisadores consideraram também similaridades estruturais, 4.222 compostos ficaram dentro de grupos químicos prioritários. Cerca de 70% deles ainda não apresentam informações adequadas de perigo, reforçando o risco de trocar um composto bem estudado por outro semelhante cuja toxicologia permanece incompleta.
Como as substâncias em contato com alimentos podem ser tratadas agora?
A FCCprio foi criada principalmente como ferramenta de priorização. Os autores defendem que substâncias com evidências fortes de perigo e exposição sejam consideradas primeiro em revisões regulatórias, reformulações e processos de substituição, em vez de analisar milhares de compostos sem uma ordem definida.
A lista também pode ajudar a evitar substituições por moléculas muito parecidas e pouco estudadas. Ainda assim, os pesquisadores ressaltam que avaliações futuras precisam considerar misturas químicas, exposição real e testes do material final, porque perigo intrínseco e risco efetivo são conceitos diferentes e não devem ser confundidos.
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