Efeito dotação: o experimento da caneca que mostrou por que pedimos o dobro para vender o que já é nosso
O experimento da caneca de Cornell (Kahneman, Knetsch e Thaler, 1990) mostrou que pedimos o dobro para vender o que já é nosso
Pedimos o dobro para vender algo que já é nosso, comparado ao que pagaríamos para comprar a mesma coisa. O nome desse viés é efeito dotação, e ele foi provado com um experimento simples envolvendo canecas.
O que é o efeito dotação, segundo a economia comportamental?
Efeito dotação é a tendência de atribuir mais valor a um objeto simplesmente por ele já ser nosso, mesmo sem nenhuma diferença real de qualidade ou utilidade.
Como funcionou o experimento da caneca de Cornell?
Daniel Kahneman, Jack Knetsch e Richard Thaler publicaram, em 1990 no Journal of Political Economy, um experimento com canecas distribuídas ao acaso numa turma universitária.

Metade dos alunos recebeu uma caneca de presente e foi convidada a vendê-la; a outra metade, sem caneca nenhuma, foi convidada a comprá-la. Quem já tinha a caneca pedia, para vender, cerca do dobro do que os colegas se dispunham a pagar para comprar.
Por que a simples posse muda o preço que consideramos justo?
O mecanismo é considerado um primo próximo da aversão à perda: para quem já possui o objeto, abrir mão dele é sentido como uma perda, não como uma simples troca por dinheiro. E perdas pesam mais do que ganhos equivalentes na decisão.
O próprio título do estudo original cita o Teorema de Coase, pilar da economia clássica.
Em teoria, um bem deveria acabar nas mãos de quem mais o valoriza, não importa quem o recebeu primeiro.
O efeito dotação persistiu mesmo quando os participantes tinham chances repetidas de negociar no mesmo mercado.
Esse efeito desaparece com a prática do mercado?
Não necessariamente. O próprio estudo original testou o efeito em um ambiente de mercado com repetição de rodadas, e o padrão de sobrevalorizar o que já é seu se manteve, mesmo com a chance de aprender e ajustar o comportamento ao longo do tempo.

Como precificar um usado sem cair no efeito dotação?
Antes de colocar um preço em algo que é seu, três perguntas ajudam a corrigir a distorção do efeito dotação:
- Eu pagaria esse mesmo valor se estivesse comprando este item de outra pessoa hoje?
- Esse preço reflete o valor real de mercado, ou o apego que tenho pelo objeto?
- Um comprador comum, sem nenhuma ligação afetiva com o item, pagaria esse valor?
Esse mesmo viés de decisão sobre posse e perda já apareceu quando exploramos a aversão à perda no coração do Nobel de Kahneman e a falácia do custo afundado, reunidas no nosso guia completo de psicologia do dinheiro.

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