Duas metades do mesmo réptil ficaram separadas em museus por quase 90 anos até pesquisadores perceberem que os fósseis se encaixavam
Placas preservadas em Londres e Frankfurt revelaram um rincocéfalo jurássico adaptado à vida nas árvores
Um pequeno réptil do Jurássico permaneceu dividido entre coleções da Alemanha e do Reino Unido durante quase um século sem que pesquisadores percebessem que as duas placas pertenciam ao mesmo animal. Quando foram finalmente reunidas cientificamente, revelaram Sphenodraco, um rincocéfalo de aproximadamente 145 milhões de anos cuja anatomia indica uma adaptação incomum para viver e escalar em árvores.
Por que Sphenodraco permaneceu desconhecido por tantas décadas?
O fóssil veio dos famosos calcários de Solnhofen, no sul da Alemanha, formados durante o Jurássico Superior. Uma das placas acabou no Senckenberg Natural History Museum, em Frankfurt, enquanto sua contraparte foi incorporada à coleção do Natural History Museum, em Londres.
Durante décadas, a peça alemã foi relacionada ao gênero Homoeosaurus. A situação mudou quando o paleontólogo Victor Beccari examinou o exemplar londrino e percebeu que sua posição corporal lembrava exatamente o fóssil que já conhecia em Frankfurt. Comparações confirmaram que eram placa e contraplaca do mesmo indivíduo.
Como duas partes do mesmo fóssil foram parar em países diferentes?
Fósseis de Solnhofen costumam aparecer achatados entre finas camadas de calcário. Quando uma placa é aberta, ossos podem permanecer num lado enquanto o outro preserva sua impressão. Normalmente essas duas partes são mantidas juntas porque oferecem informações complementares sobre o espécime.
Não se sabe com certeza por que elas foram separadas. Pesquisadores consideram provável que tenham sido comercializadas independentemente por volta da década de 1930. A hipótese de que isso permitiria vender duas peças em vez de uma é plausível, mas a documentação histórica disponível não permite afirmar a motivação com certeza.
- Uma metade ficou preservada em Frankfurt;
- A outra entrou na coleção de Londres;
- As duas representam o mesmo indivíduo;
- A separação provavelmente ocorreu na década de 1930.
Este vídeo do Animal Planet Brasil apresenta a tuatara, único representante vivo da linhagem evolutiva à qual pertenciam esses antigos rincocéfalos:
O que mostrou que Sphenodraco conseguia viver nas árvores?
Ao combinar as informações das duas placas, os pesquisadores conseguiram estudar partes do esqueleto que antes eram interpretadas isoladamente. O animal apresentava corpo relativamente curto, membros proporcionalmente alongados e dedos compridos, características que diferiam da anatomia de rincocéfalos considerados predominantemente terrestres.
A equipe comparou suas proporções corporais com as de lagartos atuais cujos modos de vida são conhecidos. A combinação encontrada se aproxima da apresentada por espécies arborícolas e até por alguns lagartos planadores. Isso sustenta a interpretação de Sphenodraco scandentis como o mais antigo rincocéfalo conhecido com adaptações claras à vida nas árvores.
Por que esse réptil não deve ser chamado simplesmente de lagarto?
Rincocéfalos e lagartos pertencem aos Lepidosauria, mas representam linhagens evolutivas diferentes. Atualmente, os rincocéfalos sobrevivem apenas nas tuataras da Nova Zelândia, enquanto lagartos e serpentes formam um grupo muito mais diverso e amplamente distribuído.
Durante o Mesozóico, entretanto, os rincocéfalos eram muito mais variados. O Natural History Museum explica que havia espécies terrestres, aquáticas e agora evidências claras de formas arborícolas, mostrando uma diversidade ecológica que a única linhagem sobrevivente não consegue representar.

O que os números revelam sobre Sphenodraco?
O fóssil pertence à Formação Altmühltal, do início do Tithoniano, estágio final do Jurássico. Isso coloca o animal aproximadamente na faixa dos 145 milhões de anos, numa região que naquele período era composta por ilhas cercadas por mares subtropicais.
Solnhofen também preservou fósseis famosos de Archaeopteryx. Ambientes marinhos com pouco oxigênio no fundo favoreceram a conservação excepcional de organismos que chegavam às lagoas, explicando por que esqueletos delicados e impressões corporais puderam atravessar milhões de anos.
Por que reunir os dois fósseis mudou tanto a interpretação?
A placa de Londres preserva grande parte dos ossos, enquanto a de Frankfurt conserva outras informações e impressões do corpo. Quando observadas conjuntamente, diferenças nos dentes, na pelve e principalmente nas proporções dos membros mostraram que o animal não correspondia adequadamente às espécies às quais havia sido atribuído anteriormente.
O caso demonstra o valor científico das coleções históricas. Mesmo fósseis descobertos há muitas décadas podem revelar espécies desconhecidas quando novas comparações são realizadas. Nesse caso, uma conexão perdida entre duas gavetas de museu também revelou que rincocéfalos jurássicos exploravam ambientes muito mais diversos do que sugerem seus poucos descendentes atuais.
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