Depois de 130 anos, espécie emblemática volta a se expandir pela América Latina e sua recuperação surpreende conservacionistas
Um registro raro após mais de um século destaca os resultados de projetos de conservação, mas ainda não comprova uma recuperação continental.
Durante uma análise de imagens captadas no Parque Estadual do Espinilho, no Rio Grande do Sul, pesquisadores identificaram um animal ausente dos registros locais havia cerca de 130 anos. O tamanduá-bandeira reapareceu em 2023, em um retorno possivelmente ligado à recuperação da espécie na Argentina.
Por que o tamanduá-bandeira havia desaparecido da região?
Os registros históricos situam as últimas observações conhecidas do animal no sudoeste gaúcho por volta de 1890. A redução dos ambientes naturais e a pressão humana ajudam a explicar o desaparecimento regional, embora não seja possível apontar uma causa única para aquela população.
O tamanduá-bandeira, de nome científico Myrmecophaga tridactyla, alimenta-se principalmente de formigas e cupins. Sua distribuição histórica abrange diferentes paisagens sul-americanas, mas a existência da espécie em outros estados não significava que ela ainda habitasse o Pampa gaúcho.

O que as câmeras registraram em 2023?
Uma armadilha fotográfica instalada no Parque Estadual do Espinilho, no extremo oeste do estado, captou a presença do mamífero em agosto de 2023. A imagem ganhou importância porque o animal era considerado regionalmente extinto havia mais de um século.
Até março de 2024, pesquisadores haviam relatado 11 registros naquela região. Eles confirmavam a presença do tamanduá, mas não permitiam concluir quantos indivíduos diferentes apareceram. Repetidas imagens do mesmo animal também não bastam para demonstrar uma população reprodutiva estabelecida.
Como a reintrodução na Argentina ajudou na recuperação?
Nos Esteros del Iberá, na província argentina de Corrientes, um programa iniciado em 2007 devolveu tamanduás-bandeira a uma região onde haviam desaparecido. Animais resgatados passaram por cuidados veterinários e adaptação antes da soltura, com acompanhamento posterior de seus deslocamentos.
A Fundación Rewilding Argentina informa que a recuperação produziu núcleos autossustentáveis e dispersão para áreas vizinhas. A origem argentina do indivíduo visto no Brasil é uma hipótese plausível, mas não há comprovação genética publicada que identifique sua procedência exata.
Quatro etapas ajudam a explicar a recuperação dos animais:
Quais números mostram o avanço da espécie?
A fundação responsável pelo programa estima que as populações recuperadas em Iberá somam aproximadamente 200 animais. Esse total é uma estimativa regional, não uma contagem de tamanduás vivendo em toda a Argentina ou no Brasil.
Os resultados também incluem reprodução na natureza e indivíduos encontrados fora das reservas de soltura. Em 2023, a organização relatou registros perto de localidades situadas a até 200 quilômetros dos locais de liberação, indicando capacidade de dispersão pela paisagem.
Os dados permitem separar a recuperação regional do registro brasileiro:
O animal já está se expandindo por toda a América Latina?
Não há evidência de uma expansão contínua por todo o continente. O que foi observado é a recuperação de núcleos argentinos e o reaparecimento localizado no extremo sul brasileiro. São avanços relevantes, mas insuficientes para medir uma tendência continental de aumento populacional.
Além disso, avistar um exemplar fora da área original de soltura não prova que ele tenha encontrado parceiro ou produzido filhotes ali. Para confirmar o retorno duradouro ao Rio Grande do Sul, serão necessários monitoramento, novos registros e sinais de reprodução.
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O que pode determinar a permanência do tamanduá-bandeira?
A conservação depende de ambientes conectados que ofereçam alimento, abrigo e condições de deslocamento. Atropelamentos, queimadas, caça e fragmentação de habitats continuam ameaçando a espécie. A recuperação obtida em uma região não elimina esses riscos em outras áreas.
O registro gaúcho demonstra que a restauração de populações pode repercutir além dos limites de uma reserva. Seu verdadeiro alcance será conhecido com a continuidade das pesquisas e da proteção do território, para que uma presença rara possa se transformar em retorno estável.
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