Conheça o reator de 23 mil toneladas que cientistas estão montando para recriar o calor do Sol dentro da Terra
Gigantesco tokamak em construção na França usará superímãs criogênicos para confinar plasma a cerca de 150 milhões de graus Celsius
No sul da França, peças maiores que edifícios estão sendo encaixadas com precisão milimétrica para formar o reator ITER, uma máquina de 23 mil toneladas criada para estudar a fusão nuclear em condições extremas, com um plasma que deverá atingir cerca de 150 milhões de graus Celsius.
Como o reator ITER pretende reproduzir na Terra a energia das estrelas?
O ITER está sendo construído em Saint-Paul-lez-Durance, próximo ao centro de pesquisas de Cadarache. Seu objetivo não é funcionar como uma usina elétrica comercial, mas demonstrar em grande escala que a fusão de núcleos leves pode produzir muito mais energia térmica do que aquela fornecida diretamente ao plasma pelos sistemas externos de aquecimento.
A máquina utiliza o conceito tokamak, uma câmara de vácuo aproximadamente em formato de rosquinha. Dentro dela, deutério e trítio deverão formar um plasma extremamente quente, no qual reações de fusão semelhantes às que alimentam as estrelas poderão ocorrer de maneira controlada. O ITER foi projetado para estudar até 500 MW de potência de fusão a partir de 50 MW de aquecimento injetado no plasma.
Por que montar uma máquina de 23 mil toneladas é tão complicado?
O desafio começa pela própria escala. A máquina completa deverá pesar aproximadamente 23 mil toneladas, enquanto apenas o vaso de vácuo, com componentes associados, chegará a cerca de 8 mil toneladas. Aproximadamente um milhão de componentes precisam ser integrados ao conjunto e aos sistemas auxiliares.
- Máquina completa com cerca de 23 mil toneladas.
- Vaso de vácuo formado por nove grandes setores.
- Plasma projetado para aproximadamente 150 milhões °C.
- Ímãs supercondutores trabalhando em temperaturas criogênicas.
- Aproximadamente um milhão de componentes integrados.
O vídeo oficial da ITER Organization mostra a montagem de um módulo de aproximadamente 1.350 toneladas sendo levado até o poço do tokamak. As imagens revelam melhor que qualquer animação a dimensão das peças e a precisão necessária para encaixá-las.
Como os ímãs do reator ITER conseguem conter um plasma tão quente?
Nenhum material sólido poderia manter contato direto com um plasma a 150 milhões de graus Celsius sem sofrer consequências extremas. Por isso, o tokamak utiliza campos magnéticos intensos para confinar as partículas carregadas e mantê-las afastadas das paredes durante os experimentos.
Os gigantescos ímãs são supercondutores e precisam operar a temperaturas criogênicas, próximas do zero absoluto. Surge então um dos contrastes mais impressionantes do projeto: no mesmo complexo tecnológico, sistemas mantidos a poucos kelvins deverão controlar matéria aquecida a temperaturas várias vezes superiores às encontradas no centro do Sol.
Por que o plasma não simplesmente derrete a gigantesca câmara?
A comparação com “colocar um Sol dentro de uma caixa” é visualmente poderosa, mas não descreve exatamente a física. O plasma alcança uma temperatura extraordinária, porém possui densidade muito baixa. Além do confinamento magnético, componentes especialmente projetados precisam administrar as partículas e o calor que inevitavelmente chegam às superfícies internas.
Entre esses componentes está o divertor, localizado na parte inferior da câmara e desenvolvido para lidar com parte das cargas térmicas e das partículas provenientes do plasma. O conjunto inteiro depende de vácuo, refrigeração, materiais resistentes e controle magnético trabalhando simultaneamente.
Em que estágio está a montagem desta gigantesca máquina?
A construção continua avançando. Em maio de 2026, cinco dos nove setores do vaso de vácuo já estavam posicionados no poço do tokamak. Em 27 e 28 de julho, a equipe instalou o sexto módulo, deixando dois terços dos setores principais da câmara em posição.
Cada módulo reúne componentes gigantescos, incluindo um setor do vaso de vácuo, proteção térmica e ímãs de campo toroidal. A movimentação exige equipamentos especiais e longas operações de alinhamento. A ITER Organization acompanha publicamente essas etapas enquanto sistemas criogênicos, elétricos, de vácuo e aquecimento também são instalados ao redor da máquina.

O reator ITER realmente poderá criar um pequeno Sol na Terra?
Não haverá uma estrela em miniatura dentro do prédio. A expressão é uma metáfora para a fusão nuclear: o ITER tentará reproduzir o mesmo tipo fundamental de reação que libera energia nas estrelas, mas utilizando confinamento magnético e condições cuidadosamente controladas em laboratório.
O feito já seria extraordinário. Se o reator ITER cumprir seus objetivos científicos, permitirá estudar plasmas de fusão em uma escala inédita e testar tecnologias necessárias para futuros reatores. As 23 mil toneladas de aço, ímãs e sistemas criogênicos existem justamente para manter sob controle uma quantidade pequena de matéria em um estado extremamente energético.
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