Cinco quarteirões desapareceram diante do mar enquanto uma praia vizinha ganhou areia e o movimento da costa é acompanhado há décadas
Pesquisas no litoral fluminense revelam como a erosão destruiu quarteirões em Atafona enquanto o transporte de sedimentos ampliou trechos da praia de Grussaí
No litoral de São João da Barra, no Rio de Janeiro, a praia de Atafona perdeu cinco quarteirões inteiros para o avanço do mar, enquanto a vizinha Grussaí acumulou areia. Pesquisas realizadas ao longo de décadas revelam como ondas, ventos e correntes transportam sedimentos, provocando transformações opostas em praias separadas por poucos quilômetros.
Como a praia de Atafona começou a perder ruas e construções para o mar?
Localizada junto à foz do rio Paraíba do Sul, Atafona enfrenta um processo de erosão costeira documentado desde a década de 1950. O avanço das águas destruiu residências, estabelecimentos comerciais e trechos de ruas, modificando profundamente a paisagem de um antigo balneário do Norte Fluminense.
Um levantamento da Universidade Federal Fluminense identificou que, entre 1976 e 2019, cinco quarteirões desapareceram completamente e outros sete sofreram danos parciais. A transformação atingiu áreas anteriormente afastadas da água, demonstrando que a erosão ultrapassou os limites naturais da praia e alcançou a infraestrutura urbana.
Por que a praia de Atafona perde terreno enquanto Grussaí acumula areia?
A explicação está no transporte de sedimentos ao longo do litoral. Ondas que atingem a costa obliquamente movimentam partículas de areia em uma direção predominante, fenômeno conhecido como deriva litorânea. Assim, materiais retirados de determinado trecho podem ser depositados em áreas vizinhas.
Pesquisadores identificaram comportamentos contrastantes nas duas praias. Enquanto Atafona apresenta recuo acentuado, setores próximos de Grussaí registram progradação, caracterizada pelo avanço da linha costeira devido ao acúmulo de sedimentos. As principais observações incluem:
- Atafona apresenta erosão costeira persistente desde meados do século XX;
- Grussaí registra períodos de crescimento da faixa arenosa;
- Ondas transportam sedimentos paralelamente à costa;
- Ventos influenciam a direção e a intensidade desse transporte;
- Mudanças na vazão fluvial podem modificar o equilíbrio sedimentar.
O canal Geo Costeira publicou, em 2022, um vídeo específico sobre a erosão de Atafona, explicando o desequilíbrio entre o fornecimento de areia pelo rio e sua retirada pelo oceano.
Como o rio Paraíba do Sul influencia a erosão na praia de Atafona?
O rio Paraíba do Sul transporta sedimentos provenientes de sua bacia hidrográfica até o oceano. Quando esse fornecimento diminui, as ondas podem continuar removendo areia sem que exista reposição suficiente. O resultado é um desequilíbrio que favorece o recuo da linha costeira.
Barragens, alterações no regime de vazões e intervenções humanas podem interferir nesse processo. Entretanto, a erosão também depende da energia das ondas, dos ventos e das características do delta. Por isso, os pesquisadores evitam atribuir o desaparecimento dos quarteirões exclusivamente às mudanças climáticas ou a uma única intervenção.
O que os estudos científicos descobriram sobre a transformação dessas praias?
Uma pesquisa publicada em 2024 na Revista Brasileira de Geomorfologia, conduzida por Beatriz Abreu Machado, Thaís Baptista da Rocha e colaboradores da Universidade Federal Fluminense, comparou registros históricos da linha costeira. O estudo científico original utilizou imagens, levantamentos topográficos e ferramentas de análise espacial.
Outro levantamento, publicado na Revista da ANPEGE em 2021, analisou o período de 1954 a 2019. Os pesquisadores utilizaram imagens históricas e geoprocessamento para calcular áreas erodidas, setores de acumulação e velocidades médias de deslocamento da costa, identificando diferenças importantes entre Atafona e Grussaí.

Quantos metros de praia desapareceram e quanto Grussaí avançou?
Entre 1954 e 2019, os pesquisadores calcularam aproximadamente 1,03 milhão de metros quadrados de área erodida nos setores estudados. No mesmo intervalo, cerca de 687 mil metros quadrados apresentaram progradação, evidenciando que o litoral também possui regiões de crescimento sedimentar.
As velocidades médias calculadas foram de 2,54 metros anuais de erosão e 2,56 metros anuais de avanço. Esses valores representam tendências históricas, não deslocamentos constantes todos os anos. Tempestades, ventos e mudanças nas correntes podem acelerar ou inverter temporariamente esses movimentos.
| Indicador | Resultado |
|---|---|
| Período analisado | 1954–2019 |
| Área total erodida | 1.031.238,59 m² |
| Área de progradação | 687.147,77 m² |
| Velocidade média erosiva | 2,54 m/ano |
| Velocidade média de avanço | 2,56 m/ano |
O que pode ser feito para proteger a praia de Atafona e suas construções?
A recuperação de áreas ameaçadas exige compreender como os sedimentos circulam entre diferentes trechos. Estruturas rígidas, como espigões, podem modificar correntes e transferir problemas para praias próximas. Alternativas incluem alimentação artificial de praias, recuperação de dunas e medidas de ordenamento territorial.
Em 2026, São João da Barra avançou na elaboração de um estudo de viabilidade técnica, econômica e ambiental para avaliar possíveis intervenções. O trabalho considera modelagens hidrodinâmicas e levantamentos de campo. A principal questão é encontrar soluções que protejam áreas urbanizadas sem intensificar a erosão em outros pontos do litoral.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)