Carvão enterrado perto do polo sul guardou marcas de incêndios de quando a Antártida tinha florestas e meses inteiros de escuridão
Pesquisa revela incêndios recorrentes em florestas antárticas de 90 milhões de anos e sua relação com a formação de antigas turfeiras
Há aproximadamente 90 milhões de anos, a Antártida abrigava florestas úmidas que enfrentavam meses sem luz solar. Uma nova pesquisa revelou vestígios de incêndios recorrentes preservados em sedimentos do Cretáceo, coletados no fundo do mar de Amundsen. O carvão fóssil da Antártida mostra que incêndios de baixa intensidade atingiam florestas próximas ao polo sul, influenciando a vegetação e a formação de antigas turfeiras.
Como os pesquisadores encontraram carvão fóssil da Antártida?
A descoberta começou com uma expedição realizada em 2017 pelo navio científico Polarstern. Pesquisadores perfuraram o fundo marinho próximo à geleira Pine Island, na Antártida Ocidental, recuperando sedimentos que preservavam vestígios de antigos solos florestais.
Uma pesquisa publicada em setembro de 2026 examinou novamente esse material. As camadas analisadas pertencem ao Cretáceo Superior, entre aproximadamente 92 e 83 milhões de anos atrás. Nelas, os cientistas identificaram partículas microscópicas e fragmentos maiores de carvão, além de compostos químicos associados à combustão vegetal.
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Como o carvão fóssil da Antártida revelou incêndios antigos?
O carvão vegetal se forma quando materiais orgânicos sofrem combustão incompleta. Parte de sua estrutura pode sobreviver ao soterramento e permanecer preservada durante milhões de anos, permitindo reconhecer características anatômicas da vegetação queimada.
Os pesquisadores utilizaram microscopia, análises geoquímicas e medições da refletância do carvão. Os resultados indicaram incêndios principalmente superficiais, com temperaturas relativamente baixas, capazes de atingir a vegetação próxima ao solo sem necessariamente destruir as copas das árvores.
As principais evidências identificadas foram:
- Fragmentos microscópicos e macroscópicos de carvão;
- Compostos aromáticos associados à combustão;
- Estruturas carbonizadas de madeira de coníferas;
- Resina fossilizada em depósitos sedimentares;
- Esporos de musgos associados a antigas turfeiras.
O vídeo a seguir apresenta as florestas antárticas do Cretáceo e sua sobrevivência durante a noite polar.
Como existiam florestas próximas ao polo sul durante meses de escuridão?
Durante o Cretáceo, o planeta apresentava temperaturas elevadas e concentrações atmosféricas de dióxido de carbono superiores às atuais. Reconstruções climáticas indicam temperaturas médias anuais próximas de 12 °C naquela região, localizada a aproximadamente 900 quilômetros do polo sul.
Mesmo nesse ambiente relativamente quente, a inclinação do eixo terrestre provocava uma noite polar prolongada. Durante cerca de quatro meses, a vegetação não recebia luz solar direta. As plantas precisavam atravessar esse período com crescimento reduzido e reservas energéticas acumuladas durante as estações iluminadas.
O que provocava incêndios em florestas tão próximas do polo sul?
O estudo publicado na Communications Earth & Environment indica que os incêndios faziam parte da dinâmica natural dessas florestas. Apesar das condições geralmente úmidas, variações sazonais de precipitação poderiam favorecer períodos de secagem da vegetação.
Os pesquisadores consideram os raios uma possível fonte de ignição. A atividade vulcânica regional também foi examinada, mas as características dos incêndios identificados não favorecem erupções como explicação principal. A causa específica de cada episódio permanece desconhecida.

O que os incêndios mudaram nas antigas florestas antárticas?
As análises sugerem uma transformação gradual de florestas pantanosas em ambientes dominados por musgos do gênero Sphagnum. Esses organismos acumulam matéria orgânica em solos encharcados, contribuindo para formar turfeiras que podem preservar carbono durante longos períodos.
Os incêndios provavelmente ajudaram a manter áreas abertas, favorecendo a expansão dos musgos. Entretanto, essa relação é uma interpretação ecológica baseada na associação entre carvão, esporos e alterações sedimentares, não uma observação direta dos eventos antigos.
| Evidência encontrada | Interpretação científica |
|---|---|
| Carvão fossilizado | Incêndios antigos |
| Pólen de coníferas | Florestas temperadas |
| Esporos de Sphagnum | Expansão de turfeiras |
| Compostos da combustão | Atividade recorrente do fogo |
O que essa descoberta revela sobre o clima da Terra no passado?
O carvão fóssil da Antártida oferece evidências de que incêndios também ocorriam em ecossistemas polares durante períodos de aquecimento intenso. A descoberta amplia o conhecimento sobre as interações entre vegetação, fogo e armazenamento de carbono em ambientes úmidos.
Esses registros também ajudam a investigar como turfeiras respondem a mudanças climáticas. Entretanto, as condições atmosféricas, geográficas e biológicas do Cretáceo eram diferentes das atuais. Por isso, os resultados oferecem referências importantes para modelos climáticos, mas não permitem prever diretamente o comportamento dos ecossistemas modernos.
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