Cães sem pelo foram enterrados com pessoas há 1.200 anos e alguns filhotes ficaram preservados até hoje no Peru
Escavações revelam cães mumificados, filhotes em tumbas humanas e pistas sobre a alimentação e os rituais funerários da civilização Wari
Escavações realizadas no Peru revelaram cães sem pelo enterrados ao lado de pessoas durante o Império Wari, séculos antes da ascensão dos incas. Entre os achados estão filhotes, ossos e restos naturalmente mumificados com aproximadamente 1.200 anos, oferecendo novas evidências sobre alimentação, convivência e práticas funerárias.
Por que os cães sem pelo do Peru surpreenderam os arqueólogos?
O sítio arqueológico Castillo de Huarmey, localizado na costa norte peruana, funcionou como centro administrativo e funerário do Império Wari, civilização que floresceu aproximadamente entre 600 e 1050 d.C. Suas construções preservam sepultamentos de integrantes da elite, artesãos especializados e numerosos objetos cerimoniais.
Embora cães sem pelo apareçam em antigas representações artísticas andinas, faltavam evidências físicas desses animais em contextos Wari. A descoberta revelou que alguns indivíduos provavelmente recebiam tratamento diferenciado, enquanto outros desempenhavam funções relacionadas à alimentação, ao pastoreio e à circulação pelos assentamentos.
O que os pesquisadores encontraram nos sepultamentos dos cães sem pelo do Peru?
As escavações realizadas entre 2010 e 2025 recuperaram 341 elementos ósseos atribuídos a pelo menos 20 cães, além de um esqueleto naturalmente mumificado. Entre os exemplares identificados estavam três animais com características compatíveis com o cão pelado peruano, variedade que ainda existe atualmente.
Um crânio preservava partes da pele, orelhas e vestígios de cinábrio, pigmento vermelho utilizado em práticas funerárias. Outro exemplar, um macho adulto, conservava grande parte do esqueleto. A datação indicou que viveu entre 688 e 870 d.C.
Os principais achados incluem:
- Mais de 340 elementos ósseos de cães;
- Pelo menos 20 indivíduos de diferentes idades;
- Três exemplares identificados como cães sem pelo;
- Filhotes encontrados em sepultamentos humanos;
- Restos mumificados naturalmente pelo ambiente desértico.

Como os dentes ajudaram a identificar os cães sem pelo do Peru?
A ausência congênita de determinados dentes representa uma característica importante desses animais. Uma variante do gene FOXI3, associada à falta de pelos, também interfere no desenvolvimento dentário, especialmente de pré-molares e molares.
Os pesquisadores identificaram esse padrão em três exemplares. Entretanto, dentes ausentes não comprovam isoladamente que um cachorro não possuía pelagem. Por isso, compararam as mandíbulas com tecidos preservados, características microscópicas da pele e outros elementos anatômicos.
Como os cientistas reconstruíram a alimentação dos animais?
O estudo publicado no Journal of Anthropological Archaeology, em junho de 2026, foi liderado por Weronika Tomczyk, pesquisadora vinculada ao Dartmouth College, com participação de Miłosz Giersz, Wiesław Więckowski, Roberto Pimentel Nita e Claire Ebert.
A equipe combinou análises zooarqueológicas com medições isotópicas de carbono, nitrogênio, oxigênio e estrôncio. Esses elementos preservam informações sobre alimentação e mobilidade. Os resultados indicaram consumo de milho por diversos cães, enquanto filhotes sem pelo apresentavam padrões alimentares semelhantes aos de crianças.
Quais sepultamentos revelaram relações especiais entre humanos e cães?
Um filhote de aproximadamente seis a oito semanas foi enterrado com um artesão conhecido como Mestre Cesteiro. Outro acompanhava um guardião masculino posicionado próximo à câmara principal do mausoléu. Também foram encontrados restos de um cão adulto associados ao sepultamento de um adolescente.
Essas diferenças sugerem relações variadas entre humanos e animais, sem demonstrar que todos eram tratados como animais de estimação. A presença em contextos funerários indica possível significado simbólico, embora não permita determinar precisamente as crenças envolvidas.
| Contexto funerário | Evidência encontrada |
|---|---|
| Mestre Cesteiro | Filhote de seis a oito semanas |
| Guardião masculino | Esqueleto parcial de filhote |
| Sepultamento adolescente | Restos de cão adulto |
| Setor adjacente | Macho naturalmente mumificado |
O que a descoberta revela sobre a relação entre cães e humanos antes dos incas?
Os resultados mostram que os cães ocupavam diferentes posições na sociedade Wari. Alguns provavelmente acompanhavam atividades cotidianas, enquanto outros participavam de sepultamentos importantes. A semelhança alimentar entre determinados filhotes e crianças também levanta a possibilidade de cuidados específicos durante o crescimento.
Entretanto, os pesquisadores não conseguiram confirmar criação seletiva organizada, sacrifícios funerários ou vínculos afetivos individuais. Como parte dos depósitos foi perturbada por saques, novas escavações serão necessárias para esclarecer a origem dos animais e compreender melhor seu papel na sociedade andina.
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