Bilhões de animais sobem centenas de metros no oceano todas as noites e desaparecem antes do amanhecer
Peixes, lulas, camarões e organismos microscópicos realizam diariamente o maior movimento coletivo de animais conhecido no planeta
Durante o dia, os sonares mostram grandes concentrações de vida escondidas nas camadas escuras do oceano. Quando o Sol desaparece, essa massa começa a subir silenciosamente. O deslocamento envolve tantos animais que altera cadeias alimentares, transporta carbono e já foi confundido até com o fundo do mar.
Como os sonares descobriram uma camada que mudava de profundidade?
Durante a Segunda Guerra Mundial, operadores de sonar perceberam que uma faixa capaz de refletir ondas sonoras aparecia em águas profundas durante o dia e se aproximava da superfície à noite. Como o sinal lembrava o retorno produzido pelo leito oceânico, a formação chegou a ser interpretada como um “fundo falso” que subia e descia regularmente.
Mais tarde, pesquisadores descobriram que aquela camada era formada por enormes concentrações de peixes pequenos, lulas, camarões, águas-vivas, krill e outros organismos. Seus corpos, estruturas rígidas e bolsas de gás refletiam o som enviado pelos equipamentos, permitindo que a chamada camada de dispersão profunda fosse acompanhada mesmo quando os animais permaneciam invisíveis na escuridão.
Como a migração vertical movimenta bilhões de animais todas as noites?
Ao anoitecer, parte dos habitantes da zona crepuscular deixa profundidades que podem variar de algumas centenas de metros até perto de 1.000 metros e segue em direção às águas superficiais. Antes que a claridade retorne, esses animais fazem o caminho inverso e voltam para regiões mais profundas, repetindo o ciclo diariamente em diferentes partes do planeta.
- Participantes: Peixes, lulas, krill, copépodes, camarões e organismos gelatinosos
- Subida: Começa principalmente durante o entardecer
- Alimentação: Acontece nas camadas superficiais ricas em plâncton
- Retorno: Ocorre antes ou durante o amanhecer
- Alcance: Repete-se em oceanos de diferentes regiões do planeta
O vídeo mostra como peixes, crustáceos e outros habitantes das águas profundas sobem em direção à superfície depois do pôr do sol. As imagens ajudam a visualizar a dimensão dessa onda viva e explicam por que a maior migração diária do planeta consegue acontecer ao redor de navios e cidades costeiras sem ser percebida:
Por que tantos organismos enfrentam essa longa subida?
A superfície oferece uma grande concentração de alimento porque recebe luz suficiente para sustentar o fitoplâncton, base de boa parte da cadeia alimentar oceânica. O problema é que a claridade também facilita o trabalho de predadores que caçam pela visão. Para muitas espécies pequenas, alimentar-se durante o dia significaria aparecer como uma silhueta facilmente detectável.
A escuridão da noite reduz esse risco e abre uma janela para a alimentação. Ao amanhecer, permanecer perto da superfície volta a ser perigoso, e os animais descem para áreas mais escuras. Temperatura, quantidade de alimento, presença de predadores e até a luz da Lua podem alterar a profundidade e a intensidade do deslocamento, fazendo com que diferentes espécies sigam horários e trajetórias próprias.
Como a migração vertical transporta carbono para o fundo do oceano?
Na superfície, os organismos migradores consomem fitoplâncton e outras presas que incorporaram carbono durante o crescimento. Quando retornam às profundezas, levam parte desse material dentro do corpo. Respiração, excreções, restos de alimentação e animais mortos transferem o carbono para camadas onde ele pode permanecer afastado da atmosfera por períodos prolongados.
| Entardecer | Os animais iniciam a subida |
| Noite | Alimentam-se perto da superfície |
| Amanhecer | Carregam carbono durante a descida |
| Profundidade | Liberam resíduos ricos em carbono |
Esse transporte ativo complementa a neve marinha, formada por partículas orgânicas que afundam lentamente. A NOAA Ocean Exploration explica que a movimentação também pode criar turbulência, redistribuir nutrientes e influenciar o funcionamento da bomba biológica de carbono, embora sua participação global ainda esteja sendo calculada.
Como uma migração tão gigantesca permanece quase invisível?
A maior parte dos participantes mede poucos centímetros ou até milímetros, e muitos possui corpo transparente ou parcialmente translúcido. Eles também não formam uma fila contínua na superfície. A movimentação ocorre em diferentes profundidades, velocidades e horários, espalhada por áreas oceânicas enormes e protegida pela escuridão.
Para acompanhá-los, os pesquisadores utilizam sonares, redes que coletam amostras em profundidades determinadas, câmeras de baixa luminosidade, veículos autônomos e sensores instalados em plataformas oceanográficas. Até satélites já detectaram mudanças globais próximas à superfície, mostrando que a intensidade do movimento varia conforme a região, a estação do ano e a produtividade das águas.

Por que a migração vertical ainda guarda tantos mistérios?
Apesar de sua escala, as águas intermediárias continuam entre os ambientes menos conhecidos do planeta. Muitas espécies são delicadas demais para chegar intactas às redes, fogem dos equipamentos ou vivem em regiões tão extensas que uma expedição consegue observar apenas uma pequena parcela da comunidade. Pesquisadores ainda não possuem um inventário completo dos animais que formam as camadas de dispersão.
Também falta determinar quanto alimento cada grupo consome, qual volume de carbono transporta e como o aquecimento, a perda de oxigênio, a pesca e a iluminação artificial poderão alterar o ciclo. Todas as noites, enquanto a superfície parece vazia, uma massa viva atravessa centenas de metros de água e retorna antes que a maioria das pessoas tenha qualquer chance de perceber sua passagem.
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