As pedras de até 320 kg que atravessavam o Vale da Morte até câmeras revelarem um movimento quase invisível
Água rasa, gelo com poucos milímetros e ventos leves formam a combinação rara que empurra as rochas e grava longos rastros na lama
Durante décadas, visitantes chegavam a um lago seco no Vale da Morte e encontravam rochas espalhadas sobre a lama rachada, cada uma acompanhada por um sulco comprido. Não havia pegadas, marcas de máquinas ou testemunhas do deslocamento. As pedras mudavam de lugar em um cenário quase imóvel, mas pareciam escolher justamente os momentos em que ninguém estava olhando.
Por que ninguém conseguia ver as pedras se movendo?
O fenômeno ocorre no Racetrack Playa, uma planície extremamente nivelada formada pelo fundo seco de um lago temporário no Parque Nacional do Vale da Morte, na Califórnia. Centenas de rochas de dolomito e sienito aparecem sobre a superfície, muitas delas com rastros paralelos, curvas repentinas e sulcos que podem se estender por centenas de metros. Algumas pedras encontradas no local chegam a pesar aproximadamente 320 quilos.
O problema era o intervalo entre os movimentos. Uma pedra podia permanecer parada durante anos e mudar de posição apenas em uma combinação meteorológica muito específica. Quando pesquisadores retornavam ao local, encontravam rastros novos, mas o solo já estava novamente seco e não oferecia uma indicação completa do que havia acontecido.
Como as pedras do deserto realmente atravessavam o solo?
A explicação registrada envolve quatro elementos atuando em sequência: chuva suficiente para formar uma lâmina rasa de água, frio noturno para congelá-la, sol matinal para começar o degelo e vento capaz de empurrar os painéis de gelo. As rochas não flutuam nem são carregadas por blocos grossos; placas finas de gelo avançam sobre a água e pressionam suas laterais, fazendo-as deslizar lentamente pela lama.
- A chuva cobre parte da planície com água rasa
- A temperatura cai abaixo de zero durante a noite
- Uma camada transparente de gelo se forma sobre a água
- O sol começa a quebrar e soltar essa camada pela manhã
- Ventos leves movimentam os painéis e empurram as rochas
O vídeo do canal Live Science apresenta os registros obtidos no Racetrack Playa e mostra as pedras avançando lentamente enquanto placas quase transparentes de gelo se deslocam sobre a água. As imagens ajudam a perceber por que o movimento permaneceu escondido por tanto tempo: ele pode ser tão lento e discreto que dificilmente seria notado por alguém observando a paisagem à distância:
O mecanismo contraria a antiga ideia de que seriam necessárias tempestades violentas. Durante os eventos observados, o gelo possuía apenas cerca de 3 a 6 milímetros de espessura, enquanto ventos sustentados próximos de 4 a 5 metros por segundo já eram capazes de movimentar grandes painéis pela superfície alagada.
O que as câmeras registraram em dezembro de 2013?
Em 2011, uma equipe instalou uma estação meteorológica de alta resolução, câmeras de lapso de tempo e 15 rochas preparadas com sensores de GPS ativados pelo movimento. Como o Serviço Nacional de Parques não permitia alterar as pedras naturais, os pesquisadores levaram exemplares semelhantes para realizar o experimento sem danificar o local.
A espera terminou em 20 de dezembro de 2013. Mais de 60 pedras se deslocaram durante um único evento, enquanto os pesquisadores estavam presentes para observar parte do processo. Algumas rochas instrumentadas percorreram, em diferentes movimentos entre dezembro de 2013 e janeiro de 2014, distâncias acumuladas de até 224 metros. Foi a primeira observação científica direta do fenômeno em funcionamento.
Quais condições colocam as pedras do deserto em movimento?
O deslocamento começa depois de noites frias, quando a planície permanece coberta por uma lagoa temporária e o gelo se forma sobre sua superfície. Durante a manhã, o aumento da temperatura derrete o gelo ao redor das pedras e fragmenta a camada maior em painéis com dezenas de metros de extensão. O vento transfere água e gelo pela planície, enquanto as bordas desses painéis pressionam algumas rochas.
As velocidades registradas normalmente ficaram entre 2 e 5 metros por minuto. Em um dos movimentos medidos, uma pedra de 15,4 quilos avançou 39,1 metros em pouco mais de 12 minutos. Essa lentidão explica por que o fenômeno não se parece com uma rocha deslizando de forma brusca: em tempo real, a mudança pode ser quase imperceptível.
Por que o fenômeno pode ficar anos sem se repetir?
O Vale da Morte é conhecido pelo calor extremo e pela aridez, mas o Racetrack Playa está localizado em uma área elevada o suficiente para enfrentar noites congelantes no inverno. Ainda assim, não basta apenas fazer frio. É necessário que tenha chovido antes, que a água permaneça sobre a planície, que o congelamento produza uma superfície extensa e que o degelo coincida com ventos na direção adequada.
Caso o gelo seja pequeno demais, derreta rapidamente ou passe sobre uma rocha de perfil baixo, o deslocamento pode não acontecer. Algumas pedras próximas se movem juntas e deixam caminhos semelhantes, enquanto outras permanecem completamente paradas. Fraturas no gelo também podem separar rochas que estavam a poucos centímetros e conduzi-las por trajetórias diferentes.

O mistério das pedras do deserto foi totalmente encerrado?
O estudo publicado na PLOS ONE demonstrou diretamente como pedras de tamanho moderado podem ser empurradas por painéis finos de gelo. A pesquisa encerrou a principal dúvida sobre o mecanismo, mas os próprios autores reconheceram que não observaram os maiores blocos da planície entrando em movimento. A força necessária para deslocar esses exemplares ainda pode exigir condições mais intensas ou duradouras.
O local também continua extremamente frágil. O Serviço Nacional de Parques proíbe retirar ou mudar as rochas, dirigir fora das estradas e caminhar sobre a planície quando ela está molhada, pois pegadas e marcas de pneus podem permanecer durante anos. O mistério físico foi registrado, mas os rastros que tornaram o Racetrack famoso ainda dependem de uma combinação tão rara que uma nova travessia pode começar e terminar sem nenhuma pessoa por perto.
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