Aos 92 anos, ele salvou praticamente sozinho uma técnica de 2 mil anos que estava prestes a desaparecer para sempre
O último mestre de uma antiga oficina turca enfrentou décadas de trabalho pesado para transmitir um conhecimento que quase morreu com ele
Durante décadas, um homem trabalhou em uma pequena oficina de pedra na cidade turca de Bergama, repetindo gestos aprendidos ainda na juventude. Aos 92 anos, ele carregava praticamente sozinho o conhecimento de uma técnica com mais de 2 mil anos, ameaçada pela produção industrial e pela falta de novos aprendizes.
Por que essa técnica antiga esteve tão perto de desaparecer?
Durante séculos, o material produzido em Bergama foi usado para registrar leis, textos religiosos, obras literárias e documentos que precisavam atravessar gerações. Sua resistência era muito superior à de vários suportes antigos, mas o processo artesanal exigia força física, paciência e semanas de trabalho para transformar uma única pele.
Com a popularização do papel barato e produzido em grande escala, a procura caiu de maneira drástica. Oficinas foram fechadas, mestres abandonaram a atividade e os jovens passaram a buscar profissões menos pesadas. Em determinado momento, restou apenas uma pequena oficina preservando o método tradicional na cidade onde essa história ganhou fama mundial.
Como é feito o pergaminho que İsmail Araç preservou?
O homem responsável por manter o ofício vivo era İsmail Araç, um artesão turco que trabalhou durante cerca de 70 anos com couro e pergaminho. Ele selecionava peles de cabra e ovelha, avaliava defeitos, controlava a limpeza e realizava manualmente as etapas mais delicadas da transformação.
O pergaminho não é um papel comum nem um couro curtido da maneira tradicional. Ele é produzido com pele animal cuidadosamente limpa, esticada, raspada e seca sob tensão. O resultado é uma superfície clara, firme e durável, capaz de receber tinta, desenhos, caligrafia e documentos oficiais por períodos impressionantes.
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Quais etapas transformam uma pele em material de escrita?
A fabricação começa muito antes da secagem. İsmail examinava cada pele para encontrar furos, marcas ou áreas frágeis que poderiam comprometer o resultado. Depois, lavava o material para retirar o sal usado na conservação e o colocava em uma solução de água com cal, responsável por soltar pelos e parte da gordura.
O trabalho seguia por várias etapas cuidadosas:
- Selecionar peles de cabra ou ovelha sem furos graves
- Lavar o material para retirar sal, sujeira e resíduos
- Deixar a pele mergulhada em água com cal por cerca de cinco dias
- Raspar manualmente os pelos e os tecidos restantes
- Prender a pele em uma estrutura para mantê-la esticada
- Deixar o material secar por até cinco dias
- Fazer novos ajustes até alcançar uma superfície uniforme
Para complementar o tema, o canal Business Insider apresenta o vídeo “How A 92-Year-Old Saved The Ancient Craft Of Parchment-Making In Western Turkey | Still Standing”. O material acompanha İsmail Araç em sua oficina, mostra as etapas manuais do trabalho e explica por que a tradição quase desapareceu em Bergama:
Uma das fases mais difíceis era a raspagem. Com uma lâmina curva e muito afiada, o artesão precisava retirar os pelos dos dois lados sem perfurar a pele. Um movimento errado podia abrir um buraco e inutilizar semanas de preparação, tornando cada peça dependente da experiência acumulada pelo mestre.
Quanto tempo leva e como é feito o pergaminho artesanal?
O processo completo pode se estender por várias semanas, dependendo da pele, do clima e da finalidade da peça. Somente a retirada manual dos pelos podia exigir aproximadamente uma hora para cada pele. Já a secagem precisava ser lenta e controlada para impedir que o material encolhesse ou deformasse.
| Etapa | Função no processo | Tempo aproximado |
|---|---|---|
| Seleção | Identificar peles sem defeitos graves | Varia conforme o lote |
| Lavagem | Remover sal e impurezas | Primeiro dia |
| Banho de cal | Soltar pelos e excesso de gordura | Cerca de cinco dias |
| Raspagem | Limpar e uniformizar os dois lados | Aproximadamente uma hora por peça |
| Secagem esticada | Evitar encolhimento e deformações | Até cinco dias |
| Acabamento | Preparar a superfície para escrita ou pintura | Pode levar vários dias |
De acordo com a transcrição disponibilizada pelo Center for Medieval and Renaissance Studies da Universidade Estadual de Ohio, uma peça podia levar até um mês para ficar pronta. O tempo não representava demora desnecessária, mas o cuidado exigido para criar um material resistente e adequado ao uso artístico ou documental.
Como o artesão conseguiu transmitir o conhecimento antes de parar?
Durante muitos anos, İsmail teve dificuldade para encontrar pessoas dispostas a suportar o cheiro das peles, o contato com a cal e o esforço da raspagem. Seus próprios filhos não seguiram a profissão, e vários interessados abandonavam a oficina depois de perceberem como o processo era sujo, demorado e fisicamente cansativo.
A situação mudou quando os artistas Meltem Demirel e Sinan começaram a trabalhar com peças de pergaminho em Bergama. Aos poucos, İsmail os aceitou como aprendizes e transmitiu o método completo. Meltem tornou-se mestre, enquanto o casal assumiu a produção, a venda e a divulgação da técnica para novos públicos.

Por que saber como é feito o pergaminho ainda importa hoje?
O pergaminho foi utilizado durante mais de 2 mil anos e se tornou um dos materiais de escrita mais duráveis já produzidos. Documentos históricos, manuscritos religiosos e textos oficiais sobreviveram por séculos graças à resistência da superfície, que suporta o tempo de forma diferente de muitos papéis modernos.
İsmail deixou de trabalhar em tempo integral em 2020, quando o esforço físico se tornou pesado demais. Seu legado, porém, permaneceu com os aprendizes que passaram a ensinar a história do pergaminho em escolas e oficinas. O conhecimento que esteve perto de terminar com um único homem ganhou uma nova chance de atravessar outras gerações.
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