Aos 84 anos, Fredolino produz totalmente à mão gamelas de cedro com um machado herdado pelo pai e mantém viva a tradição da família no interior de SC
Conheça a história de Seu Fridolino, artesão que transforma madeira de cedro em gamelas feitas à mão com técnicas preservadas por décadas
Seu Fridolino, morador de Angelina, em Santa Catarina, guarda nas mãos a memória de um ofício raro: a produção manual de gamelas de madeira. Aos 84 anos, ele ainda trabalha com ferramentas simples, madeira de cedro e paciência de quem aprendeu cedo a transformar troncos e raízes em utensílios resistentes, úteis e carregados de história familiar.
Como Seu Fridolino aprendeu a fazer gamelas de madeira?
Seu Fridolino herdou o ofício do pai e começou ainda menino, em uma época em que o trabalho na roça e a produção artesanal dividiam o mesmo dia. A renda vinha da agricultura, mas as gamelas ajudavam a sustentar a casa e a criar os dez filhos.
Essa rotina explica por que a peça não é apenas um objeto de madeira. Ela representa uma forma antiga de viver, em que o conhecimento passava de pai para filho, sem apostila, molde industrial ou máquina automática.
Por que a madeira de cedro é tão importante nesse processo?
A madeira de cedro aparece como uma das escolhas mais valorizadas por causa da resistência, da textura e da capacidade de receber acabamento manual. Em vez de montar partes separadas, Seu Fridolino esculpe a peça diretamente da raiz ou do tronco, sem emendas.
Esse modo de produção exige leitura da madeira antes do primeiro corte. O artesão precisa observar fibras, curvas, nós e espessura para decidir o tamanho da gamela e evitar rachaduras durante o uso.
- A raiz pode render peças mais robustas e profundas.
- O tronco permite formatos maiores, usados como bacias ou fruteiras.
- A ausência de emendas aumenta a resistência da peça.
- O acabamento manual preserva marcas naturais da madeira.
Assista ao vídeo do canal Vale Agrícola que conta a história das gamelas do seu fridolino e já conta com mais de 636 mil visualizações:
Para que servem as gamelas no uso cotidiano?
As gamelas sempre tiveram usos variados na rotina rural. Em Angelina e em outras regiões de tradição agrícola, elas serviam para preparar alimentos, carregar produtos da roça, lavar ingredientes e organizar tarefas domésticas.
Hoje, as peças também aparecem como fruteiras, recipientes para churrasco e itens decorativos em cozinhas, varandas e áreas gourmet. A função mudou em parte, mas a gamelas de madeira ainda mantêm contato direto com comida, mesa, fogão e convivência familiar.
O que torna o processo artesanal mais lento e valioso?
O processo artesanal depende de força, precisão e tempo. Antigamente, Seu Fridolino trabalhava de forma totalmente braçal, muitas vezes até tarde da noite, usando machado e outras ferramentas manuais para dar forma às gamelas.
Hoje, os netos ajudam no corte inicial com motores, mas a finalização continua nas mãos dele. Cada peça ainda pode tomar cerca de um dia de trabalho, porque cavar, ajustar, alisar e equilibrar a madeira exige cuidado constante.
O corte inicial define o volume bruto da peça
Essa primeira etapa determina o tamanho da gamela e exige atenção para aproveitar bem o tronco antes do trabalho manual mais detalhado.
O machado abre o formato principal da gamela
Com golpes firmes e controlados, o artesão começa a revelar a forma da peça, retirando o excesso de madeira aos poucos.
O acabamento corrige bordas, fundo e espessura
Nessa fase, a gamela ganha equilíbrio, conforto no manuseio e aparência mais uniforme, sem perder o aspecto artesanal.
A experiência evita desperdício de madeira de cedro
O olhar treinado ajuda a escolher o melhor corte, respeitar as fibras da madeira e transformar cada pedaço em uma peça útil.
Por que essa tradição se tornou cada vez mais rara?
A produção manual perdeu espaço para utensílios industriais, feitos em plástico, inox, alumínio ou madeira processada. O problema não está apenas na troca de material, mas na perda do saber técnico que orienta o corte, o peso, a cavidade e o acabamento de cada peça.
Seu Fridolino continua ativo mesmo com o ritmo mais lento da idade. Essa permanência tem valor cultural porque mostra um modo de trabalho que quase não se aprende mais nas oficinas, nas casas de família ou nas pequenas propriedades rurais.
O que a história de Angelina revela sobre madeira, memória e trabalho?
A história de Angelina ganha força quando a madeira deixa de ser matéria-prima comum e passa a carregar gesto, herança e utilidade. Cada peça feita por Seu Fridolino reúne agricultura, família, ferramenta manual e conhecimento acumulado durante mais de sete décadas.
Preservar esse ofício significa reconhecer a importância de quem ainda sabe transformar raiz e tronco em objeto de uso real. As gamelas mostram que uma peça bem-feita não nasce da pressa, mas da escolha correta da madeira, do domínio do machado e da memória de quem aprendeu trabalhando ao lado do pai.
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