Adaptação hedônica: por que o aumento de salário “some” em poucos meses, e o que o estudo com ganhadores de loteria mostrou
A adaptação hedônica explica por que o aumento de salário "some": no estudo de 1978, ganhadores de loteria não eram muito mais felizes que o grupo de comparação, mesmo com fortunas de diferença
O aumento de salário parece resolver tudo no início, mas “some” em poucos meses. O nome desse fenômeno é adaptação hedônica, também chamada de esteira hedônica, descrita por Brickman e Campbell em 1971.
O que é adaptação hedônica, ou “esteira hedônica”?
Adaptação hedônica é a tendência de o novo padrão de vida virar o novo normal rapidamente, fazendo a satisfação voltar ao ponto de partida depois de qualquer ganho ou perda.
O termo “esteira hedônica” descreve bem a mecânica: por mais que a pessoa avance, sente que está no mesmo lugar, porque o próprio referencial de conforto se moveu junto.

Por que o aumento de salário “some” depois de alguns meses?
O aumento some porque o custo de vida sobe junto com ele: novos hábitos de consumo, compras maiores, assinaturas extras. Esse processo é conhecido como inflação do estilo de vida, o lado prático da adaptação hedônica.
O que o estudo com ganhadores de loteria de 1978 descobriu?
Médias de felicidade relatadas pelos três grupos comparados no estudo original.
Philip Brickman, Dan Coates e Ronnie Janoff-Bulman publicaram, em 1978 no Journal of Personality and Social Psychology, uma comparação entre 22 ganhadores de loteria, um grupo de comparação e 29 vítimas de acidente com paraplegia.
A diferença de felicidade entre ganhadores de loteria e o grupo de comparação foi pequena, sem significância estatística forte, mesmo com a diferença financeira sendo enorme entre os grupos.
Esse resultado é uma lei definitiva sobre dinheiro e felicidade?
Não. A amostra do estudo original é pequena, e leituras posteriores da literatura matizaram esse achado ao longo dos anos. Vale tratar o estudo como um clássico com ressalvas, não como uma lei fechada sobre dinheiro e felicidade.

Como agir nos primeiros 30 dias depois de um aumento?
Sem prometer enriquecimento, a regra prática nos primeiros 30 dias depois de qualquer aumento é simples: destinar um percentual fixo do valor novo à poupança automática, antes de qualquer ajuste de estilo de vida.
Upgrades de consumo devem ser conscientes, decididos com calma, não automáticos assim que o dinheiro extra aparece na conta. Essa mesma lógica de compromisso prévio contra o próprio comportamento futuro já apareceu no viés do presente por trás do “começo segunda-feira” e no efeito Diderot. O estudo original de 1978 pode ser conferido na íntegra aqui.

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