Abelhas criadas pelo homem estão expulsando polinizadores selvagens das flores e o calor pode tornar a disputa ainda mais intensa
Pesquisa britânica registrou centenas de encontros entre insetos nas flores e identificou maior competição em temperaturas elevadas
As abelhas-melíferas (Apis mellifera) estão afastando mamangavas, abelhas solitárias e moscas polinizadoras de flores disputadas no Reino Unido. Uma pesquisa publicada em setembro de 2026 registrou perseguições, empurrões e comportamentos de intimidação. Os cientistas também descobriram que temperaturas mais elevadas estavam associadas a encontros competitivos mais frequentes.
Como as abelhas-melíferas passaram a disputar flores com polinizadores selvagens?
Pesquisadores da Anglia Ruskin University acompanharam insetos em cinco locais próximos de Cambridge, na Inglaterra, durante dois anos. Os pontos estudados estavam situados a menos de 300 metros de colmeias conhecidas, permitindo observar como visitantes de diferentes espécies compartilhavam recursos florais.
A investigação concentrou-se em flores de silvas (Rubus fruticosus) e heras (Hedera helix), importantes fontes sazonais de néctar e pólen. Embora as abelhas-melíferas sejam fundamentais para a apicultura e a produção agrícola, grandes concentrações de colmeias podem aumentar a competição com espécies que dependem das mesmas plantas.
Por que as abelhas-melíferas conseguem expulsar outros insetos das flores?
Os pesquisadores observaram que as abelhas não apenas consumiam recursos antes das concorrentes. Elas também interferiam diretamente na alimentação de outros visitantes, aproximando-se, provocando contato físico e, ocasionalmente, perseguindo insetos que tentavam utilizar as mesmas flores.
O levantamento identificou diferentes comportamentos durante esses encontros:
- Mamangavas frequentemente evitavam flores ocupadas pelas abelhas-melíferas;
- Abelhas solitárias também perderam oportunidades de alimentação;
- Moscas-das-flores apresentaram respostas de afastamento;
- Empurrões e perseguições favoreceram as abelhas-melíferas;
- Abelhas-da-hera conseguiram enfrentar e, algumas vezes, afastar concorrentes.
Um vídeo educativo publicado pela PBS Terra, em parceria com o Museu Americano de História Natural, em abril de 2024, mostra a competição entre abelhas-melíferas e mamangavas, incluindo uma interação física sobre uma flor. O material é anterior ao estudo britânico.
Como o aumento da temperatura pode intensificar a competição entre polinizadores?
Temperaturas elevadas podem alterar simultaneamente o comportamento dos insetos e a disponibilidade de alimento. Algumas plantas produzem menos néctar sob estresse térmico, enquanto diferentes espécies de polinizadores apresentam limites fisiológicos distintos para continuar procurando flores durante períodos quentes.
Os pesquisadores identificaram maior frequência de encontros competitivos em condições mais quentes. Uma hipótese é que a redução dos recursos concentre os visitantes nas flores disponíveis. Entretanto, o estudo não demonstrou que o calor provoca diretamente maior agressividade, nem estabeleceu que todas as espécies responderão da mesma maneira ao aquecimento climático.
Como os cientistas mediram a vantagem das abelhas-melíferas durante os encontros?
O estudo original publicado na revista Ecological Entomology foi conduzido por Victoria A. Buckle, Peter M. J. Brown, Toby Carter e Thomas C. Ings, da Anglia Ruskin University. Publicada em 12 de setembro de 2026, a pesquisa reuniu 93 horas de observação e documentou 300 interações entre pares de visitantes florais.
Cada encontro foi classificado conforme o acesso ao alimento: vitória quando um inseto conseguia utilizar a flor em prejuízo de outro, ou compartilhamento quando ambos permaneciam sem conflito. A metodologia permitiu distinguir competição por exploração de recursos e competição por interferência física, frequentemente menos considerada nos estudos anteriores.

Quais números revelam a vantagem das abelhas-melíferas sobre outras espécies?
As abelhas-melíferas venceram mais da metade dos encontros observados nas duas plantas. Nas silvas, outros polinizadores evitaram sua presença em 28,4% das interações; nas heras, o percentual chegou a 35,6%. Em pelo menos 20% das vitórias, houve perseguição ou deslocamento físico dos concorrentes.
Nas silvas, a duplicação da densidade de abelhas-melíferas esteve associada a uma redução de 14% na abundância de mamangavas. Os resultados descrevem a distribuição dos visitantes nas flores examinadas, sem comprovar uma queda equivalente nas populações regionais.
| Indicador observado | Resultado |
|---|---|
| Tempo de observação | 93 horas |
| Encontros registrados | 300 interações |
| Evitação nas silvas | 28,4% dos encontros |
| Evitação nas heras | 35,6% dos encontros |
| Abundância de mamangavas nas silvas | 14% menor quando a densidade de abelhas-melíferas duplicou |
O que a descoberta significa para a conservação dos polinizadores selvagens?
Os resultados indicam que o planejamento da apicultura deve considerar a disponibilidade de flores e a presença de polinizadores selvagens. Em áreas com muitas colmeias, principalmente durante períodos de escassez floral, a competição pode dificultar o acesso de determinadas espécies ao néctar e ao pólen.
Entretanto, a pesquisa não acompanhou sobrevivência, reprodução ou declínios populacionais de longo prazo. Os cientistas defendem novas investigações para compreender essas consequências e avaliar estratégias de coexistência. Preservar habitats diversificados e ampliar os recursos florais pode ajudar, sem desconsiderar a importância econômica e ecológica das abelhas manejadas.
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