A verdade sobre os fios pendurados que você vê todo dia
A diferença no visual urbano tem explicação técnica e financeira surpreendente
Quem olha rápido para as ruas brasileiras pode achar normal ver postes lotados de fios por todos os lados. Mas o contraste com cidades como Madrid, Paris ou Nova York é grande: lá a rede elétrica desapareceu do campo de visão, enquanto aqui o emaranhado de cabos revela um problema bem mais profundo.
Por que a fiação elétrica brasileira parece tão desorganizada?
Grande parte da confusão começa no uso compartilhado dos postes. Eles foram pensados para rede de energia, mas passaram a receber também cabos de telefonia, TV a cabo, internet e fibra óptica, cada serviço operado por empresas diferentes.
Quando uma companhia troca um cabo, o antigo geralmente não é removido. Fios velhos vão ficando pendurados, somados a ligações clandestinas, criando aquela imagem de teia de aranha que se repete em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

Quanto custa realmente enterrar a fiação elétrica?
A diferença de custo entre rede aérea e subterrânea impressiona. Estimativas apontam que construir 1 km de rede elétrica subterrânea pode custar entre quatro e oito vezes mais do que uma rede convencional com postes e cabos suspensos.
Enquanto 1 km de rede aérea gira em torno de R$ 100.000, o mesmo trecho enterrado pode chegar a R$ 840.000. Em alguns casos, como o da Celesc em Santa Catarina, a conta foi ainda maior: cerca de R$ 150.000 por km na rede aérea contra mais de R$ 1.700.000 no sistema subterrâneo.
Quais obstáculos impedem o enterramento dos fios?
Os custos altos não são o único problema. A burocracia e os conflitos de competência entre municípios, União e agências reguladoras criam um cenário em que ninguém assume totalmente a responsabilidade. As principais barreiras incluem:
- Custo inicial elevado com materiais reforçados e obras complexas
- Exigência de dutos, caixas de concreto e câmaras subterrâneas
- Conflito entre prefeituras, Aneel, Anatel e normas federais
- Planejamento frágil pressionado por resultados trimestrais
- Pouco incentivo político comparado a obras mais visíveis
Quer entender melhor? Veja abaixo um vídeo sobre infraestrutura urbana:
Quais riscos a fiação aérea traz para a população?
Manter os fios expostos não afeta apenas o visual das cidades. A rede aérea é muito mais vulnerável a vendavais e tempestades, como ficou evidente em São Paulo em outubro de 2024, quando ventos de 107 km/h deixaram mais de 2 milhões de pessoas sem energia e prejuízos de cerca de R$ 15,5 bilhões.
Os números são alarmantes: 36.000 ocorrências entre 2009 e 2024 envolvendo fiação elétrica, mais de 4.000 mortes no período, e 10 milhões de postes sobrecarregados segundo a Anatel. Enquanto consumidores na União Europeia ficam 12,2 minutos por ano sem energia, no Brasil a média ultrapassa 10 horas anuais.
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