A queda da sonda Beresheet espalhou milhares de tardígrados adormecidos pela superfície lunar
O impacto da sonda israelense Beresheet na Lua, em abril de 2019, levantou uma dúvida duradoura
O impacto da sonda israelense Beresheet na Lua, em abril de 2019, levantou uma dúvida duradoura: alguns dos tardígrados levados a bordo poderiam ter resistido à colisão.
A questão envolve não apenas a impressionante resistência desses microrganismos, mas também proteção planetária, responsabilidade de missões privadas e limites éticos da exploração espacial.
O que foram a Beresheet e o arquivo levado à Lua?
A Beresheet foi desenvolvida pela organização sem fins lucrativos SpaceIL em parceria com a Israel Aerospace Industries, visando o primeiro pouso lunar majoritariamente privado.
Na fase final de descida, a nave perdeu o controle do motor principal e colidiu com o solo lunar em alta velocidade, sem conseguir pousar suavemente.
Acoplado à estrutura estava o “Lunar Library”, um disco de níquel do tamanho aproximado de um DVD. Esse arquivo físico continha dezenas de milhões de páginas microgravadas, além de amostras de DNA humano e milhares de tardígrados desidratados e imobilizados em resina, projetados para resistir por longos períodos.
Corrigindo a postagem anterior. Provavelmente essa aqui é a última imagem feita pela sonda Beresheet de Israel, antes de ter problema e não conseguir pousar com sucesso na Lua. pic.twitter.com/5WnJbQt5Yi
— Sacani (Space Today) – AKA Gordão Foguetes (@SpaceToday1) April 11, 2019
Por que os tardígrados são considerados tão resistentes?
Tardígrados, ou “ursos-d’água”, são invertebrados microscópicos capazes de entrar em um estado dormente chamado tun. Nessa condição, expulsam grande parte da água do corpo, retraem-se e reduzem drasticamente o metabolismo, tornando-se extremamente tolerantes a ambientes hostis.
Nesse estado, suportam variações extremas de temperatura, pressão e radiação, além de longos períodos sem água.
Experimentos da Agência Espacial Europeia, em 2007, mostraram que indivíduos secos expostos ao vácuo e à radiação no espaço por dias puderam ser reidratados, voltando à atividade e reproduzindo-se normalmente.
Os tardígrados da Beresheet poderiam ter sobrevivido ao impacto?
O ponto crítico é a velocidade de colisão da Beresheet, estimada em torno de 1 quilômetro por segundo. Em 2021, testes da Universidade de Kent mostraram que tardígrados congelados suportaram impactos de até cerca de 0,9 quilômetro por segundo; acima disso, não houve recuperação após descongelamento e reidratação.
Nos experimentos, porém, os animais foram disparados praticamente sem proteção. Já na Beresheet, estavam imersos em resina e entre camadas de níquel, o que pode ter amortecido parte do choque ou, ao contrário, concentrado tensões locais. Assim, a sobrevivência é considerada improvável, mas não totalmente descartada.

Há vida ativa na Lua por causa desses microrganismos?
Mesmo que algum tardígrado tenha permanecido estruturalmente intacto entre os destroços, isso não significa vida ativa na Lua. No estado de tun, o animal não se move, não se alimenta e não se reproduz, permanecendo apenas potencialmente viável.
Para despertar, precisaria de reidratação em ambiente adequado, algo inexistente na superfície lunar, onde não há água líquida exposta. Qualquer tardígrado sobrevivente permaneceria dormente até eventual recuperação por futura missão, o que ainda não aconteceu.
Que debates de proteção planetária esse caso provocou?
A Lua é classificada com exigências relativamente brandas de descontaminação biológica, mas o envio discreto de uma carga biológica privada gerou preocupações. O episódio reacendeu discussões sobre governança global e sobre como lidar com novos atores comerciais na exploração espacial.
Entre os pontos levantados por pesquisadores e órgãos reguladores estão questões como:
Garantir transparência total sobre cargas biológicas em missões privadas e governamentais.
Atualizar diretrizes internacionais de proteção planetária diante da expansão do setor comercial.
Estabelecer limites claros para o envio deliberado de organismos, mesmo dormentes, a outros corpos celestes.
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