Tallis Gomes na Crusoé: O dividendo que não existe
Nenhuma nação da história enriqueceu decretando o descanso antes de construir a abundância
Aristóteles, filósofo grego considerado um dos principais pensadores da tradição ocidental, ensinou, há vinte e três séculos, que a virtude do legislador não está na nobreza de suas intenções, mas na prudência de distinguir a causa do efeito.
Quem confunde as duas coisas pode decretar o efeito e destruir a causa. É exatamente isso que o Congresso se prepara para fazer com a PEC 221, que reduz a jornada máxima de trabalho de 44 para 40 horas por emenda constitucional.
Comecemos pelo que ninguém discute. O brasileiro trabalha muito e ganha pouco. Sua exaustão é real, e sua aspiração por mais tempo com a família é legítima e santa.
O diagnóstico da PEC está correto. O remédio está errado. E remédio errado, em dose constitucional, mata o paciente que dizia salvar.
A jornada curta não é uma escolha política. É um dividendo da produtividade.
Produtividade
O alemão trabalha menos que o brasileiro porque produz, por hora, mais de três vezes o que produzimos.
O trabalhador brasileiro gera em média 21 dólares por hora trabalhada, contra 75 dólares na média dos países do G7.
Estamos abaixo do Uruguai, do Chile, da Argentina e até de Cuba. Em 1950, produzíamos por hora 25% do que produzia um americano.
Setenta e cinco anos depois, seguimos nos mesmos 25%. E o quadro recente é pior que estagnação: segundo o Observatório da Produtividade Regis Bonelli, do FGV IBRE (2025), a produtividade por hora cresceu 0,1% em 2024, avançou em média 0,28% ao ano desde 2019, e a produtividade total dos fatores está em queda desde 2024.
Estudo do Insper (“Quanto de produtividade precisamos para reduzir a jornada de trabalho?“, 2026) também estima que a redução para 40 horas exigiria ganho de produtividade na casa de 2% para não destruir produção.
No ritmo atual, isso…
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