A linha de neve subiu cerca de 150 metros perto do Everest em poucas semanas sem derreter porque o gelo passou direto para vapor
Imagens do Landsat mostraram neve recuando para cerca de 6.100 metros durante um inverno excepcionalmente seco no Himalaia
No inverno de 2024–2025, imagens de satélite revelaram uma mudança incomum nas geleiras próximas ao Everest. Entre 11 de dezembro de 2024 e 28 de janeiro de 2025, a linha de neve subiu cerca de 150 metros, atingindo uma altitude média próxima de 6.100 metros. Segundo o glaciologista Mauri Pelto, a principal causa não foi o derretimento, mas a sublimação, processo no qual neve e gelo passam diretamente para vapor de água.
Por que a linha de neve subiu tanto perto do Everest?
A linha de neve representa aproximadamente o limite entre a superfície glacial ainda coberta por neve sazonal e as áreas expostas abaixo dela. Nas geleiras analisadas ao redor do Everest, esse limite estava próximo de 5.950 metros em 11 de dezembro de 2024 e alcançou aproximadamente 6.100 metros em 28 de janeiro de 2025.
O comportamento ocorreu durante um período excepcionalmente seco. Dezembro de 2024 apresentou precipitação muito abaixo do normal em partes do Nepal, acompanhada por temperaturas acima da média. Em janeiro, as condições permaneceram relativamente quentes e secas, dificultando a reposição da neve perdida pela superfície das geleiras.
Como a linha de neve avançou sem ocorrer derretimento significativo?
Nas grandes altitudes do Himalaia, temperaturas de inverno permanecem frequentemente baixas demais para produzir derretimento importante. Mesmo assim, a neve pode desaparecer pela sublimação. Nesse processo físico, moléculas deixam diretamente a superfície congelada e entram na atmosfera na forma de vapor, sem passar pela fase líquida.
Baixa umidade, ventos fortes e temperaturas relativamente elevadas para a estação favorecem essa transferência. O vento remove o ar úmido imediatamente acima da neve e mantém um gradiente que permite a continuação da perda de massa, mesmo quando a superfície permanece abaixo do ponto de congelamento.
- Baixa umidade relativa do ar;
- Ventos fortes sobre as geleiras;
- Temperaturas acima da média;
- Pouca precipitação para repor a neve perdida.
Este vídeo mostra mudanças recentes no gelo do Everest e explica por que suas geleiras estão sendo acompanhadas de perto pelos pesquisadores:
Por que as geleiras do Everest acumulam neve de maneira diferente?
Muitas geleiras europeias e norte-americanas acumulam grande parte de sua massa durante o inverno. No Himalaia central, porém, várias geleiras pertencem ao chamado regime de acumulação de verão, porque aproximadamente três quartos da precipitação anual podem ocorrer durante as monções, entre junho e setembro.
Isso torna o inverno uma estação normalmente seca. Uma cobertura relativamente fina de neve ainda costuma persistir sobre partes das geleiras, mas sucessivos invernos secos podem deixá-las expostas por períodos maiores. Pelto observou linhas de neve excepcionalmente elevadas também em janeiro de 2021, 2023 e 2024.
Por que a sublimação é tão eficiente em grandes altitudes?
A atmosfera rarefeita, os ventos intensos e a baixa umidade das grandes altitudes criam condições favoráveis à sublimação. Estudos realizados no South Col Glacier, próximo ao Everest, já mostraram que esse processo contribui de maneira mensurável para a perda de massa glacial, mesmo quando o derretimento superficial é pequeno.
A NASA Earth Observatory destacou que o avanço observado no início de 2025 ocorreu principalmente dessa maneira. Temperaturas mais altas aumentam a capacidade do ar de receber vapor, enquanto ventos fortes intensificam a troca de calor e umidade junto à superfície.

O que os números mostram sobre a linha de neve?
A comparação das imagens do Landsat 9 mostrou um avanço vertical de aproximadamente 150 metros em apenas 48 dias. Em 28 de janeiro de 2025, a média regional estava próxima de 6.100 metros, e locais abaixo dessa altitude apresentavam cobertura muito menor do que seria esperada em condições mais favoráveis.
A situação não significa que toda a geleira tenha perdido 150 metros de espessura. O número representa a mudança de altitude do limite médio da cobertura de neve persistente, uma diferença fundamental para interpretar corretamente as imagens de satélite.
Por que esse fenômeno importa para além do Everest?
Menor persistência de neve altera a quantidade de água armazenada temporariamente nas montanhas e pode modificar o momento em que essa água chega aos rios. Em regiões dependentes das geleiras e da neve sazonal, mudanças desse tipo são relevantes para abastecimento, agricultura e ecossistemas.
O episódio também mostra que perda de neve não significa necessariamente derretimento. Nas maiores altitudes do planeta, processos atmosféricos aparentemente discretos podem remover água congelada diretamente para o ar e transformar a aparência das geleiras em poucas semanas.
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