A “libélula” gigante de 70 centímetros que cruzava florestas onde o ar tinha mais de 30% de oxigênio
Parente distante das libélulas atuais, a Meganeura patrulhava áreas úmidas em uma atmosfera que favorecia artrópodes muito maiores
Muito antes das aves e dos morcegos ocuparem o céu, um inseto com asas largas patrulhava áreas úmidas em busca de outras criaturas voadoras. Seu tamanho parecia incompatível com a respiração dos insetos atuais, mas a atmosfera ao redor dele também não era como a nossa.
Por que a libélula gigante parecia impossível para os padrões atuais?
A Meganeura monyi viveu no final do período Carbonífero, há cerca de 300 milhões de anos. Apesar do apelido popular, ela não era uma libélula moderna, mas integrante dos Meganisoptera, grupo extinto de insetos intimamente relacionado aos odonatos atuais. Seu corpo alongado e os dois pares de asas produziam uma aparência reconhecível, embora sua linhagem tenha desaparecido completamente.
A envergadura reconstruída chegava a aproximadamente 65 ou 70 centímetros, dimensão comparável à largura de uma pequena ave com as asas abertas. O Natural History Museum de Londres estima que esses predadores poderiam pesar entre 100 e 150 gramas, aproximadamente o peso de uma maçã grande.
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Como a Meganeura caçava nas florestas do Carbonífero?
Os fósseis indicam que os grandes parentes das libélulas eram predadores aéreos. Pernas projetadas para a frente e cobertas por espinhos formariam uma espécie de cesta ao redor da presa, enquanto mandíbulas robustas ajudariam a cortar e mastigar outros insetos capturados durante o voo.
- Olhos compostos localizavam movimentos no céu
- Pernas espinhosas envolviam animais durante o voo
- Mandíbulas afiadas fragmentavam o alimento
- Asas longas favoreciam patrulhas em áreas abertas
- O tamanho permitia capturar insetos relativamente grandes
O vídeo do PBS Eons reconstrói o período Carbonífero e explica por que a Meganeura se tornou um dos símbolos da época dos artrópodes gigantes. As animações mostram o animal ao lado de outros habitantes das antigas áreas úmidas e relacionam sua envergadura ao aumento do oxigênio atmosférico, complementando a explicação sobre respiração e gigantismo.
O oxigênio elevado realmente criou a libélula gigante?
Os insetos não respiram com pulmões. O ar entra por pequenas aberturas chamadas espiráculos e percorre uma rede de tubos conhecida como sistema traqueal, levando oxigênio diretamente aos tecidos. Em um corpo muito grande, manter esse abastecimento se torna mais difícil. Durante partes do Carbonífero, porém, as estimativas atmosféricas ultrapassam 30% de oxigênio, diante de aproximadamente 21% na atualidade.
Uma atmosfera mais rica permitiria que o gás avançasse com maior eficiência pelo sistema respiratório e sustentasse tecidos volumosos, sobretudo nos músculos exigidos pelo voo. Estudos com milhares de asas fósseis encontraram uma relação entre o nível de oxigênio e o tamanho máximo dos insetos durante boa parte de sua evolução inicial, mas também indicam que essa conexão não explica tudo sozinha.
O que os fósseis revelam sobre o tamanho da Meganeura?
Os exemplares mais conhecidos vieram das camadas carboníferas de Commentry, na França. Grande parte dos fósseis de meganeurídeos consiste em asas isoladas ou corpos incompletos, pois estruturas delicadas raramente atravessam centenas de milhões de anos sem deformações. A coleção do Museu Nacional de História Natural de Paris guarda a principal série de insetos desse depósito, incluindo a própria Meganeura monyi.
| Pista na rocha | O que ela permite reconstruir |
|---|---|
| Asas preservadas | Envergadura próxima de 70 centímetros |
| Nervuras extensas | Formato e sustentação das grandes asas |
| Pernas com espinhos | Captura de outros insetos em movimento |
| Corpo incompleto | Mantém peso e proporções como estimativas |
Os cerca de 70 centímetros não vieram da medição de inúmeros animais completos. A escala é reconstruída pela extensão das asas preservadas e pela comparação com outros integrantes do grupo. Por isso, detalhes como massa, coloração e comprimento exato do abdômen permanecem menos seguros do que a dimensão impressionante das asas.
Por que a libélula gigante não era igual às espécies modernas?
A anatomia geral lembra as libélulas, mas as grandes asas provavelmente limitavam mudanças bruscas de direção. Uma pesquisa publicada na Scientific Reports propôs que os meganeurídeos agiam como patrulheiros aéreos, voando sobre rios, lagos, margens e áreas abertas, em vez de manobrar entre plantas muito próximas. Suas asas poderiam sofrer danos com facilidade em vegetação densa.
A imagem clássica do animal desviando entre troncos apertados de uma floresta pantanosa pode ser exagerada. Os estudos favorecem espaços abertos, clareiras e bordas de áreas úmidas, onde olhos desenvolvidos ajudariam a localizar presas contra o céu. Mesmo o comportamento de caça é reconstruído a partir de parentes fósseis mais completos, pois a preservação da própria Meganeura é limitada.

O que levou esses insetos gigantes ao desaparecimento?
O declínio do oxigênio atmosférico reduziu uma das condições que favoreciam corpos maiores, mas a transformação do céu também teve importância. Conforme vertebrados voadores surgiram e se diversificaram, insetos grandes passaram a enfrentar novos predadores e competidores, criando vantagens para formas menores, leves e capazes de mudar de direção rapidamente.
Essa explicação precisa ser tratada como uma combinação de fatores, pois grandes meganeurídeos também existiram em períodos com menos oxigênio. A Meganeura desapareceu ainda no Paleozoico, muito antes do surgimento das aves e dos grandes dinossauros conhecidos, mas deixou nas rochas o registro de um céu no qual as regras respiratórias e ecológicas permitiram asas com quase 70 centímetros.
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