A extraordinária adaptação dos tibetanos às grandes altitudes pode ter origem em um legado genético deixado pelos misteriosos denisovanos
Populações que vivem há milhares de anos em grandes altitudes despertam interesse de médicos, biólogos e historiadores
Populações que vivem há milhares de anos em grandes altitudes despertam interesse de médicos, biólogos e historiadores.
Entre elas, os tibetanos se destacam por habitar um planalto acima de 3.500 metros, onde o ar rarefeito causa mal-estar em visitantes. A adaptação desse grupo ao pouco oxigênio tem como peça-chave o gene EPAS1.
O que é o gene EPAS1 e como ele atua na hipoxia?
O EPAS1 faz parte da via de resposta à hipóxia, situação em que há baixa oferta de oxigênio. Ele regula a ativação de vários genes que ajustam produção de glóbulos vermelhos, circulação sanguínea e partes do metabolismo.
Entre tibetanos, pesquisadores identificaram uma variante específica, o “haplótipo tibetano de EPAS1”. Essa versão é frequente apenas nessa população e muito rara em grupos de baixa altitude, como os chineses Han, indicando forte papel adaptativo.
A Tibetan boy and his Drok-kyi/འབྲོག་ཁྱི་ (the Tibetan word for Tibetan Mastiff, meaning 'nomadic dog').
— Snow Lion གངས་སེང་། (@snowlion1949) June 10, 2026
These incredible dogs are fiercely protective guard dogs. They carry the EPAS1 gene after mixing with Tibetan Wolves, making them adapted to high altitude. pic.twitter.com/IuBQ1gQv2S
Por que a variante tibetana de EPAS1 faz o oposto do esperado?
Em pessoas que sobem rapidamente a grandes altitudes, o corpo costuma aumentar a concentração de hemoglobina. Isso melhora o transporte de oxigênio, mas torna o sangue mais viscoso, sobrecarregando o sistema cardiovascular.
Nos tibetanos, a variante de EPAS1 limita esse aumento, mantendo níveis mais moderados de hemoglobina. Assim, reduz o risco de mal crônico de montanha, pressão alta e complicações gestacionais ligadas ao sangue espesso.
Quais são os principais benefícios fisiológicos dessa adaptação?
Os efeitos do haplótipo tibetano de EPAS1 se traduzem em vantagens concretas para viver permanentemente em altitude. Essas vantagens envolvem sangue menos viscoso, menor esforço cardíaco e melhor tolerância à hipoxia crônica.
Menor aumento de hemoglobina: reduz a viscosidade e melhora o fluxo sanguíneo.
Menor sobrecarga cardíaca: favorece saúde cardiovascular ao longo da vida.
Melhor ajuste à hipoxia crônica: permite atividades diárias intensas em grandes altitudes.
Como a herança denisovana contribuiu para o EPAS1 tibetano?
Estudos genômicos indicam que o haplótipo tibetano de EPAS1 é muito semelhante ao DNA de denisovanos, um grupo de humanos arcaicos da Ásia. Isso sugere um caso de introgressão adaptativa, em que fragmentos de DNA arcaico foram incorporados aos humanos modernos.
Na maioria das populações, trechos arcaicos foram reduzidos pela seleção. Entre tibetanos, porém, a variante denisovana de EPAS1 conferiu vantagem em ambientes de pouco oxigênio, aumentando em frequência geração após geração.

O que esse caso revela sobre a evolução humana recente?
A mandíbula de Xiahe, atribuída a denisovanos e datada de cerca de 160 mil anos, indica ocupação antiga do planalto tibetano em alta altitude. Isso reforça a ideia de que denisovanos já estavam parcialmente adaptados à hipoxia antes da chegada de humanos modernos.
O caso do EPAS1 tibetano mostra que a evolução recente inclui não só mutações novas, mas também o reaproveitamento de variantes arcaicas úteis em ambientes extremos. Mesmo sendo apenas um gene entre muitos, ele ilustra como linhagens humanas distintas se entrelaçaram para moldar nossa capacidade de viver nos limites do planeta.
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