Paulo Roberto de Almeida na Crusoé: O Adam Smith brasileiro
José da Silva Lisboa aprimorou as ideias do escocês ao sugerir que o conhecimento também deve ser levado em conta na riqueza das nações
O aspecto mais importante das conexões entre o escocês Adam Smith e os “Brasis” – como ele se referia ao Brasil ainda colonial – foi o fato de que ele encontrou um leitor atento e um precoce seguidor em um dos intelectuais mais ativos do país: o baiano José da Silva Lisboa. O primeiro contato que Silva Lisboa teve com a obra seminal de Adam Smith ocorreu em torno de 1795, quando ele leu e anotou extensivamente A Riqueza das Nações, para compor as lições do seu primeiro livro: Princípios de Direito Mercantil (1798), complementado por Princípios de economia política (1804).
Nos seus livros, ele confidencia: “Para não desgostar logo aos leitores com discussões prolixas (…), exponho os motivos por que recomendo a lição da imortal obra da A Riqueza das Nações do celebrado Adam Smith, e o sigo nas teses cardeais de seu sistema; persuadido de ter sido ele o primeiro que dissipou as escuridades da Economia Política, levantando a facha de luz para esclarecer às nações e governos sobre os seus genuínos interesses, que são inseparáveis dos da Humanidade“.
Tendo influenciado o príncipe regente na declaração de abertura dos portos, publicada quando ambos se encontravam em Salvador, em janeiro de 1808, Silva Lisboa produziu de imediato suas Observações sobre o comércio franco no Brasil. Nos anos seguintes, ele ainda escreveu as obras Observações sobre a franqueza da indústria e estabelecimento de fábricas no Brasil e Observações sobre a prosperidade do Estado pelos liberais princípios de nova legislação.
A despeito da importância dessas obras, Silva Lisboa não conheceu a fama que sempre cercou Adam Smith. A pouca afeição que ele teve no panteão dos estadistas da independência – José Bonifácio, Hipólito da Costa, Evaristo da Veiga, Bernardo Pereira de Vasconcelos, entre outros – se deve à fidelidade extrema aos Braganças que ele sempre manteve.
No Brasil independente, Silva Lisboa mostrou-se servil a D. Pedro I, que lhe atribuiu os títulos de barão e de visconde de Cairu, e fez dele um senador do Império. Cairu passou a ser visto como um conservador, senão um reacionário. É a esse título que José Honório Rodrigues o classifica em sua História da História do Brasil, de 1988, sob o signo da historiografia conservadora, na qual Silva Lisboa é colocado na “linha reacionária e contrarrevolucionária”.
Mas Silva Lisboa não fez apenas obra teórica de economia política, como discorreu sobre os problemas…
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