Como a Raízen chegou à crise que agora pressiona a Cosan
Investimentos bilionários, juros altos e safras fracas ajudam a explicar como a Raízen chegou à crise que agora pressiona a Cosan
O anúncio da recuperação extrajudicial da Raízen para renegociar cerca de 65 bilhões de reais em dívidas surpreendeu muita gente, mas não surgiu de um choque repentino.
Ele foi consequência de uma realidade construída ao longo de anos de expansão industrial, apostas tecnológicas e um ambiente financeiro que mudou mais rápido do que o esperado.
Essa combinação acabou levando a companhia a uma das maiores renegociações privadas de dívida já vistas no país e colocou sob pressão a Cosan, sua principal controladora.
Criada em 2010 a partir da associação entre a Cosan e a Shell, a Raízen se transformou em um dos maiores grupos de energia do Brasil. A empresa reúne produção de açúcar e etanol, geração de energia a partir da biomassa e uma rede de distribuição de combustíveis espalhada pelo país.
Durante mais de uma década, a estratégia foi crescer em escala e apostar no avanço dos biocombustíveis, especialmente no etanol de segunda geração, produzido a partir de resíduos vegetais, como o bagaço e a palha da cana-de-açúcar, em vez do caldo da cana, uma tecnologia considerada central para reduzir emissões no setor de transportes.
Esse plano exigiu investimentos pesados. A empresa construiu novas plantas industriais e ampliou a capacidade de produção em um momento em que o crédito ainda era mais barato.
Esse ciclo de investimentos ocorreu ao mesmo tempo em que a companhia assumia grandes compromissos financeiros e enfrentava desafios operacionais. Projetos industriais demoraram mais do que o esperado para atingir a produção planejada e acabaram exigindo mais recursos.
O cenário econômico também piorou. A forte elevação dos juros agravou o quadro. A taxa básica saiu de 2% para 13,75% em menos de um ano e meio e está em 15% desde o fim do ano passado o que, aumentou o custo da dívida justamente quando a empresa ampliava financiamentos com a expansão.
Ao mesmo tempo, safras de cana afetadas por clima irregular e incêndios reduziram volumes de moagem e pressionaram resultados. A soma desses fatores levou a companhia a registrar perdas bilionárias e a acumular um endividamento que ultrapassou 65 bilhões de reais.
A crise acabou evidenciando divergências entre os sócios, com discussões sobre uma capitalização da empresa avançando lentamente diante de avaliações diferentes entre Cosan e Shell sobre o tamanho e o melhor formato de novos aportes.
O episódio também colocou a própria Cosan sob análise. O grupo construiu nas últimas décadas um grande portfólio em energia, logística e infraestrutura por meio de aquisições e forte uso de dívida.
A deterioração financeira da Raízen colocou a sua gestão sob questionamento no mercado. Para Jason Vieira, economista-chefe da Lev Intelligence, “a impressão que passa é que os dados e projeções que embasaram os investimentos foram um pouco otimistas demais”.
Como a empresa é um dos ativos centrais da Cosan, a crise passou a levantar dúvidas sobre o equilíbrio financeiro do conglomerado. Analistas agora discutem se o modelo de crescimento da holding permanece sustentável em um ambiente de juros mais altos e capital mais caro.
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