Trecho da ‘Ilíada’, de Homero, é achado dentro de múmia no Egito
Descoberta em Oxirrinco marca a primeira vez que papiro literário greco-romano é identificado em contexto funerário
Arqueólogos da Universidade de Barcelona identificaram, nas ruínas de uma antiga cidade egípcia a cerca de 190 quilômetros ao sul do Cairo, uma múmia do período romano que continha em sua cavidade torácica um fragmento da Ilíada, de Homero. Os restos mortais, datados de aproximadamente 400 d.C., estavam acondicionados em sarcófago de madeira dentro de um complexo funerário de três câmaras calcárias em Oxirrinco — localidade às margens de um braço do Nilo chamado Bahr Yussef.
Achado muda o que se sabia sobre práticas de mumificação
Técnicas funerárias do período romano no Egito combinavam elementos das culturas egípcia, grega e romana. O processo incluía a desidratação do corpo por 40 dias em sal de natrão, seguida do envolvimento em linho. No lugar da remoção dos órgãos internos para vasos canópicos, especialistas preenchiam o abdômen e o tórax com fragmentos de papiro encapsulados em argila.
Papiros gregos já haviam sido encontrados anteriormente em processos de mumificação em Oxirrinco, mas os exemplos conhecidos eram, segundo Ignasi-Xavier Adiego, filólogo e diretor do projeto Oxirrinco, “principalmente mágicos”.
A papiróloga Leah Mascia foi quem identificou o fragmento incomum ao examinar os restos: em vez de textos rituais, o pergaminho trazia um catálogo de embarcações gregas — o mesmo listado no Livro II da Ilíada, sobre as naus que partiram para Troia.
Vamos ter que perguntar para a múmia?
Oxirrinco era, em 400 d.C., um centro urbano de forte influência greco-romana, documentada por mais de dois séculos de escavações arqueológicas: “Desde o final do século 19, uma enorme quantidade de papiros foi descoberta em Oxirrinco, incluindo textos literários gregos de grande importância”, afirmou Adiego em comunicado.
Embora múltiplas cópias da Ilíada provavelmente circulassem pela cidade à época, os pesquisadores consideram improvável que outros exemplares tenham sido usados em mumificações. O motivo pelo qual esse trecho específico foi inserido no corpo ainda não foi determinado: “A verdadeira novidade é encontrar um papiro literário em contexto funerário”, declarou Adiego.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)