É possível desaprender a andar de bicicleta?
Estruturas cerebrais específicas explicam por que o corpo “lembra” de como andar de bicicleta mesmo após décadas sem praticar
Por que certas habilidades, mesmo quando não praticadas há anos ou décadas, continuam preservadas, enquanto nem sempre (quase nunca) nos lembramos do que comemos um ou dois dias atrás? Aprender a andar de bicicleta, por exemplo, parece impossível para quem ainda não sabe. Depois que se sabe, parece impossível desaprender. Essa não é Freud quem explica.
Nosso cérebro armazena habilidades motoras por caminhos neurológicos distintos dos usados para guardar fatos e experiências pessoais, e essa diferença é o que permite que alguém volte a pedalar com desenvoltura depois de anos sem tocar em uma bicicleta.
A explicação vem da neurociência da memória, área que distingue ao menos três categorias de recordação de longo prazo, cada uma processada por regiões cerebrais diferentes.
Três tipos de memória, três mecanismos
O neurologista Andrew Budson, professor da Universidade de Boston e coautor do livro Why We Forget and How to Remember Better, divide a memória de longo prazo em três categorias: semântica, episódica e procedural.
A memória semântica reúne informações gerais sobre o mundo — como usar um martelo ou distinguir um gato de um cachorro. A episódica registra experiências vividas pelo próprio indivíduo, como o primeiro beijo. Já a memória procedural é responsável por tarefas que se tornam automáticas com a prática, como tocar violão ou andar de bicicleta.
Segundo Budson, pedalar é uma atividade motora que depende de estruturas profundas do cérebro: “Andar de bicicleta certamente seria um tipo de atividade motora, e depende de algumas estruturas no interior do cérebro chamadas gânglios basais”, além do cerebelo. “Essas são as regiões-chave, e isso é muito diferente da memória de episódios da nossa vida, como lembrar o jantar de ontem à noite”.
Resistência ao tempo e plasticidade
As memórias procedurais se deterioram com menor velocidade do que as episódicas: “Nossas memórias procedurais degradam, mas degradam mais lentamente do que as episódicas”, afirma Budson. “Portanto, não há dúvida de que a prática ajuda a mantê-las muito ativas e faz com que retornem mais rapidamente”.
Isso não significa rigidez. Uma vez consolidada a habilidade, o cérebro ainda permite ajustes. Trocar uma bicicleta urbana por uma mountain bike, por exemplo, exige adaptações, mas a base motora permanece acessível. O mesmo ocorre com o uso de computadores: “Quando você compra um computador novo e eles mudaram a tecla Escape de lugar, você consegue se adaptar a isso”, ilustra Budson.
A psicóloga Elizabeth Kensinger, professora do Boston College e coautora do mesmo livro, acrescenta um dado sobre aprendizado: “É muito mais rápido aprender algo pela segunda ou terceira vez do que foi aprender pela primeira. Há algo que está preparando esses caminhos para se estabelecerem muito mais rapidamente”.
Repetição é condição, não garantia
Subir em uma bicicleta uma única vez não é suficiente para consolidar uma memória procedural duradoura. Os circuitos neurais envolvidos na atividade precisam ser reforçados por meio da repetição para que o gesto se torne automático e resistente a longos períodos de inatividade.
A boa notícia, segundo Kensinger, é que a capacidade de formar esse tipo de memória persiste ao longo de toda a vida: “Se você pensar em muitos adultos mais velhos, eles precisam aprender habilidades motoras bastante complexas. Eles podem precisar aprender a usar uma cadeira de rodas que pode ter mecanismos bastante complicados para travar e destravar os freios. Adultos mais velhos são bastante capazes de aprender esse tipo de habilidade procedural também”.
Por que não há estudos diretos sobre ciclismo e memória?
A escassez de pesquisas específicas sobre bicicleta e memória procedural tem razão prática: é difícil monitorar o cérebro de alguém em movimento sobre um veículo, e os relatos dos próprios participantes sobre suas habilidades tendem a ser imprecisos.
Pesquisadores preferem experimentos controlados — como pedir a voluntários que desenhem formas observando as próprias mãos num espelho — por oferecerem condições mais confiáveis de análise.
Vale notar que o ditado poderia ter usado outro exemplo: até a década de 1940, a expressão equivalente se referia à natação.
Foi o crescimento da popularidade do ciclismo que transformou a bicicleta no símbolo universal de habilidade que não se perde.
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