Releitura de Marcel Duchamp ocupa espaço cultural na USP
Exposição gratuita de Waldo Bravo utiliza o conceito de ready-made para dialogar com o público através de elementos da arte contemporânea
A Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP abriga a mostra “Duchamp Revisitado” até o dia 25 de fevereiro. O artista chileno Waldo Bravo apresenta obras que se apropriam de ícones do vanguardista francês para oferecer novas interpretações ao público.
A entrada para a exibição na sala BDNES é gratuita e não requer agendamento prévio dos visitantes.
Transformação de objetos em arte conceitual
Marcel Duchamp é um dos precursores da arte conceitual, por elevar objetos do cotidiano, conhecidos como ready-mades, ao status de obras em galerias.
“Na minha opinião, e de outros historiadores e críticos de arte, ele é o artista mais importante de toda a história da arte, ou, pelo menos, o mais relevante dos séculos 20 e 21”, afirma Bravo. Para o autor, a produção de Duchamp obrigou o espectador a refletir sobre questões que transcendem a estética.
A exposição exibe a digigrafia E105, que aplica cores variadas à peça “A Fonte”, mictório de porcelana apresentado por Duchamp em 1917. Nesta versão, o artista analisa a validade da autoria mesmo quando o criador não manipula fisicamente o objeto final em sua totalidade.
Outros trabalhos recontextualizam itens como a “Roda de Bicicleta” e o “Secador de Garrafas” por meio de adições visuais e novos suportes. Na obra E47b, o artista substitui a roda por uma imagem de ovo frito, enquanto na tela B81 insere flores-de-seda no suporte de metal.
Antropofagia e integração de linguagens urbanas
O projeto busca reduzir a distância entre o pensamento intelectualizado e o público por meio de uma linguagem visual direta. O chileno utiliza o humor e a ludicidade para apresentar os conceitos históricos aos visitantes da universidade.
“O legado de Duchamp, historicamente, sempre fica restrito a minorias intelectualizadas e longe do grande público. A exposição busca, de certa forma, aproximar seu pensamento das massas com uma abordagem mais informal, mais descontraída e mais divertida”, explica o curador da exposição.
As peças misturam símbolos duchampianos a signos próprios de Bravo, que remetem ao grafite e a formas da arte rupestre. Esses elementos surgiram na produção do artista após o contato com o cenário urbano brasileiro na década de 1980.
A técnica utiliza serigrafia e tinta acrílica para fundir as referências históricas com a estética desenvolvida pelo chileno. Bravo define esse método de trabalho como um processo de alimentação mútua entre diferentes épocas e estilos da história artística.
“No sentido de canibalismo mesmo. Eu me alimento do trabalho duchampiano para criar coisas novas, a arte se alimenta da arte”, define Bravo.
A mostra funciona de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h, no campus da Cidade Universitária, em São Paulo.
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