Por que jogamos? Ciência procura resposta na evolução

05.10.2026

logo-crusoe-new
O Antagonista
Por que jogamos? Ciência procura resposta na evolução
avatar
Redação O Antagonista
4 minutos de leitura 30.04.2026 18:08 comentários
Cultura

Por que jogamos? Ciência procura resposta na evolução

Pesquisa publicada neste ano combina experimento presencial e simulação para explicar a origem e a utilidade dos jogos

avatar
Redação O Antagonista
4 minutos de leitura 30.04.2026 18:08 comentários 0
Por que jogamos? Ciência procura resposta na evolução
Estudo tenta entender o comportamento humano de jogar

Simular caçadas e batalhas em forma de jogo pode ter dado aos seres humanos uma vantagem evolutiva, ao ajudá-los a identificar parceiros competentes para tarefas de alto risco. É o que sugere um estudo publicado na revista Evolution and Human Behavior, conduzido por estudiosos brasileiros e estrangeiros.

A pesquisa combinou um experimento presencial com 40 participantes e um modelo computacional de simulação evolutiva. Os resultados indicam que os benefícios sociais dos jogos não são automáticos — dependem do nível de habilidade dos envolvidos e do grau de perigo presente no ambiente.

A hipótese da competição por aliados

O estudo parte de uma distinção entre brincar e jogar. Enquanto brincar é uma atividade espontânea e sem objetivos definidos — comum em bebês humanos e em diversas espécies animais —, jogar envolve superar desafios com regras específicas, frequentemente em cenários que imitam a guerra ou a caça.

Por surgir mais tarde no desenvolvimento humano e parecer exclusivo da espécie, o comportamento de jogar levantou questões sobre quais pressões evolutivas teriam favorecido seu surgimento.

A resposta proposta pelos pesquisadores é chamada de “hipótese da competição por aliados”: os jogos teriam evoluído como uma ferramenta estratégica para que indivíduos competissem, formassem e mantivessem relações com parceiros valiosos.

O pesquisador principal, Yago Lukševičius de Moraes, professor-assistente da Fundação Santo André, conta que o interesse pelo tema surgiu ao observar que os jogos são mais prevalentes entre homens do que entre mulheres.

“Em 2019, durante meu mestrado, examinei se os jogos contribuíam para o sucesso reprodutivo ou parental masculino. As evidências sugeriram que os jogos são mais relevantes para a formação de amizades do que para o acasalamento”, afirma.

O experimento e o que os dados revelaram

Para testar a hipótese, os pesquisadores recrutaram 40 participantes entre 18 e 40 anos, divididos em duplas do mesmo sexo formadas por estranhos.

Metade das duplas jogou Nine Men’s Morris — um jogo de tabuleiro abstrato de origem antiga — enquanto a outra metade realizou uma atividade de dramatização em que os dois deveriam chegar a um consenso sobre desejos opostos.

Os participantes preencheram questionários sobre o valor percebido do parceiro e a proximidade relacional antes e depois das atividades, com retornos ao laboratório 14 e 28 dias depois.

A expectativa era que o jogo acelerasse o vínculo entre os participantes. Os dados não confirmaram essa previsão.

As mudanças na percepção mútua ocorreram ao longo das sessões, mas foram atribuídas ao simples convívio, e não à atividade realizada. Jogar não produziu alterações mais fortes ou mais rápidas na proximidade entre os participantes do que a atividade de dramatização.

A simulação computacional e as condições para a evolução dos jogos

Diante das limitações do ambiente laboratorial — considerado de baixo risco em comparação com o contexto ancestral humano —, os pesquisadores recorreram a um modelo de simulação baseado em agentes.

Cada população simulada era composta por 100 agentes: 99 não jogadores e um jogador mutante portador do traço específico para jogar. A cada geração, os agentes buscavam um parceiro para enfrentar tarefas cooperativas com riscos variáveis de morte.

Os resultados mostraram que o comportamento de jogar só se propagou pela população sob condições muito específicas. O jogador inicial precisava ter habilidade acima da média — indivíduos com baixa habilidade viram o traço desaparecer. Além disso, o nível de risco ambiental precisava crescer junto com a habilidade média da população; ambientes estáticos não sustentavam a vantagem do jogo.

“Um achado inesperado foi que as simulações mostraram que os jogos podem evoluir mesmo sem que os indivíduos se lembrem de parceiros anteriores”, disse de Moraes. “Isso sugere que os benefícios sociais dos jogos não dependem necessariamente de relações de longo prazo, mas podem emergir de interações de curto prazo”.

Próximas hipóteses

Os pesquisadores reconhecem limitações no trabalho: amostras pequenas, período de interação relativamente curto e um único tipo de jogo testado.

Para estudos futuros, de Moraes planeja expandir o modelo teórico incorporando aprendizado social e parentesco genético, além de testar se os jogos funcionam como mecanismo não-violento de resolução de conflitos sociais.

O estudo foi assinado também por Marco Antonio Correa Varella, Leonardo Cezar Silva Costa, Nayara Teles e Jaroslava Varella Valentova.

  • Mais lidas
  • Mais comentadas
  • Últimas notícias
1

Gleisi perde vaga no Senado para candidatos da direita no Paraná

Gleisi perde vaga no Senado para candidatos da direita no Paraná
2

De Gleisi a Randolfe, PT perde em diversos estados e nomes históricos ficam de fora

De Gleisi a Randolfe, PT perde em diversos estados e nomes históricos ficam de fora
3

Senado terá maioria para impeachment, diz Ranking dos Políticos

Senado terá maioria para impeachment, diz Ranking dos Políticos
4

Renan Calheiros é derrotado em Alagoas; Lira é eleito senador

Renan Calheiros é derrotado em Alagoas; Lira é eleito senador
5

Jair Renan Bolsonaro é eleito deputado federal em SC

Jair Renan Bolsonaro é eleito deputado federal em SC
6

Soraya Thronicke sofre derrota e fica fora do Senado em MS

Soraya Thronicke sofre derrota e fica fora do Senado em MS
7

Janja e Nikolas Ferreira, o “piá de bosta” de 3 milhões de votos

Janja e Nikolas Ferreira, o “piá de bosta” de 3 milhões de votos
8

Crusoé: Bancada de Nikolas tem 6 deputados federais e 18 estaduais

Crusoé: Bancada de Nikolas tem 6 deputados federais e 18 estaduais
9

Kataguiri diz que promessa de renúncia valia para 3%, não 2% de Renan

Kataguiri diz que promessa de renúncia valia para 3%, não 2% de Renan
10

Crusoé: Trump compara apuração dos votos no Brasil e nos EUA

Crusoé: Trump compara apuração dos votos no Brasil e nos EUA
1

Moro é eleito governador do Paraná

Moro é eleito governador do Paraná
2

Maioria dos presidiários da Papuda dá preferência a Lula

Maioria dos presidiários da Papuda dá preferência a Lula
3

Gleisi perde vaga no Senado para candidatos da direita no Paraná

Gleisi perde vaga no Senado para candidatos da direita no Paraná
4

Eleições de 2026 deixam a esquerda brasileira à beira da extinção

Eleições de 2026 deixam a esquerda brasileira à beira da extinção
5

Senado terá maioria para impeachment, diz Ranking dos Políticos

Senado terá maioria para impeachment, diz Ranking dos Políticos
6

Filho de Arthur Lira é eleito deputado aos 20 anos em Alagoas

Filho de Arthur Lira é eleito deputado aos 20 anos em Alagoas
7

Janja e Nikolas Ferreira, o “piá de bosta” de 3 milhões de votos

Janja e Nikolas Ferreira, o “piá de bosta” de 3 milhões de votos
8

Lula: "Eu sou muito bom no mata-mata"

Lula: "Eu sou muito bom no mata-mata"
9

Novo supera cláusula de barreira e elege 13 parlamentares

Novo supera cláusula de barreira e elege 13 parlamentares
10

De Gleisi a Randolfe, PT perde em diversos estados e nomes históricos ficam de fora

De Gleisi a Randolfe, PT perde em diversos estados e nomes históricos ficam de fora
1

O mercado comprou Flávio. Qual Flávio?

O mercado comprou Flávio. Qual Flávio?
2

Temer anuncia apoio a Flávio no segundo turno

Temer anuncia apoio a Flávio no segundo turno
3

“Que o povo arque com as consequências”, diz Garotinho

“Que o povo arque com as consequências”, diz Garotinho
4

Relembre as gafes e pérolas ditas por Lula no 1º turno

Relembre as gafes e pérolas ditas por Lula no 1º turno
5

Valdemar diz que Bolsonaro terá participação em eventual governo de Flávio

Valdemar diz que Bolsonaro terá participação em eventual governo de Flávio
6

Bolsonaro pede a Moraes volta de visitas e encontro antecipado com Flávio

Bolsonaro pede a Moraes volta de visitas e encontro antecipado com Flávio
7

Crusoé: Erundina se torna a deputada mais velha eleita na história da Alesp

Crusoé: Erundina se torna a deputada mais velha eleita na história da Alesp
8

Bets acionam STF contra bloqueio de sites marcado para esta terça

Bets acionam STF contra bloqueio de sites marcado para esta terça
9

A era do PT acabou, diz Flávio. E agora? 

A era do PT acabou, diz Flávio. E agora? 
10

Nikolas explica por que deixou Carlos Bolsonaro fora de sua “colinha”

Nikolas explica por que deixou Carlos Bolsonaro fora de sua “colinha”

Tags relacionadas

antropologia comportamento social
< Notícia Anterior

“Se você é judeu, não está seguro”, diz rabino-chefe britânico

30.04.2026 00:00 4 minutos de leitura
Próxima notícia >

SP libera vacina da dengue para população de 59 anos

30.04.2026 00:00 4 minutos de leitura
avatar

Redação O Antagonista

O Antagonista é um dos principais sites jornalísticos de informação e análise sobre política do Brasil. Sua equipe é composta por jornalistas profissionais, empenhados na divulgação de fatos de interesse público devidamente verificados e no combate às fake news.

Suas redes

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (0)

Torne-se um assinante para comentar

Início

Seja nosso assinante

E tenha acesso exclusivo aos nossos conteúdos

Apoie o jornalismo independente. Assine O Antagonista e a Revista Crusoé.