Por que jogamos? Ciência procura resposta na evolução
Pesquisa publicada neste ano combina experimento presencial e simulação para explicar a origem e a utilidade dos jogos
Simular caçadas e batalhas em forma de jogo pode ter dado aos seres humanos uma vantagem evolutiva, ao ajudá-los a identificar parceiros competentes para tarefas de alto risco. É o que sugere um estudo publicado na revista Evolution and Human Behavior, conduzido por estudiosos brasileiros e estrangeiros.
A pesquisa combinou um experimento presencial com 40 participantes e um modelo computacional de simulação evolutiva. Os resultados indicam que os benefícios sociais dos jogos não são automáticos — dependem do nível de habilidade dos envolvidos e do grau de perigo presente no ambiente.
A hipótese da competição por aliados
O estudo parte de uma distinção entre brincar e jogar. Enquanto brincar é uma atividade espontânea e sem objetivos definidos — comum em bebês humanos e em diversas espécies animais —, jogar envolve superar desafios com regras específicas, frequentemente em cenários que imitam a guerra ou a caça.
Por surgir mais tarde no desenvolvimento humano e parecer exclusivo da espécie, o comportamento de jogar levantou questões sobre quais pressões evolutivas teriam favorecido seu surgimento.
A resposta proposta pelos pesquisadores é chamada de “hipótese da competição por aliados”: os jogos teriam evoluído como uma ferramenta estratégica para que indivíduos competissem, formassem e mantivessem relações com parceiros valiosos.
O pesquisador principal, Yago Lukševičius de Moraes, professor-assistente da Fundação Santo André, conta que o interesse pelo tema surgiu ao observar que os jogos são mais prevalentes entre homens do que entre mulheres.
“Em 2019, durante meu mestrado, examinei se os jogos contribuíam para o sucesso reprodutivo ou parental masculino. As evidências sugeriram que os jogos são mais relevantes para a formação de amizades do que para o acasalamento”, afirma.
O experimento e o que os dados revelaram
Para testar a hipótese, os pesquisadores recrutaram 40 participantes entre 18 e 40 anos, divididos em duplas do mesmo sexo formadas por estranhos.
Metade das duplas jogou Nine Men’s Morris — um jogo de tabuleiro abstrato de origem antiga — enquanto a outra metade realizou uma atividade de dramatização em que os dois deveriam chegar a um consenso sobre desejos opostos.
Os participantes preencheram questionários sobre o valor percebido do parceiro e a proximidade relacional antes e depois das atividades, com retornos ao laboratório 14 e 28 dias depois.
A expectativa era que o jogo acelerasse o vínculo entre os participantes. Os dados não confirmaram essa previsão.
As mudanças na percepção mútua ocorreram ao longo das sessões, mas foram atribuídas ao simples convívio, e não à atividade realizada. Jogar não produziu alterações mais fortes ou mais rápidas na proximidade entre os participantes do que a atividade de dramatização.
A simulação computacional e as condições para a evolução dos jogos
Diante das limitações do ambiente laboratorial — considerado de baixo risco em comparação com o contexto ancestral humano —, os pesquisadores recorreram a um modelo de simulação baseado em agentes.
Cada população simulada era composta por 100 agentes: 99 não jogadores e um jogador mutante portador do traço específico para jogar. A cada geração, os agentes buscavam um parceiro para enfrentar tarefas cooperativas com riscos variáveis de morte.
Os resultados mostraram que o comportamento de jogar só se propagou pela população sob condições muito específicas. O jogador inicial precisava ter habilidade acima da média — indivíduos com baixa habilidade viram o traço desaparecer. Além disso, o nível de risco ambiental precisava crescer junto com a habilidade média da população; ambientes estáticos não sustentavam a vantagem do jogo.
“Um achado inesperado foi que as simulações mostraram que os jogos podem evoluir mesmo sem que os indivíduos se lembrem de parceiros anteriores”, disse de Moraes. “Isso sugere que os benefícios sociais dos jogos não dependem necessariamente de relações de longo prazo, mas podem emergir de interações de curto prazo”.
Próximas hipóteses
Os pesquisadores reconhecem limitações no trabalho: amostras pequenas, período de interação relativamente curto e um único tipo de jogo testado.
Para estudos futuros, de Moraes planeja expandir o modelo teórico incorporando aprendizado social e parentesco genético, além de testar se os jogos funcionam como mecanismo não-violento de resolução de conflitos sociais.
O estudo foi assinado também por Marco Antonio Correa Varella, Leonardo Cezar Silva Costa, Nayara Teles e Jaroslava Varella Valentova.
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