Por que jogamos? Ciência procura resposta na evolução

20.08.2026

logo-crusoe-new
O Antagonista

Por que jogamos? Ciência procura resposta na evolução

avatar
Redação O Antagonista
4 minutos de leitura 30.04.2026 18:08 comentários
Cultura

Por que jogamos? Ciência procura resposta na evolução

Pesquisa publicada neste ano combina experimento presencial e simulação para explicar a origem e a utilidade dos jogos

avatar
Redação O Antagonista
4 minutos de leitura 30.04.2026 18:08 comentários 0
Por que jogamos? Ciência procura resposta na evolução
Estudo tenta entender o comportamento humano de jogar

Simular caçadas e batalhas em forma de jogo pode ter dado aos seres humanos uma vantagem evolutiva, ao ajudá-los a identificar parceiros competentes para tarefas de alto risco. É o que sugere um estudo publicado na revista Evolution and Human Behavior, conduzido por estudiosos brasileiros e estrangeiros.

A pesquisa combinou um experimento presencial com 40 participantes e um modelo computacional de simulação evolutiva. Os resultados indicam que os benefícios sociais dos jogos não são automáticos — dependem do nível de habilidade dos envolvidos e do grau de perigo presente no ambiente.

A hipótese da competição por aliados

O estudo parte de uma distinção entre brincar e jogar. Enquanto brincar é uma atividade espontânea e sem objetivos definidos — comum em bebês humanos e em diversas espécies animais —, jogar envolve superar desafios com regras específicas, frequentemente em cenários que imitam a guerra ou a caça.

Por surgir mais tarde no desenvolvimento humano e parecer exclusivo da espécie, o comportamento de jogar levantou questões sobre quais pressões evolutivas teriam favorecido seu surgimento.

A resposta proposta pelos pesquisadores é chamada de “hipótese da competição por aliados”: os jogos teriam evoluído como uma ferramenta estratégica para que indivíduos competissem, formassem e mantivessem relações com parceiros valiosos.

O pesquisador principal, Yago Lukševičius de Moraes, professor-assistente da Fundação Santo André, conta que o interesse pelo tema surgiu ao observar que os jogos são mais prevalentes entre homens do que entre mulheres.

Em 2019, durante meu mestrado, examinei se os jogos contribuíam para o sucesso reprodutivo ou parental masculino. As evidências sugeriram que os jogos são mais relevantes para a formação de amizades do que para o acasalamento”, afirma.

O experimento e o que os dados revelaram

Para testar a hipótese, os pesquisadores recrutaram 40 participantes entre 18 e 40 anos, divididos em duplas do mesmo sexo formadas por estranhos.

Metade das duplas jogou Nine Men’s Morris — um jogo de tabuleiro abstrato de origem antiga — enquanto a outra metade realizou uma atividade de dramatização em que os dois deveriam chegar a um consenso sobre desejos opostos.

Os participantes preencheram questionários sobre o valor percebido do parceiro e a proximidade relacional antes e depois das atividades, com retornos ao laboratório 14 e 28 dias depois.

A expectativa era que o jogo acelerasse o vínculo entre os participantes. Os dados não confirmaram essa previsão.

As mudanças na percepção mútua ocorreram ao longo das sessões, mas foram atribuídas ao simples convívio, e não à atividade realizada. Jogar não produziu alterações mais fortes ou mais rápidas na proximidade entre os participantes do que a atividade de dramatização.

A simulação computacional e as condições para a evolução dos jogos

Diante das limitações do ambiente laboratorial — considerado de baixo risco em comparação com o contexto ancestral humano —, os pesquisadores recorreram a um modelo de simulação baseado em agentes.

Cada população simulada era composta por 100 agentes: 99 não jogadores e um jogador mutante portador do traço específico para jogar. A cada geração, os agentes buscavam um parceiro para enfrentar tarefas cooperativas com riscos variáveis de morte.

Os resultados mostraram que o comportamento de jogar só se propagou pela população sob condições muito específicas. O jogador inicial precisava ter habilidade acima da média — indivíduos com baixa habilidade viram o traço desaparecer. Além disso, o nível de risco ambiental precisava crescer junto com a habilidade média da população; ambientes estáticos não sustentavam a vantagem do jogo.

Um achado inesperado foi que as simulações mostraram que os jogos podem evoluir mesmo sem que os indivíduos se lembrem de parceiros anteriores”, disse de Moraes. “Isso sugere que os benefícios sociais dos jogos não dependem necessariamente de relações de longo prazo, mas podem emergir de interações de curto prazo”.

Próximas hipóteses

Os pesquisadores reconhecem limitações no trabalho: amostras pequenas, período de interação relativamente curto e um único tipo de jogo testado.

Para estudos futuros, de Moraes planeja expandir o modelo teórico incorporando aprendizado social e parentesco genético, além de testar se os jogos funcionam como mecanismo não-violento de resolução de conflitos sociais.

O estudo foi assinado também por Marco Antonio Correa Varella, Leonardo Cezar Silva Costa, Nayara Teles e Jaroslava Varella Valentova.

  • Mais lidas
  • Mais comentadas
  • Últimas notícias
1

Deputados pedem urgência para transferir sede do governo federal para o RJ

Deputados pedem urgência para transferir sede do governo federal para o RJ
2

Advogado admite ter falado sobre Lulinha com Lula

Advogado admite ter falado sobre Lulinha com Lula
3

Advogado de Lulinha se reúne com Lula

Advogado de Lulinha se reúne com Lula
4

Amiga de Lulinha intermediava contrato de R$ 626 milhões com o governo Lula, indica minuta

Amiga de Lulinha intermediava contrato de R$ 626 milhões com o governo Lula, indica minuta
5

Campanha de Lula pressiona ministro da Justiça para blindar Lulinha?

Campanha de Lula pressiona ministro da Justiça para blindar Lulinha?
6

Crusoé: PGR tenta tirar caso Lulinha do STF

Crusoé: PGR tenta tirar caso Lulinha do STF
7

Eu sou mais jornalista que muito ministro do STF é juiz

Eu sou mais jornalista que muito ministro do STF é juiz
8

Vice de Haddad defende Marcola, investigado pela PF

Vice de Haddad defende Marcola, investigado pela PF
9

Lulinha não é só mais um Silva

Lulinha não é só mais um Silva
10

Valdemar atribui crescimento de Flávio a Michelle: “Paz na família”

Valdemar atribui crescimento de Flávio a Michelle: “Paz na família”
1

Advogado admite ter falado sobre Lulinha com Lula

Advogado admite ter falado sobre Lulinha com Lula
2

Eu sou mais jornalista que muito ministro do STF é juiz

Eu sou mais jornalista que muito ministro do STF é juiz
3

Zema propõe idade mínima de 60 anos para indicados ao STF

Zema propõe idade mínima de 60 anos para indicados ao STF
4

Glauber faz campanha a deputado pela "luta do Povo Palestino"

Glauber faz campanha a deputado pela "luta do Povo Palestino"
5

Flávio come pastel e promete “arrumar a bagunça” de Lula

Flávio come pastel e promete “arrumar a bagunça” de Lula
6

Durigan quer discutir ajuste fiscal com Pedro Malan e Arminio Fraga

Durigan quer discutir ajuste fiscal com Pedro Malan e Arminio Fraga
7

Luís Felipe Salomão assume presidência do STJ em cerimônia sem Lula

Luís Felipe Salomão assume presidência do STJ em cerimônia sem Lula
8

Campanha de Lula pressiona ministro da Justiça para blindar Lulinha?

Campanha de Lula pressiona ministro da Justiça para blindar Lulinha?
9

Amiga de Lulinha intermediava contrato de R$ 626 milhões com o governo Lula, indica minuta

Amiga de Lulinha intermediava contrato de R$ 626 milhões com o governo Lula, indica minuta
10

Vice de Haddad defende Marcola, investigado pela PF

Vice de Haddad defende Marcola, investigado pela PF
1

Quem é o par ideal de Virgem? Astróloga revela a compatibilidade com os 12 signos

Quem é o par ideal de Virgem? Astróloga revela a compatibilidade com os 12 signos
2

Amiga de Lulinha diz em mensagem que conversou com Lula

Amiga de Lulinha diz em mensagem que conversou com Lula
3

Empresário doa R$ 40 mil para campanha de ACM Neto

Empresário doa R$ 40 mil para campanha de ACM Neto
4

Do grão-de-bico à lentilha: 3 sopas ricas em proteína vegetal para um jantar leve 

Do grão-de-bico à lentilha: 3 sopas ricas em proteína vegetal para um jantar leve 
5

Imóvel novo ou usado: o que avaliar antes de financiar? 

Imóvel novo ou usado: o que avaliar antes de financiar? 
6

Tarcísio recebe R$ 1 milhão do fundo partidário do Republicanos

Tarcísio recebe R$ 1 milhão do fundo partidário do Republicanos
7

Crusoé: Por que os bolivianos suspeitam do argentino das urnas

Crusoé: Por que os bolivianos suspeitam do argentino das urnas
8

Envelhecimento ativo: 7 hábitos para o idoso que quer preservar autonomia e qualidade de vida

Envelhecimento ativo: 7 hábitos para o idoso que quer preservar autonomia e qualidade de vida
9

Terremoto de magnitude 6,7 atinge o Peru

Terremoto de magnitude 6,7 atinge o Peru
10

Prepare o coração: estes signos ainda podem viver uma reviravolta na vida amorosa em agosto

Prepare o coração: estes signos ainda podem viver uma reviravolta na vida amorosa em agosto

Tags relacionadas

antropologia comportamento social
< Notícia Anterior

“Se você é judeu, não está seguro”, diz rabino-chefe britânico

30.04.2026 00:00 4 minutos de leitura
Próxima notícia >

SP libera vacina da dengue para população de 59 anos

30.04.2026 00:00 4 minutos de leitura
avatar

Redação O Antagonista

O Antagonista é um dos principais sites jornalísticos de informação e análise sobre política do Brasil. Sua equipe é composta por jornalistas profissionais, empenhados na divulgação de fatos de interesse público devidamente verificados e no combate às fake news.

Suas redes

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (0)

Torne-se um assinante para comentar

Início

Seja nosso assinante

E tenha acesso exclusivo aos nossos conteúdos

Apoie o jornalismo independente. Assine O Antagonista e a Revista Crusoé.